28.March.2008 em 12:12
· Arquivado em política

Em Portugal continua o pânico com “a violência nas escolas“. Os media promovem o grau zero do raciocínio, extrapolando tendências a partir de casos não representativos; os comentadores conservadores encontram nisto a oportunidade para se queixarem do descalabro da “família”, também aqui atirando poeira para os olhos, já que reduzem ao seu arquétipo de família a imensa diversidade de situações familiares. Há de facto uma curiosa coincidência entre o pensamento reaccionário e o uso bárbaro das regras do raciocínio e da lógica. Não admira: quando se quer crer que o mundo corresponde (ou correspondeu) à nossa imaginação, nada é tão eficaz como a demagogia, o estereótipo, a simplificação e a manipulação de sentimentos.
Mas o pânico com “a violência nas escolas” não surge do nada. Interessante seria investigar as ligações entre este tema e vários outros: a reacção à proposta de alteração nas leis do divórcio; o pânico com a quebra demográfica (de portugueses “puros”, claro está); a insegurança (lembram-se: semanas atrás, antes da “violência na escola” era a “onda de violência”?); o medo da imigração; as reacções a reivindicações de igualdade no acesso ao casamento ou ao transexual americano que está grávido. Basta ler as caixas de comentários nalguns blogs ou no site do Público: aí, longe da alguma vergonha que ainda controla os instintos dos comentadores conservadores, é o desbragamento total. Em ambos os casos, ninguém faz o trabalho de casa, porque o que manda é a ideologia. Ninguém pensa, por exemplo, que pode haver ao mesmo tempo divórcio simples e protecção do elo mais fraco no casamento (e basta aos comentadores de direita que usam, agora, o argumento de esquerda sobre a desigualdade de género, lerem a proposta de lei que foi apresentada); ninguém pensa em fazer o primeiro gesto necessário para se poder pensar sobre a violência escolar, que é consultar o número das ocorrências e compará-lo com o número de alunos, turmas, escolas; ninguém pensa, ao dizer que a criança nascida de um transexual vai “sofrer”, em como todos nós nascemos de pessoas que não escolhemos; e por aí fora.
Fora de Portugal - mas pouco falta para cá chegar - a figura d’ O Muçulmano já está instituída como o novo Outro, o novo Pária, subsumida que está a O Terrorista. Este “muçulmano” é, obviamente, um estereótipo e não custa nada ver como a Islamofobia é a nova forma ocidental do antisemitismo. Os materiais simbólicos usados para uma e outro é que são diferentes. No caso da Islamofobia, “O Muçulmano” é construído como pobre, imigrante, jovem e masculino - o que vai muito bem com os outros pânicos. Quais? Olha, curioso, os que se constroem em relação à juventude, à violência, à insegurança dos “bairros perigosos”, aos imigrantes.
Armados de facilitismo nos processos de raciocínio, desprovidos da chatice da lógica, e embriagados pela eficácia estonteante da demagogia mediática, os reaccionários (há que voltar a estas palavras, caramba, e deixar de colaborar com a mentira de que já nada separa a direita da esquerda) estabeleceram um programa que consiste cada vez mais em defender a autoridade do estado, a reificação das culturas nacionais, a gestão patriarcal e heteronormativa da família e da reprodução, e a criação de um Outro diabolizado. Esta agenda - que ao contrário de politicamente correcta é correccional - convive bem com o belicismo e a guerra (contra os vários eixos do mal que se vão definindo) e com a fase selvática do capitalismo. Tão bem, que as consequências sociais deste (a precariedade, a exclusão, etc) são apresentadas como prova da decadência dos costumes e da autoridade. Blame the victim, chama-se a isto. E até para fugir a esta expressão há um truque: acusar a esquerda de desculpar sociologicamente todos os comportamentos antisociais. A espiral retórica do pensamento reaccionário é imparável e nunca falha. Pudera: fez a recruta na Inquisição.
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[…] Curvo-me respeituosamente 28 Março 2008 | por Maria João Pires Grande post, Miguel! […]
P A R A B É N S !
rosario escreveu em 28.March.2008 | 16:18
Hoje, lembrei-me porque gostava tanto de vir aqui ler…. é que fiquei a reflectir sobre o que pensava que era eu que pensava.
Fiquei a pensar nessa história do porquê de ninguem se dar ao trabalho de apurar o numero de casos na escola e relaciona los ao numero de alunos e de turmas…
E
Sobre O Muçulmano, fiquei-me a sorrir a pensar que só não egulo, porque sou mão de acolhimento da AFS de uma menina turca, que tem comportamentos e hábitos iguais aos da minha filha, apesar de ser muçulmana…
rosario
rosario escreveu em 28.March.2008 | 16:20
* op’s… “mãe de acolhimento”
Sérgio escreveu em 28.March.2008 | 18:07
Parabéns. Simplesmente brilhante!
Grande.
JPG escreveu em 28.March.2008 | 21:51
Daqui, desta “nebulosa reaccionária” onde me acolho, envio uma pergunta para o limbo de bondade e perfeição onde pelos vistos se encontra: existirá porventura, na sua mente altruísta ou quiçá no seu teclado, alguma impossibilidade técnica que o impeça de falar seja do que for sem vir imediatamente com questões de “género”, de “família” , de “transsexualidade”, de “homossexualidade” e quejandos?
Permita-me que explique um pouco a razão de ser da pergunta: mas o que raio tem a ver uma criança aos berros por causa de um telemóvel com um fulano que, finalmente, caso se lhe confirmem as esperanças e caso se confirme ser realmente um fulano, vai ficar podre de rico?
[…] nebulosa reaccionária” Arquivado como: Diversos — raf1973 @ 9:56 pm Afinal, depois de ler o MVA, chego à conclusão que deve estar tudo bem. Na avaliação da violência nas escolas o temos […]
selim escreveu em 28.March.2008 | 22:30
O mal de uns é normalmente o bem de outros.Vi que anda pelas crioulidades e outras coisas tropicais, nesse alfobre de cientistas sociais que é o ISCTE.Antevejo que se não meter os reacçionários no Campo Pequeno eles acabam por lhe acabar com essa mama do estudo do “império cá dentro”, “bom” por ser por conta do” erário”, portanto sem exploração de classes trabalhadoras.Só de fascistas que ainda têm dinheiro para ir pagando impostos.
A javardice dos cientistas sociais vê-se nos vídeos das cenas escolares, nos gangs dos canos serrados,na quantidade de drogados ,na economia, nos índices de desenvolvimento.Mas temos homem novo, crioulidades já com cientistas de mérito a estudar, por conta do orçamento tão importante fenómeno…
Cecília escreveu em 29.March.2008 | 0:55
Fantástico!
Plenamente de acordo.
Mas, quanto à ligação islamofobia/insegurança/terrorismo, não pensem os leitores do Miguel (porque ele, sei que não o pensa) que se trata de um fenómeno de outros países, de que venhamos a estar salvaguardados.
Chamo a vossa atenção para a iniciativa legistiva que se prepara para “importar” uma pouco pertinente criminalização da apologia do terrorismo (http://antropocoiso.blogspot.com/2008/03/sarna-para-nos-coarmos.html) e para a forma como tudo é feito para criar-nos uma sensação de insegurança, com consequências para as nossas liberdades fundamentais (http://oficinadesociologia.blogspot.com/2008/03/mapa-dos-incidentes-globais.html).
Um abraço do Índico, Miguel.
Avidni escreveu em 29.March.2008 | 15:59
É isso tudo Miguel. Excelente post.
Anonimo escreveu em 29.March.2008 | 22:32
1- Se este é não representativo, é caso para pensar o que serão os representativos.
2 - «Há de facto uma curiosa coincidência entre o pensamento reaccionário e o uso bárbaro das regras do raciocínio e da lógica» :Também me pareceu muito reaccionária aquela aluna.
Bem, é claro que fiquei babado com tantos elogios - e alguns ataques. Mas não era caso para tanto, pois tratou-se apenas de estabelecer conexões entre temas e descobrir-lhes um fio condutor. Mas reconheço que às vezes é isso mesmo que faz falta 
max escreveu em 31.March.2008 | 23:58
Chego atrasado mas, espero eu, a tempo do elogio que se impõe: excelente post!!!! É raro encontrarmos blogoesfera a este nível…
Chego aqui por via do Devaneios desintéricos.
Não concordo que seja um grande texto.
Penso que existem misturas de temas e de assuntos aqui, que nada tema ver uns com os outros.
E O MVA na ânsia de querer escrever um post mais curto “cort” algo ao conteúdo do mesmo.
Quanto à violência nas escolas ela existem quer existam ataques à familia, quer não existam ataques á família, quer esta seja mono parental, hetero ou outra classificação que exista e o assunto tem que ser resolvido através da penalização de quem faz violência nas escolas.
Fingir que não se passa nada tem sido o jogo da pseudo esquerda política e social que temos e das aves de arribação sociológica que andam à solta, mas na “bottom line” da questão os problemas estão aí e não são as soluções sociológicas tótós que as resolvem.
Quando é que as esquerda política percebe que tem que existir regras claras que todos cumpram nas escolas e que sejam poucas?
Outra coisa: eu sou de esquerda, mas não suporto nem tolero de maneira alguma os esquemas tortuosos em que esta se mete, as meias tintas , o sociologismo em barda, o total e completo desligamento da realidade, as corrupção sistemática, a incapacidade de resolver problemas.
Já dei para esse peditório.
e a esquerda de facto desculpa sociologicamente todos os comportamentos anit sociais.
É exactamente por isso que a cambada de anormais e merdosos neo liberais portugueses tem tanto êxito.
Persiste-se em não se ver isto e depois fica-se muito admirado de as caixas de comentários do público terem alarves à solta.
Ok, continue-se assim, que se vai bem…
Professor Miguel Vale de Almeida
Sobre a Escola portuguesa, permita-me recordar alguns factos: nos rankings europeus temos classificações medíocres, um número considerável de alunos chega às faculdades sem saber escrever ou interpretar um texto (tenho visto teses de mestrado ilegíveis), e alunos vindos de países de Leste e da China, medianos nos seus países, tornam-se na nossa escola os melhores.
Por muito que custe admitir, a escola portuguesa não presta. É uma fraude.
E ainda que muitos garantam que a indisciplina e violência são fenómenos localizados, a realidade é outra_ quem viu o debate no Prós e Contras ouviu dois estudantes afirmar que não ficaram nada surpreendidos com a selvajaria do liceu do Porto. Para eles, é algo normal, diário. Se eles próprios o admitem … , afirmar o contrário é pura má-fé.
Já fui professor e testemunhei toda esta rebaldaria e bandalheira. Não são fascistas ou saudosistas que inventam tais coisas. Todos os dias há um professor ou funcionário (já para não referir o fenómeno Bullyng) agredido. E porque será que são os melhores clientes dos psiquiatras e psicólogos?
Porém, quem vai pagar a factura? Os próprios alunos, sobretudo aqueles provindos de meios sociais mais desfavorecidos, que não podem pagar explicações ou fugir para escolas privadas. Pois quando saírem da escola ignorantes e desconhecedores das regras básicas de civismo e respeito encontrarão a lei do código civil e os regulamentos das empresas_ tarde demais! Pagarão a ignorância e a falta de educação com o desemprego, o despedimento ou até a cadeia.
Só quem realmente quiser destruir a escola pública poderá defender as teorias educativas que lançaram a escola portuguesa nesta triste situação de caos, bandalheira e violência. E quando não se respeitam os professores, é a própria democracia que está em risco. Então, sobrevêm a lei do mais forte (como se viu na triste cena do telemóvel), ou seja, o Fascismo.
Quem não compreender que sem autoridade não há democracia, direitos humanos, civismo e paz social, não compreende nada. Não deveria a esquerda ter já ultrapassado o seu terrível complexo e fobia relativo ao conceito «autoridade»? Não o fazendo, tentando tapar o sol com a peneira, enfiando a cabeça na areia, abre a porta ao totalitarismo, às soluções repressivas, numa palavra_ ao Fascismo.
Cam escreveu em 25.August.2008 | 7:32
é imbecil julgar que as estatisticas publicadas da violencia escolar mostram 1% sequer da violencia e indisciplina que realmente existe nas nossas escolas.
Vê-se que nunca deu aulas numa C+S.
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