8.February.2009 em 14:56
· Arquivado em devaneio
Cara Universidade,
Acabaste. E nós “acabámos”. A partir de agora serás cada vez mais uma prestadora de serviços, funcionando segundo uma lógica mercantil, utilitarista, instrumental, gerida segundo critérios de produtividade típicos de uma empresa. Serás ainda menos democrática no funcionamento, mais fechada à inclusão dos alunos de camadas menos favorecidas, e ainda mais burocrática (substituindo a velha e horrível burocracia do estado por uma burocracia empresarial fetichizada - venha o diabo e escolha) . Definir-te-ás cada vez mais como algo que não é um serviço público, serás cada vez mais avessa ao pensamento crítico e à criatividade e, em última instância, acabarás odiando a própria ideia de ciência, substituída pela instrumentalidade técnica de curto alcance, imediatista, flutuando ao sabor da “demanda” empresarial, das encomendas governamentais e da demagogia da oferta imediata de saídas profissionais (que resultarão em pessoas desempregadas 5 anos depois, quando as skills hiper-especializadas morrerem no mercado com os respectivos produtos…). Não admira que quem se vá dar bem contigo seja um certo tipo de gestão e economia, e um certo tipo de sociologia. Acabaste. Agora és outra coisa, que te chamem outra coisa, porra, sei lá, direcção-geral das políticas públicas e dos potenciais secretários de estado de governos socialistas, ou Sociedade Anónima (ou anómica?). Acabaste. E acabaste com Bolonha e com o novo Regime Jurídico do Ensino Superior e com as Fundações e, na investigação, com o triunfo da audit culture científica. Acabarás certamente ainda mais com o novo Estatuto da Carreira Docente do Ensino Superior, propositadamente deixado para o fim neste processo de reinvenção total, este extreme makeover em que gulosamente te meteste. Acabaste, pronto. Ponto.
Eu cá por mim, sabes, vou continuar a dar o meu máximo e o meu melhor no trabalho com os alunos, nas aulas e nas orientações; vou fazer a minha pesquisa de forma ainda mais autónoma e o menos financiada possível; e é claro que vou continuar a meter-me em iniciativas - só que o mais autónomas possível, quanto mais fora dos teus muros melhor. Aí não vou perder entusiasmo, porque gosto da coisa, é como escrever, pintar, namorar, conviver. Mas lá dentro dos teus muros, agora de empresa, cumprirei os mínimos exigidos pela minha situação de assalariado. Acabou qualquer voluntarismo, espírito associativo, cooperativo, de serviço, de participação. Se é empresa que queres ser, comportar-me-ei como assalariado - e não tenho inclinação para a “cultura de empresa”, para o espírito de corpo, para “vestir a camisola” ou baboseiras tipo campo de férias para empregados. Ou para a treta palaciana e macholas da carreira e do poderzito. Acabou. Acabaste. “Acabámos”. Aqui se separam os nossos caminhos. Votos de grandes lucros e sucessos carreirísticos.
Com os melhores cumprimentos…
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Tatiana escreveu em 8.February.2009 | 23:43
Ao ler o texto fui-me revendo tão bem, tão profundamente e tão seriamente… que não podia ter escrito melhor. Ao entrar na universidade perdi as ilusões, enquanto lá estive decepcionei-me e agora que ainda lá continuo convenço-me de que assim está e assim ficará… mal. Sinto-me profundamente “fora” desta forma de ensinar, desta forma de produzir conhecimento sem digeri-lo decentemente. Estou muito decepcionada com a universidade. Estou agora e desde há muito tempo… O que mais me entristece é, justamente, saber que o caminho seguido é irreversível.
Alex escreveu em 9.February.2009 | 0:52
Cara Universidade,
Gostaria de reaver todo o dinheiro que fiz os meus pais gastar, na minha formação superior em antropologia, ao longo de três anos. Infelizmente as pessoas não sabem, sequer, o que é a antropologia, para que serve, e quais as utilidades práticas de uma disciplina como a mesma na vida quotidiana. O facto de ser licenciado numa área cujo próprio meio, isto é, docentes, se está a marimbar para o estado de coisas, diz tudo acerca da disciplina.
É com pena minha que desde há um ano sou confrontado, no mercado de trabalho, com a completa inutilidade do meu diploma, sendo que nunca apareceu uma única e misera oferta de emprego para a minha área, ou para uma qualquer função onde pudesse pôr em prática as minhas habilitações e conhecimentos. Ao invés disso só me resta empregos de call-centers e afins, dos quais tenho tentado evitar, mas aos quais, certamente, não poderei resistir muito mais, pois a frustração já é considerável, e tenho que fazer alguma coisa, nem que seja atender telefones e viver deprimido e angustiado todos os dias. Tenho a certeza que tu, oh Universidade, te estás um pouco a marimbar para os meus problemas, afinal de contas, o que te interessa é que entre, todos os anos, dinheiro de mais uma resma de alunos que são enganados, e se mantenha os empregos e os ordenados de três mil euros aos docentes - e muitos mais dos gestores -, sendo muitos deles ainda têm a lata de pedir subsídios de investigação com tão chorudo ordenado para o país que temos.
Oh Universidade, faz-nos o favor de fechar cursos de ciências sociais, e de proibir que vendam os cursos como dando para museus, ONG’s, e outras tretas tantas, das quais em três gerações de alunos de antropologia, contam-se os dedos de uma mão os alunos que conseguiram empregos nessas áreas.
Oh Universidade, dá-nos pois, então, o dinheiro e os anos que andámos a perder a tirar cursos que para nada servem, para que a gente possa ir tirar um MBA. Ao menos com esse sempre se consegue um emprego que não seja atender telefones.
Com os meus melhores cumprimentos,
ora… pois, nem mais, como percebo! Já percebia e… como quem não quer a coisa, acho que vale a pena deixar em empatia.
http://viafactea.blogspot.com/2008/04/volta-celestino-volta_18.html
Abraço,
N
/me escreveu em 9.February.2009 | 14:29
Muito bem escrito.
Parabéns por este excelente post, caro MIguel, para o qual me chamou à atenção do João Rodrigues!
Continua connosco (pelo menos a resistir como assalariado crítico, tb. eu vou ficar nesta): és muito preciso!
Um abraço amigo!
AF
Bom é saber e poder ler posts como este, e o seu mano em paralelo do estudante de Antropologia. Melhor ainda entender, como entendo, que ainda podemos (ou cremos poder) decidir o que devolvemos ao patrão, por aquilo que paga. Porque valores há que não se adquirem pagando. Mas se partilham amando.
Abraço extra-universidade(s)
É bem verdade: curiosamente, tudo isto é feito com uma considerável descida de competências, abaixamento não apenas das competências críticas, mas do próprio saber. Cultiva-se um positivismo estreito, de aviário, centrado numa utilização superficial da estatística e dos métodos quantitativos que legitimam agora a ausência de reflexão. Desde a linguagem à Bibliografia, censura-se a tradução humanista e crítica.
Alex escreveu em 12.February.2009 | 10:29
Eu acho piada serem sempre os docentes de Humanidades / Ciências Sociais a queixar-se da universidade se andar a tornar numa empresa, e de não quererem assumir a responsabilidade de não haver saídas para os cursos superiores. Não se vê isso em Medicina, Gestão, Direito e afins. Em vez de andarem a lamuriar-se com estado decadente do ensino - que já vem de há muito tempo, não é a partir do Bolonha - diminuam o número de vagas dos cursos. Tenham coragem para ser vocês mesmos, docentes, a pedir que existam menos vagas nos cursos superiores de Humanidades / Ciências Sociais. Claro que para isso já não têm coragem, afinal de contas, a universidade está ‘decadente’ mas ainda dá emprego a uns quantos ‘decadentes’ que por lá vão ganhando a vida, também.
Bruno escreveu em 14.February.2009 | 13:35
Não é verdade este último comentário. Sou aluno de Engenheira, numa “Universidade” “Pública”, e há docentes e alunos que partilham a mesma opinião que o post apresenta. Post esse que gostei muito de ler…
Não temos é, no geral, o problema que existe em cursos como Antropologia em que nada servem no mercado de trabalho.
Este assunto, do declínio do Ensino (e não só), está bem resumido neste link que aqui vou deixo:
http://anonimosecxxi.blogspot.com/2008/12/perplexidade.html
Comentário fora de horas de uma professora de uma universidade pública
Tem razão, Miguel. A universidade acabou. A pública. A pública que em Portugal queria dizer a boa. Vi os comentários, que na maioria são de alunos. É claro que o desemprego é terrível. Mas se os alunos, pelos menos, estivessem a ser bem servidos enquando lá andam. Não estão. Cada vez que tento construir massa crítica dizem-me que se trata de coisas pouco rentáveis. Há alunos que merecem reprovar, mas não devemos fazê-lo, porque não é agradável, claro. E com a universidade transformada em meio de sedução, o que não agrada não se faz. É horrível. É horrível não se poder falar (ou quando se fala ter a cabeça a prémio). Tenho muito medo do liberalismo universitário, porque ele não está só a corresponder a uma direita liberal. Está a abrir caminho à direita ditatorial. Os cínicos entraram bem em Bolonha e dizem, com ar superior, que agora não vão ensinar, vão seduzir. Mas talvez que Bolonha nem seja o pior. Talvez isto já andasse por aí e a gente não se tenha dado conta. De onde é que isto veio? Alguém me explica?
Enfim, saudaões académicas, cidadãs, etc.
Valeria escreveu em 9.May.2009 | 16:39
Do que já foi dita de forma máxima, vou deixar o mínimo comentário para não atrapalhar: no Brasil não passamos por esta miséria, mas por outras. Senti-me profundamente angustiada pela declaração de Miguel Vale de Almeida porque estive no ISCTE como aluna de mestrado e sei do empenho dos professores em levar adiante não só as próprias pesquisas mas como de absorver e permitir que novos trabalhos e entusiasmos se manifestem. Fiz uma pesquisa que em nada tinha a ver com os temas trabalhados pelo meu orientador e, dentro desta atual circunstância, só posso ver a atitude dele como de muita coragem, a abrigar-me apesar de minhas dificuldades. Hoje eu vejo o quanto é importante uma autonomia da ciência em face da academia. Talvez criarmos condições para trabalhos mais autônomos mas com que dinheiro?
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Só agora no ano de 2009 estao a ver que se fizeram licenciaturas que não davam emprego nenhum só para manter os ordenados de 3000 euros dos professores universitarios. Se tivessem aberto os olhos mais cedo não havia tanto desemprego, Ir para a universidade para mim está fora de questão pois sei que vão-me empatar só para pagar propinas. Vou sim quando vir que retiram do ensino metade daqueles professores preguiçosos que la andam e que ainda por cima acham que são eles que podem e mandam…Acho que para o desempenho que a educação tem actualemte em termos de mercado de trabalho e formaçao dos alunos os ordenados que esses senhores ganham são um ordenado de luxo…Para formarem pessoas que depois vão ganhar pouco acima do ordenado minimo que é o que está a acontecer cada vez mais na actualidade deste país…Para não dizer mais…Simplesmente uma vergonha.
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