De um lado desfilam viaturas militares antigas. Do outro, um grupo de evangélicos guineenses ouve uma pregação em crioulo em que se distingue a palavra “Satanás”. No centro decorre o Arraial Pride. Na luz de fim de tarde à beira-Tejo dir-se-ia uma quermesse rural inglesa. No bom sentido. Muitos carrinhos de bebé, muito velhos (mas não do Restelo), gente gorda e magra, escura e clara, burguesa e popular. No Arraialito, as crianças, na sua maioria filhas de casais hetero, ouvem histórias contadas por fantoches, pintam livros que retratam vários tipos de famílias. Às tantas são os miúdos guineenses que acorrem à tenda. Os pais e as mães passeiam por entre o arraial, assim como os turistas e os polícias. Por entre a crescente multidão vê-se o representante da associação de polícias gay e lésbicas, vê-se o casal hetero que fundou a associação de pais e mães pela liberdade de orientação sexual dos filhos dando entrevistas no Welcome Center da ILGA-Portugal, decorado com um painel alusivo aos 40 anos da revolta de Stonewall. Um senhor passa por mim com uma página do Le Monde e pede-me que preste atenção ao iraniano que corre o risco de ser expulso da Europa (onde vinha casar-se, na Bélgica, com o seu companheiro) e ser enforcado no Irão. Num extremo decorrem os Queer Games, com corridas de salto alto e saia travada, arremeso de pochete e de tairocas ao Papa – fazendo jus à auto-ironia que caracteriza a comunidade LGBT desde… sempre (como suportar a homofobia sem auto-ironia?). À medida que a tarde cai, o recinto vai enchendo, os bares começam o frenesim, a música soa no palco. Pela primeira vez um presidente da Câmara demostra-se digno desse nome e aparece no palco para saudar a iniciativa: “Tenho orgulho em que vocês tenham orgulho”. Homenageia-se António Variações (quantos pequenos países têm um ícone pop gay?) e Ruth Bryden, ouve-se música de vários géneros, que o arraial arrasta cada vez mais jovens, LGBT ou não, que sentem que a narrativa daquele espaço e daquele tempo de festa é – mais ainda do que a retórica da diversidade e do combate ao preconceito – a do valor que mais prezávamos há 3 décadas atrás: a liberdade. El Terremoto de Alcorcón goza consigo mesma e os seus conterrâneos cantando em spanglish: “i rrrrainingue mén, aleluia!” ou “lóbe i in di é!”. E diz que apesar de o Pride de Madrid ser gigantesco, é aqui em Lisboa que vê a maior percentagem de mulheres. Algo que decorre de o movimento LGBT português ser dos mais equilibrados entre L e G que conheço por esse mundo fora. “Vivan los coños!”, pois, como disse ela levantando a sua saia multicolorida de artista-mulher “passando” por travesti. Pelas três e meia da manhã o céu desaba. “God hates fags”? Não creio: acho é que cada uma tem a sua forma peculiar de demonstrar afecto e Ela o que tem é a água (não usou trovões, pois não?).
Os Tempos Que Correm
Miguel Vale de Almeida4 Comentários »
maravilhoso maravilhoso maravilhoso. é por estas e por outras, que ainda que teoricamente seja hetero, me sinto cada vez mais próxima e sensibilizada com a causa LGBT. E é uma merda os exames darem cabo da vida a uma pessoa, caso contrario, teria adorado rumar a lisboa para passar uma horas espectaculares. Embora não conheça pessoalmente nenhuma pessoa activista LGBT, penso que é um movimento de que devemos ter muito orgulho, pela coragem, pela lucidez, pela profundidade do debate social, pelo humor, por tudo.
Pessoalmente admiro-o Miguel, porque acho que representa muito bem tudo isso.
Por isso um, beijinho, e parabéns a tod@s!
LOL!! Quem não anseia por beijinhos húmidos???
[…] já agora, para desfazer mitos, ler este post do Miguel Vale de […]
Que testemunho bonito, cheio de bons pormenores e de observações muito atentas…
O seu comentário
HTML-Tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>




