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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Arraial do orgulho (na liberdade)

De um lado desfilam viaturas militares antigas. Do outro, um grupo de evangélicos guineenses ouve uma pregação em crioulo em que se distingue a palavra “Satanás”. No centro decorre o Arraial Pride. Na luz de fim de tarde à beira-Tejo dir-se-ia uma quermesse rural inglesa. No bom sentido. Muitos carrinhos de bebé, muito velhos (mas não do Restelo), gente gorda e magra, escura e clara, burguesa e popular. No Arraialito, as crianças, na sua maioria filhas de casais hetero, ouvem histórias contadas por fantoches, pintam livros que retratam vários tipos de famílias. Às tantas são os miúdos guineenses que acorrem à tenda. Os pais e as mães passeiam por entre o arraial, assim como os turistas e os polícias. Por entre a crescente multidão vê-se o representante da associação de polícias gay e lésbicas, vê-se o casal hetero que fundou a associação de pais e mães pela liberdade de orientação sexual dos filhos dando entrevistas no Welcome Center da ILGA-Portugal, decorado com um painel alusivo aos 40 anos da revolta de Stonewall. Um senhor passa por mim com uma página do Le Monde e pede-me que preste atenção ao iraniano que corre o risco de ser expulso da Europa (onde vinha casar-se, na Bélgica, com o seu companheiro) e ser enforcado no Irão. Num extremo decorrem os Queer Games, com corridas de salto alto e saia travada, arremeso de pochete e de tairocas ao Papa – fazendo jus à auto-ironia que caracteriza a comunidade LGBT desde… sempre (como suportar a homofobia sem auto-ironia?). À medida que a tarde cai, o recinto vai enchendo, os bares começam o frenesim, a música soa no palco. Pela primeira vez um presidente da Câmara demostra-se digno desse nome e aparece no palco para saudar a iniciativa: “Tenho orgulho em que vocês tenham orgulho”. Homenageia-se António Variações (quantos pequenos países têm um ícone pop gay?) e Ruth Bryden, ouve-se música de vários géneros, que o arraial arrasta cada vez mais jovens, LGBT ou não, que sentem que a narrativa daquele espaço e daquele tempo de festa é – mais ainda do que a retórica da diversidade e do combate ao preconceito – a do valor que mais prezávamos há 3 décadas atrás: a liberdade. El Terremoto de Alcorcón goza consigo mesma e os seus conterrâneos cantando em spanglish: “i rrrrainingue mén, aleluia!” ou “lóbe i in di é!”. E diz que apesar de o Pride de Madrid ser gigantesco, é aqui em Lisboa que vê a maior percentagem de mulheres. Algo que decorre de o movimento LGBT português ser dos mais equilibrados entre L e G que conheço por esse mundo fora. “Vivan los coños!”, pois, como disse ela levantando a sua saia multicolorida de artista-mulher “passando” por travesti. Pelas três e meia da manhã o céu desaba. “God hates fags”? Não creio: acho é que cada uma tem a sua forma peculiar de demonstrar afecto e Ela o que tem é a água (não usou trovões, pois não?).

4 Comentários »

  rita m. escreveu em 28.June.2009 | 14:51

maravilhoso maravilhoso maravilhoso. é por estas e por outras, que ainda que teoricamente seja hetero, me sinto cada vez mais próxima e sensibilizada com a causa LGBT. E é uma merda os exames darem cabo da vida a uma pessoa, caso contrario, teria adorado rumar a lisboa para passar uma horas espectaculares. Embora não conheça pessoalmente nenhuma pessoa activista LGBT, penso que é um movimento de que devemos ter muito orgulho, pela coragem, pela lucidez, pela profundidade do debate social, pelo humor, por tudo.

Pessoalmente admiro-o Miguel, porque acho que representa muito bem tudo isso.

Por isso um, beijinho, e parabéns a tod@s!

  Pedro escreveu em 28.June.2009 | 15:03

LOL!! Quem não anseia por beijinhos húmidos???

  one man show « cuando calienta el sol escreveu em 28.June.2009 | 18:00

[…] já agora, para desfazer mitos, ler este post do Miguel Vale de […]

  Tatiana escreveu em 29.June.2009 | 23:58

Que testemunho bonito, cheio de bons pormenores e de observações muito atentas…

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