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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Porque me (nos) tratam como M-E-R-D-A

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Já repararam que há dias que só “falo” do mesmo assunto. Até parece que abandonei a tradição bloguística nacional do sai-no-jornal-comenta-logo-no-blog. É uma tradição ansiosa que nunca me interessou muito, mas da qual é difícil escapar (menos ainda agora que o caderno 2 do Público a consagrou diariamente no seu apanhado dos posts sobre a notícia do dia (not…)).

Que dizer para recuperar a perdida bloguidade? Que Palin é uma idiota? Que estava na cara que os republicanos iam escolher uma mulher e que o facto de ter sido esta a escolhida e o facto de os democratas não terem escolhido uma mulher (outra, bem melhor) só demonstra o machismo dominante e quão melhor teria sido a escolha Clinton? Que a crise financeira não é surpresa nenhuma e que o capitalismo da especulação sempre achou que os lucros são privados e os prejuízos públicos e que portanto não estamos perante nenhum extraordinariamente inusitado evento? Que o escândalo das casas camarárias lisboetas é isso mesmo, um escândalo nojento, e que me dói ver Ana Sara Brito, que admiro, não fazer muito mais do que dizer “ah, mas no meu caso não é o que pensam”? Que Paul Newman era grande e lindo e luminoso e que o comentador de cinema da SIC é um idiota que, no dia da sua morte, fala dos perigos do tabaco?

Não. Eu prefiro falar de como há idiotas que usam a expressão “contra-natura” para desqualificarem o desejo de igualdade, sem saberem sequer qual a origem da expressão, o seu bafio teológico e a sua ligação a pessoas queimadas vivas em praça pública (para não falar da diminuição implícita dos seres humanos, usando a animalagem como bitola). Eu prefiro falar de como tudo o que é programa de rádio ou TV ou secção de jornal convida tudo quanto é parolo político para falar sobre o casamento e quase nunca pensa sequer em falar com as associações e movimentos sociais - que foram quem trouxe a público a reivindicação do casamento (e não os partidos, que foram a reboque, e bem - pelo que o PS no fundo não está é a querer ir a reboque… da sociedade civil) e que representam cidadãos e cidadãs concret@s afectad@s pelo delírio da nossa classe política. Eu prefiro falar de como o PS prefere a mais reles chicana política e despreza o desígnio nobre da política, que é o de garantir os direitos fundamentais aos cidadãos e cidadãs. Eu prefiro falar de como neste país - à semelhança, e por razões diferentes, de pobres e precários e assalariados e muitas mulheres e negros e imigrantes - os gays e as lésbicas estão farta@s de serem tratadas como M-E-R-D-A.

9 Comentários »

  bernardo escreveu em 2.October.2008 | 2:39

OUTCH. nem mais.

miguel, keep up the good work aqui no blog! :)

  Irene Maria escreveu em 2.October.2008 | 3:25

Miguel,
infelizmente pelas razões apontadas, mas este poste acerta em cheio, mais uma vez, nas realidades que vivemos!
Ah, grande homem, este Miguel!
Irene Porto

  Nuno Carneiro escreveu em 2.October.2008 | 11:43

Sendo que, na absoluta concordância com o conteúdo, muitas e muitas vezes a M-E-R-D-A começa por NEM NOS TRATAREM.
Um abraço

  escreveu em 2.October.2008 | 12:04

Pois eu não acho que os gays sejam tratados como merda. Isso é retórica demagógica. Os gays, em Portugal, tratam-se a eles próprios como merda. E o problema está aí. Não está na maneira como os heteros ou outros tratam os gays. O que os gays precisam é de empowerment. E de parar de se queixar dos outros. Já agora, o casamento gay, que agora anda aí tudo doido a defender, não é a panaceia para todos os males e vocês sabem disso. Portanto, párem de fazer de conta que depois do casamento gay os gays portugueses vão finalmente ganhar a liberdade e o respeito. Não vão e vocês sabem disso. E não vão porque os gays, entre eles, precisam de saber estar e de maturar. E esse processo é mais importante do que qualquer Código Civil.

  FuckItAll escreveu em 2.October.2008 | 22:07

Isto vai soar a conversa demagógica, mas é exactamente o que eu sinto: o chumbo destes projectos-lei, sobretudo agora que o assunto está discutido e rediscutido até à náusea, pode ser lesivo só para os gays mas é ofensivo para nós todos que prezamos a ideia de viver a nossa vida privada em liberdade e sem sermos discriminados oficialmente por isso. É ofensivo para qualquer pessoa que tenha a boa educação de saber que não se mete o nariz na vida dos outros para a premiar ou punir, mesmo que não a aprovemos. E no médio/longo prazo é mesmo lesivo para todos, porque se há espaço para negar a igualdade e a liberdade a uns, há espaço potencial para as negar a todos.
O Estado e a lei não deviam servir para algumas pessoas imporem os seus valores aos outros, deviam tratar toda a gente da mesma maneira perante situações idênticas. É para isso que financiamos o Estado e nos sujeitamos todos às mesmas leis - para sermos todos servidos por ele, não postos ao serviço de desígnios morais e identitários alheios. Não tenho vergonha de dizer uma coisa tão óbvia que dói? Tenho. Como várias pessoas diziam hoje no womenage, já não há pachorra para ter que continuar a explicar as mesmas coisas a pessoas que só podem estar a fazer-se de burras. Irra.

(acho que vou postar este comment, resume o que tenho a dizer sobre o tema)

  FuckItAll escreveu em 2.October.2008 | 22:12

Oh Zé, mas alguém falou em panaceia? O que é, é um direito que já devia estar consagrado. Ponto. Nenhuma medida ou lei é panaceia para nada, que argumento é esse? Agora, que isto é um passo importante, porque elimina mais uma discriminação oficial e institucional, é. Não impede o processo de empowerment de quem queira ou possa fazê-lo, facilita-o.

  Carlos José Teixeira escreveu em 3.October.2008 | 9:08

@Miguel:
«Eu prefiro falar de como neste país - à semelhança, e por razões diferentes, de pobres e precários e assalariados e muitas mulheres e negros e imigrantes - os gays e as lésbicas estão farta@s de serem tratadas como M-E-R-D-A.»

E todos nos tratamos como merda a nós próprios, logo a partir do momento em que não conseguimos entender que lutar por uma causa humana, por um direito básico, é lutarmos pela nossa própria condição humana.

Chamar “causa fracturante” a uma coisa destas é colocar-lhe um rótulo tablóide de coisa anti-social, o que não corresponde à realidade. O direito à vida e à felicidade é básico. Mais nada.

E sim, começa a doer dizer o óbvio a paspalhões ignorantes, complexados e inseguros.

  JPN escreveu em 3.October.2008 | 13:51

escrevi um post em que refiro alguns argumentos que expuseste. espero que fique claro que quando nele falo de hipocrisia estou a falar de hipocrisia do argumento e não tua. aprecio há muito a tua coragem e honestidade na forma como te assumes socialmente.
:)

  carlos gonçalves costa escreveu em 3.October.2008 | 20:35

Para não variar concordo… da Palin às casas camarárias de Lisboa. E concordo ainda mais com a M-E-R-D-A. Custa-me tanto ver e ouvir a quantidade de porcaria que se fala sem fundamento, a quantidade de aberrações em formato de afirmação que se ouve e vê, em que por trás só paira o espectro de um moralismo que tresanda a tudo e mais alguma coisa - e às vezes se fosse só falso moralismo estavamos bem.

Até dia 10, provavelmente encontrar-te-ei por lá.
Abraço.

CarlosCosta

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