1.October.2008 em 21:43
· Arquivado em geral

Já repararam que há dias que só “falo” do mesmo assunto. Até parece que abandonei a tradição bloguística nacional do sai-no-jornal-comenta-logo-no-blog. É uma tradição ansiosa que nunca me interessou muito, mas da qual é difícil escapar (menos ainda agora que o caderno 2 do Público a consagrou diariamente no seu apanhado dos posts sobre a notícia do dia (not…)).
Que dizer para recuperar a perdida bloguidade? Que Palin é uma idiota? Que estava na cara que os republicanos iam escolher uma mulher e que o facto de ter sido esta a escolhida e o facto de os democratas não terem escolhido uma mulher (outra, bem melhor) só demonstra o machismo dominante e quão melhor teria sido a escolha Clinton? Que a crise financeira não é surpresa nenhuma e que o capitalismo da especulação sempre achou que os lucros são privados e os prejuízos públicos e que portanto não estamos perante nenhum extraordinariamente inusitado evento? Que o escândalo das casas camarárias lisboetas é isso mesmo, um escândalo nojento, e que me dói ver Ana Sara Brito, que admiro, não fazer muito mais do que dizer “ah, mas no meu caso não é o que pensam”? Que Paul Newman era grande e lindo e luminoso e que o comentador de cinema da SIC é um idiota que, no dia da sua morte, fala dos perigos do tabaco?
Não. Eu prefiro falar de como há idiotas que usam a expressão “contra-natura” para desqualificarem o desejo de igualdade, sem saberem sequer qual a origem da expressão, o seu bafio teológico e a sua ligação a pessoas queimadas vivas em praça pública (para não falar da diminuição implícita dos seres humanos, usando a animalagem como bitola). Eu prefiro falar de como tudo o que é programa de rádio ou TV ou secção de jornal convida tudo quanto é parolo político para falar sobre o casamento e quase nunca pensa sequer em falar com as associações e movimentos sociais - que foram quem trouxe a público a reivindicação do casamento (e não os partidos, que foram a reboque, e bem - pelo que o PS no fundo não está é a querer ir a reboque… da sociedade civil) e que representam cidadãos e cidadãs concret@s afectad@s pelo delírio da nossa classe política. Eu prefiro falar de como o PS prefere a mais reles chicana política e despreza o desígnio nobre da política, que é o de garantir os direitos fundamentais aos cidadãos e cidadãs. Eu prefiro falar de como neste país - à semelhança, e por razões diferentes, de pobres e precários e assalariados e muitas mulheres e negros e imigrantes - os gays e as lésbicas estão farta@s de serem tratadas como M-E-R-D-A.
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bernardo escreveu em 2.October.2008 | 2:39
OUTCH. nem mais.
miguel, keep up the good work aqui no blog! 
Miguel,
infelizmente pelas razões apontadas, mas este poste acerta em cheio, mais uma vez, nas realidades que vivemos!
Ah, grande homem, este Miguel!
Irene Porto
Sendo que, na absoluta concordância com o conteúdo, muitas e muitas vezes a M-E-R-D-A começa por NEM NOS TRATAREM.
Um abraço
zé escreveu em 2.October.2008 | 12:04
Pois eu não acho que os gays sejam tratados como merda. Isso é retórica demagógica. Os gays, em Portugal, tratam-se a eles próprios como merda. E o problema está aí. Não está na maneira como os heteros ou outros tratam os gays. O que os gays precisam é de empowerment. E de parar de se queixar dos outros. Já agora, o casamento gay, que agora anda aí tudo doido a defender, não é a panaceia para todos os males e vocês sabem disso. Portanto, párem de fazer de conta que depois do casamento gay os gays portugueses vão finalmente ganhar a liberdade e o respeito. Não vão e vocês sabem disso. E não vão porque os gays, entre eles, precisam de saber estar e de maturar. E esse processo é mais importante do que qualquer Código Civil.
Isto vai soar a conversa demagógica, mas é exactamente o que eu sinto: o chumbo destes projectos-lei, sobretudo agora que o assunto está discutido e rediscutido até à náusea, pode ser lesivo só para os gays mas é ofensivo para nós todos que prezamos a ideia de viver a nossa vida privada em liberdade e sem sermos discriminados oficialmente por isso. É ofensivo para qualquer pessoa que tenha a boa educação de saber que não se mete o nariz na vida dos outros para a premiar ou punir, mesmo que não a aprovemos. E no médio/longo prazo é mesmo lesivo para todos, porque se há espaço para negar a igualdade e a liberdade a uns, há espaço potencial para as negar a todos.
O Estado e a lei não deviam servir para algumas pessoas imporem os seus valores aos outros, deviam tratar toda a gente da mesma maneira perante situações idênticas. É para isso que financiamos o Estado e nos sujeitamos todos às mesmas leis - para sermos todos servidos por ele, não postos ao serviço de desígnios morais e identitários alheios. Não tenho vergonha de dizer uma coisa tão óbvia que dói? Tenho. Como várias pessoas diziam hoje no womenage, já não há pachorra para ter que continuar a explicar as mesmas coisas a pessoas que só podem estar a fazer-se de burras. Irra.
(acho que vou postar este comment, resume o que tenho a dizer sobre o tema)
Oh Zé, mas alguém falou em panaceia? O que é, é um direito que já devia estar consagrado. Ponto. Nenhuma medida ou lei é panaceia para nada, que argumento é esse? Agora, que isto é um passo importante, porque elimina mais uma discriminação oficial e institucional, é. Não impede o processo de empowerment de quem queira ou possa fazê-lo, facilita-o.
@Miguel:
«Eu prefiro falar de como neste país - à semelhança, e por razões diferentes, de pobres e precários e assalariados e muitas mulheres e negros e imigrantes - os gays e as lésbicas estão farta@s de serem tratadas como M-E-R-D-A.»
E todos nos tratamos como merda a nós próprios, logo a partir do momento em que não conseguimos entender que lutar por uma causa humana, por um direito básico, é lutarmos pela nossa própria condição humana.
Chamar “causa fracturante” a uma coisa destas é colocar-lhe um rótulo tablóide de coisa anti-social, o que não corresponde à realidade. O direito à vida e à felicidade é básico. Mais nada.
E sim, começa a doer dizer o óbvio a paspalhões ignorantes, complexados e inseguros.
JPN escreveu em 3.October.2008 | 13:51
escrevi um post em que refiro alguns argumentos que expuseste. espero que fique claro que quando nele falo de hipocrisia estou a falar de hipocrisia do argumento e não tua. aprecio há muito a tua coragem e honestidade na forma como te assumes socialmente.

Para não variar concordo… da Palin às casas camarárias de Lisboa. E concordo ainda mais com a M-E-R-D-A. Custa-me tanto ver e ouvir a quantidade de porcaria que se fala sem fundamento, a quantidade de aberrações em formato de afirmação que se ouve e vê, em que por trás só paira o espectro de um moralismo que tresanda a tudo e mais alguma coisa - e às vezes se fosse só falso moralismo estavamos bem.
Até dia 10, provavelmente encontrar-te-ei por lá.
Abraço.
CarlosCosta
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