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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Desastrado cultural

Em Portugal é costume elogiar-se a frontalidade e apelar-se a ela. É claro que a coisa é de desconfiar: quando se apela muito a uma coisa é porque ela está longe de ser praticada. Mas há mais. Já me aconteceu acatar o elogio e o apelo e dar uma opinião frontal, queixar-me dum comportamente, solicitar uma mudança. Resultado: a outra pessoa fica zangada e desconfiada. Zangada por algum tempo e desconfiada para sempre. Desisti. Agora aprendi que quando me dizem “precisamos de não esconder nada, de dizer tudo na cara” estão a dizer-me precisamente o contrário. Isto, aliás, vai na linha de um desastranço cultural meu: gozam muito comigo porque entendo as coisas quase literalmente - quando me dizem “não é preciso trazer nada” ou “nada de presentes”, eu não levo mesmo nada. Gaffe, é claro. E quando não me dão informação frontalmente, com uma frase com sujeito, predicado e complemento (tipo “Eu apareço amanhã ao meio-dia”) e em vez disso deixam cair a “informação” no meio de outro assunto, en passant, eu esqueço. Deve ser também por isso que apareço assustadoramente à hora 90% das vezes ou insisto em definir hora de fecho para uma reunião, para espanto geral do povo. Aos quase 49 ainda irei a tempo de reparar o desastre-cultural-com-pernas que sou? Isto deve mas é ser defeito profissional: antropólogo que não percebe como funciona a sua cultura, tal como o médico que não liga às doenças lá em casa…

3 Comentários »

  Valeria escreveu em 2.May.2009 | 23:45

Fiquei a pensar na autodefinição horrenda exposta entre hifens. Não me parece compatível com a personalidade do autor. Rapidamente, penso que frontalidade não é bom. “Vamos por tudo às claras” é início de pancadaria. Agora, a outra parte me pareceu engraçada e interessante. Saiba de uma coisa: há mais desastrados. Só para dar um exemplo, fui num chá de fraldas com “as mãos abanando”. Sabe só do que precisava? Fraldas! Atravessei a cidade inteira e tinha condições de comprar fraldas descartáveis naquela época. Cheguei na festa e me disseram: Não, não precisa se preocupar, sua PRESENÇA é que é importante.
No entanto, a futura mamãe perguntava a todo tempo: Esse presente quem trouxe foi… quem? quem? E eu não sabia o que fazer com as mãos abanando, mas já que a minha PRESENÇA é que era importante, tratava de sorrir e despistar. Só saia-justa. E o dia em que não consegui entrar no táxi porque estava com uma… saia-justa? Não quero invadir o blog, mas eu estou certa: aos 35 já sei que o meu caso não tem solução. Seja bem vindo!

  Catarina escreveu em 4.May.2009 | 19:36

Na minha experiencia - este computador nao me deixa por acentos!!!! - quem diz que vai ser frontal, vai, geralmente, ser uma besta. O que me safa dessas gaffes e um inestimavel conselho da minha querida avo - nunca se deve visitar alguem sem lhe levar pelo menos um bolinho. E o que eu faço e ainda nenhum bolo ficou por comer… :lol:

  Avidni escreveu em 4.May.2009 | 22:22

oohhh como eu o compreendo…

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