WWW.MIGUELVALEDEALMEIDA.NET inicio mail me! Formato tipografico grande Formato tipografico medio Formato tipografico pequeno RSS/ XML/ Sindicação

Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

O medo

A observação não é original, mas é certeira. Em Sicko, Michael Moore torna a dizer que é através da criação de medo, e da subsequente desmoralização, que se mantém calada qualquer revolta popular. É também assim que as “reformas” actuais se impõem: primeiro gera-se o medo do futuro, com previsões catastrofistas matraqueadas todos os dias. Perante o medo as pessoas apenas desejam que não sejam elas as visadas pelas “reformas” e calam-se. Multiplicado por todas as pessoas, esta atitude leva a uma desmoralização generalizada, que redunda numa self-fulfiling prophecy: a ideia de que já ninguém está para isso e de que o mundo é mesmo assim, sem escolhas, sem alternativas, sem sequer se perguntar se é mesmo assim. Nisto a sociedade norte-americana é um exemplo. Levou mais longe do que na Europa a estratégia do medo, da desmoralização e da naturalização do sistema. Na Europa, infelizmente, Portugal parece ser um exemplo de vanguarda. Do governo às empresas, passando pelas universidades. Um “bom” político hoje já não é a criatura vagamente populista que promete coisas boas, mesmo que incumpríveis; é antes a criatura que sabe assustar. Já repararam como o optimismo - ou sequer a promessa de que depois de alguns sacrifícios virá a compensação - desapareceu completamente do discurso político (uma vez mais, a todos os níveis) português?

8 Comentários »

  A.Silva escreveu em 19.November.2007 | 17:28

Infelizmente as previsões são talvez piores do que aquelas que são anunciadas.A crise financeira permanece,o dolar desvaloriza,a crise económica nos EU ainda não está afastada,o petroleo sobe.É verdade que esta situação mais cedo que tarde pode chegar á Europa e o nosso País tem uma fragilidade económica que faz com que esta situação possa ser pior do que nos outros países da zona euro.Eu até não percebo como é que os politicos vão fingindo que nada se passa.Quanto a compensação não se avizinha para breve.É claro que se as pessoas se afastarem da discussão e debate sobre estes problemas é sempre mais dificil resolver qualquer situação.Mas há que ter muito cuidado com as promessas que criam falsas espectativas nas pessoas.Este caminho que neste momento cruzamos não era suposto quando aderimos a UE há mais de vinte anos,mas ascontece e portanto há que procurar resolver problemas sem criar outros maiores.

  Sérgio A. Correia escreveu em 20.November.2007 | 5:41

Subscrevo na íntegra o que diz o Miguel.

Se é verdade que o futuro é sempre incerto, também não é menos verdade que, num passado bastante recente o futuro era visto com mais optimismo, quase com euforia.

Parece-me que o medo não decorre apenas de uma visão catastrofista que o poder tem do futuro, cuja consequência mais imediata é a manipulação das massas. A meu ver, a coisa é bem mais grave: esse desejo de imposição do medo nasce de uma instância mais profunda, a qual foi desmontada há uns anos por Karl Popper no seu “Misery of Historicism” e que consiste em julgar que encarna “o verdadeiro sentido da História”. Ora, isto é grave, para não dizer doentio.

No entanto, cabe aqui perguntar o seguinte: que sentido tem esse medo justamente numa altura em que o poder se julga na posse do “segredo” da História?

Mais concretamente, de que tem medo o poder?

a)Terá o poder medo das alterações climáticas? ora, cabe justamente ao poder e aos poderes que somos todos nós minimizar as consequências dessas mudanças, levando em conta o facto de o clima, na terra, nunca ter sido estável;

b)Terá medo do terrorismo? Ora, essa não também não pega, porque o “terrorismo” sempre existiu, umas vezes com este nome, outras vezes com outras designações (o perigo comunista, o nazismo, etc, etc)

c)Terá medo do aumento do preço do petróleo? Também neste caso, não me parece que o dito medo faça muito sentido, pois o aumento do preço do petróleo decorre justamente da lógica da economia de mercado, a qual constitui a essência do “segredo” da História de que este poder é portador;

d) Terá medo do esgotamento das reservas do petróleo? E as energias renováveis? Que é feito do sentido de negócio do poder? Afinal de contas, se o petróleo acabar, novas oportunidades irão surgir e dessa foram dinamizar a economia de mercado de que este poder é grande apologista.

Para finalizar, queria apenas dizer mais um lugar-comum: o medo messiânico da História sempre existiu e agudiza-se em certas épocas, como bem o demonstrou o Mircea Eliade. Mais: este medo brota directamente da personalidade do Eleito, do “The One” que é José Sócrates, o Mourinho da política portuguesa. Para tal, basta observar a forma como o homem encapuça a sua vida privada para se perceber que ele anda a trabalhar para o mito.

  Ana escreveu em 20.November.2007 | 11:23

O poder tem medo de perder o poder. Por isso assusta toda a gente para se manter onde está. Gente cheia de medo domina-se melhor. Vejo isso no meu local de trabalho: as pessoas andam cheias de medo, o que faz com que não estejam dispostas a mexer-se para melhorar a sua situação profissional. preferem ficar quietinhas e caladinhas e a esperar, egoisticamente, que a paulada acerte no colega do lado.

  Sérgio A. Correia escreveu em 22.November.2007 | 6:32

Era só pare fazer uma rectificação: o título do livro do Popper é “The poverty of Historicism”..:)

  Filipe Castro escreveu em 23.November.2007 | 3:54

Sobre omedo como arma política vale a pena ler Naomi Klein: http://www.naomiklein.org/main

  escreveu em 23.November.2007 | 5:15

esta vivência acagaçada de muitas portuguesas e muitos portuguesas (vil com os mais fracos, servil com os supostamente mais fortes) poderá ser exemplificada pela seguinte situação: uma desconhecida, com um grau de parentesco concerteza desinteressante, no funeral do meu avô disse-me: “pois é, minha querida, lá morreu!…é a vida!”
got it?

  joao guimaraes escreveu em 30.November.2007 | 0:50

os portugueses temem a falta de trabalho,a pobreza,a fome,a guerra,a caridade,a divida,o futuro,a esmola e sempre terá medo de não ter medo.

[…] Vale de Almeida, quando tinha uma visão a-histórica e descontextualizada da sua “coerência”. (Via Ladrões de […]

O seu comentário

HTML-Tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>