O entusiasmo com a celebração de Darwin parece ter a ver sobretudo com qualquer coisa que começou no contexto americano: o debate entre evolução e criacionismo. Mesmo que se ache este debate um pouco parolo (não há diálogo racional possível entre ciência e fé; pode-se, sim, fazer ciência e ter fé simultaneamente e em separado), a verdade é que ele é importante porque há criacionistas que estão literalmente a endoutrinar crianças em muitas escolas - dizendo que a fé substitui a ciência. Mas deste lado do Atlântico a atenção a Darwin não pode ficar limitada a isso. Sobretudo não podemos embarcar num louvor tão acrítico que possa levar a uma transposição da teoria darwiniana para todos os campos do real. Tal já aconteceu. O evolucionismo, na Antropologia do século XIX, transpôs a teoria da evolução das espécies para as sociedades - para a História humana e para a diversidade cultural. Um salto ilógico que serviu para justificar, por um lado, racismos e etnocentrismos e, por outro, teleologias da História. Hoje os perigos espreitam mais no que resta do darwinismo social e, sobretudo, na nova coqueluche que é a evolutionary psychology. Já para não falar da forma como um certo darwinismo popularizado inspirou e inspira a racionalização do capitalismo. Vamos, pois, com cuidado. Darwin serve brilhantemente para certas coisas. Darwin (e sobretudo abusos thereof) não serve de todo para outras.
Os Tempos Que Correm
Miguel Vale de Almeida2 Comentários »
Velho escreveu em 12.February.2009 | 16:56
Apoiado, apoiado, apoiado!
Um outro perigo da euforia darwinista é a tentativa de redução de todo o pensamento à forma e aos objectivos das «ciências naturais». As «ciências sociais», a filosofia, a história e os discursos normativos (ética, direito, política) são um bocadinho diferentes.
Pelo Centenário de Charles Darwin – parte 2 « O Peso e a Leveza escreveu em 15.February.2009 | 19:37
[…] Adicionais: Charles Darwin no Project Gutenberg; Darwin entre nós de Carlos Fiolhais; Darwin: manusear com cuidado de Miguel Vale de […]
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