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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

A bactéria e o código postal

Há uma bactéria doida por encontrar “homens que têm sexo com homens”. Se ela tivesse os códigos postais dos bairros com maior percentagem de casais gay ficaria contente. Tontice? Não. A realidade é bem pior. A divulgação do estudo sobre a Staphylococcus aureus também é pior do que se pensava e padece dos mesmos erros dos anos oitenta, quando do surgimento da sida nos EUA. Não se ficou pelo Correio da Manhã, apareceu também, acríticamente, no Público e no Diário de Notícias. Se lerem o artigo científico que está na base disto tudo, vão ver o nível. Escolhem-se os códigos postais correspondentes a zonas da cidade onde vivem mais gays e pumba [«We calculated the incidence of multidrug-resistant USA300 infection in each city ZIP code based on the 532 cases and used 2000 U.S. Census data to test the association between disease incidence estimates and the proportion of male same-sex couples living in those ZIP codes»]. Sobre os verdadeiros riscos - os que decorrem de certos comportamentos sem protecção, praticados tanto entre homens como entre homens e mulheres, por exemplo - nada, muito menos na divulgação mediática. Convenhamos: a notícia só interessa aos jornais porque o verdadeiro objecto é “os homossexuais” e não a bactéria. Não admira que numa das notícias alguém advirta que a coisa se espalhará terrivelmente quando passar para a “comunidade” em geral. Deve ser aquela a que os homossexuais NÃO pertencem e onde NINGUÉM tem comportamentos de risco no que diz respeito a doenças sexualmente transmissíveis…

Já há um comentário ao artigo: «Annals [é o nome da revista, OK?] article highlights the risk is associated with skin-to-skin contact primarily by unprotected anal intercourse [algo que é independente da orientação sexual das pessoas; aqui competiria aos jornais que divulgaram a pesquisa especificá-lo]. My concern is the community of men who have sex with men are the only population emphasized in the article when anal intercourse is practiced fluently in men who have sex with women. Men who have anal intercourse with women do so for reasons mainly of pleasure and a form of birth control, usually unprotected for the latter. So, if an average person were to read a synopsized version in the news based on this article, particularly the young, they might get a message of: ‘It’s a risk for men who have sex with men, I am not of this population, therefore I am not affected.’ Can this article emphasize that it is the unprotected anal intercourse causing the risk of MRSA infection and that is not limited to men who have sex with men?»

4 Comentários »

  cinco dias » Ana Matos Pires: Olha que bizarro… escreveu em 18.January.2008 | 0:56

[…] a propósito de sexualidades aproveito e acrescento uma pequena nota a este post do Miguel.Os autores do artigo em questão apontam, eles próprios, limitações ao estudo. Para que ninguém […]

  Patrícia Pascoal escreveu em 18.January.2008 | 3:47

vox populi: quem procura acha….

  Nuno Carneiro escreveu em 19.January.2008 | 4:45

Num tom mais furibundo, deu-me a vontade de escrever coisa assim:

http://viafactea.blogspot.com/2008/01/se-gay-no-cumprimente.html

Retirado o tom, me parece que foi quase telepático o conteúdo.
Nada que surpreenda, na “beleza americana”. A gente duvida é que se fique por americana. E mesmo que fique é já bem grave.
Um abraço.

  Maria José escreveu em 22.January.2008 | 22:45

http://www.aidsmap.com/en/news/6A2D3F2D-A7B7-4B07-809A-EC53C35B8E91.asp

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