Os Tempos Que Correm
Miguel Vale de AlmeidaNa mouche
(texto de Fernanda Câncio copiado do Notícias Magazine de hoje)«Conhecer alguém. Aprender alguém. Achar que se conhece – que se sabe dessa pessoa, quem é, o que pensa, o que sente e como, de que é e não é capaz. Dizer: sei quem és. Pensar: sabes quem sou. Confio em ti. Confia em mim. Pôr a mão no fogo. Pôr tudo no fogo. E pensar, enquanto se põe: e se for um erro? Pôr tudo no fogo sabendo que é quase sempre um erro. Esperar. Esperar que não seja como quase sempre, esperar que seja como quase sempre. Às vezes é difícil perceber o que se espera, aquilo em que se aposta. Talvez se aposte apenas, a partir de certa altura, em acertar. Quer dizer: em ter errado. É mais seguro, esperar pela certidão do engano. Uma espécie paradoxal de seguro, o de antecipar o desastre – mas não é disso mesmo que vive o ramo?Sim, o mais certo é errar. Erramos até sobre nós, como não sobre os outros? Imaginemos, porém, que conseguíamos mesmo saber o que os outros pensam. Ouvi-los como nos ouvimos a nós nos nossos solilóquios, o que acham mesmo disto e daquilo e deste e daquele, o que querem e o queriam mesmo dizer quando disseram outra coisa qualquer. Imaginemos que à primeira vista marcávamos os que nos iam iludir e desiludir (de uma forma ou de outra, todos, certo?) e adivinhávamos como. Não como fazemos agora, exercitando o cálculo de probabilidades e aguçando a intuição, mas com certeza e certificação. Como seria? Haveria lugares ermos suficientes para tantos misantropos?O momento em que desistimos de nos enganar, o momento em que o medo vence a curiosidade e desistimos do enlevo, do doce, irrepetível entusiasmo de aprender — prender – cada alguém; o momento em que dizemos “não vale a pena”, “é sempre o mesmo”; o momento em que decretamos o fim da aventura e nos seguramos ao seguro, ao silêncio; o momento em que nos ensimesmamos (que verbo este) e corremos todos os ferrolhos e ligamos o alarme – não vá alguém entrar, passar as barbacãs e os fossos, galgar a última muralha – nesse momento estamos mortos. Não há outra forma de viver senão aceitando a norma que Philip Roth decreta em American Pastoral: Ler o resto da entrada »
Goddam stupid self
Tod@s sabemos que a vida é feita de mudanças, bla, bla, bla. Sabemos que a maturidade relativa se constrói no confronto com essas mudanças. E temos a noção moral de que há males piores que outros: sabemos que a morte de alguém próximo, uma doença grave ou um descalabro laboral e financeiro são mais graves do que um mal de amor, um coração partido. Mas enquanto não nos acontece nenhuma desgraça daquelas (ah, mas… segredo imoral e inconfessado por muita gente: mesmo quando nos acontece…) tememos secretamente o broken heart.Há, claro, razões culturais para isso. Mas pouco importam e nada apaziguam: vivemos as nossas emoções com os guiões que interiorizámos e isso é quanto basta - não há uma forma pura para lá do nosso contexto. Se sofremos dentro dos parâmetros narrativos e simbólicos da nossa cultura, sofremos e ponto. O coração partido é uma merda. A pessoa com o coração partido compara a sua situação (deuses, a imoralidade da coisa…) com a morte de alguém e diz “pelo menos na morte há closure“; a pessoa com o coração partido compara a situação com a doença e diz “pelo menos a doença combate-se e, em último caso, conduz ao fim e com ele ao fim do coração partido”; a pessoa com o coração partido compara a situação com a pobreza e diz “em pouco ou nada alteraria o que sinto, apenas pioraria as coisas”. And so on. É assim, perdoem a imoralidade.O problema do coração partido é esse: instala-se, define a pessoa, corrói as defesas, cerceia a capacidade de acção, abala a fé. É um vírus, uma bactéria, uma espécie de deficiência que não está prevista pela segurança social ou pelas regras de construção de edifícios. O coração partido mina a auto-estima, obriga ao revisionismo do passado, enegrece o futuro, rói-mói-dói como uma enxaqueca permanente. Não há enterros e lápides, remédios eficazes e terapias, rendimentos sociais de inserção - apenas rituais palermas de esquecimento, “deboches” e “sacanagens” temporários para esquecer (com efeitos secundários), compensações materiais tendencialmente ruinosas. É um esperar, um esforçar para sair da cama, um penar o cumprimento de rotinas, até que… Até que… fuck if we know.E, sim, é uma morte-viva, uma doença crónica, uma miséria (uma misery…) latente. Se acontecer tarde na vida, depois de décadas de feliz afastamento dessa experiência, é exponenciada pela lucidez e pela maturidade - coisas que, ao contrário do que o povo diz, não ajudam coisíssima nenhuma, apenas tornam tudo mais pateticamente duro. “É a vida”, “segue em frente”, “esquece”, “aprende-se muito” e “leva tempo” são as pérolas que a pessoa com o coração partido mais ouve. Pérolas de contrabando, diz o partido raivoso. Mas com a perseverança e o estoicismo de quem assiste a um funeral, se dedica a uma terapêutica dura ou conta os tostões para chegar ao fim do mês, talvez as pérolas vão parecendo verdadeiras. Talvez. Desistir (ah, thanatos contra eros…) é que não vale: ao menos que o coração partido não parta outros corações. (Happy vacation, you goddam stupid self)
Enough…
…blood (and enough tears). Only sweat. Back to férias ![]()
Beijo
Subscrevo a carta aberta à TVI, por causa da cedência à pressão homofóbica no caso “Morangos com Açúcar”, aqui.
Novidades sanguíneas, entretanto
Novidades de hoje, aqui.
Assim não vale
«Deverão ser os comportamentos de risco a determinar a exclusão da doação de sangue, sejam homens ou mulheres, homossexuais ou heterossexuais e não outro qualquer factor arbitrário e discriminatório que parte de pressupostos estereotipados.»
Subscrevo. Regressado de umas férias de isolamento quase total fico chocado com a notícia avançada pelo Jornal de Notícias. Sobretudo depois de aprovada a Resolução referida no comunicado, resolução essa que contou com o apoio do grupo parlamentar do PS. Na reabertura da sessão legislativa em setembro certamente este assunto não ficará esquecido. Por mim não, pelo menos.







