Momento tenso no Parlamento. Um deputado socialista faz uma interpelação para se queixar dos fotógrafos que aparentemente focam a sua atenção nos ecrãs dos computadores, invadindo assim a privacidade. Jaime Gama responde à interpelação referindo que a AR é um espaço público (tem razão) e que os computadores não são privados (não tem razão). A partir do momento em que no meu computador acedo a uma conta minha, onde estão documentos meus a que, por esxemplo, o meu colega do lado não pode aceder, o computador é também privado. A transparência do exercício de cargos políticos e o carácter público do que se passa na AR não justifica o voyeurismo sobre os aspectos da privacidade d@s deputad@s. E teria gostado de ouvir Jaime Gama defender isso. Num gesto de irritação muit@s de nós baixámos os ecrãs.
Os Tempos Que Correm
Miguel Vale de Almeida18 Comentários »
Com todo o devido respeito, não podia discordar mais da sua posição.
Na Assembleia da República os deputados estão para trabalhar. Os computadores estão lá para facilitar esse trabalho. Contas de email privadas e outros documentos privados são para serem lidos e vistos antes e depois das sessões.
Enquanto no exercício das funções de deputados, estes estão a cumprir um serviço público e o que fazem nesse exercício é e deve ser do conhecimento dos eleitores. Se isso implica tirar fotografias aos ecrãs, que assim seja.
Os deputados que não queiram ver a sua vida privada nas capas dos jornais ou revistas deverão aceder a esses materiais nos seus gabinetes ou residências ou outro sido qualquer que lhes conceda essa privacidade. Aí terão todo o direito de se queixar e até poderem processar quem viola essa privacidade.
Agora durante o exercício das suas funções, essas deverão ser públicas. O que chama privacidade e deduzo que considere uma violação da privacidade da mesma as fotografias, eu chamo transparência.
Cumprimentos.
Discordo. E se eu estiver a ler um mail enviado por um cidadão ou cidadão, dirigido a mim e expondo uma questão pessoal, mesmo que no contexto de uma decisão política?
Repito, e não leve a mal, mas penso que o poderá fazer no seu gabinete antes de vir para a Assembleia. Ao fim ao cabo, quando em plenário, é para se estar a anotar, debater e argumentar os factos em discussão e não para se estar a tratar de outras coisas, ainda que ligadas ao exercício da sua função.
No caso que refere, de um email de um cidadão por uma questão pessoal e relevante para os trabalhos na Assembleia da República, será algo para ser visto antes e não durante as sessões. É o chamado “trabalho de casa” mesmo que feito em locais que não a residência.
Por isto digo que, durante as sessões, o uso dos computadores e, consequentemente, dos respectivos ecrãs deverá ser encarado como facilitador dos trabalhos na AR e não como instrumento de trabalho pessoal.
Sim, mas é preciso perceber sem complexos como é que isto funciona. 90% d@s deputad@s não intervêm no plenário; as intervenções já estão alinhavadas à partida, distribuídas por deputd@s específic@s pelas direcções de bancada; por sua vez, o conhecimento dos diplomas em discussão depende das comissões a que se pertence, das especializações que se tem. Muito da presença em plenário é ritual, sem demérito para a expressão, e é natural (e devia ser assumido, a meu ver) que se aproveite o plenário, nesses casos, para despachar trabalho. Três sessões plenárias semanais mais uma média de duas a três reuniões de comissão, mais reunião de grupo parlamentar, etc., deixam menos tempo do que eu pensava para estudar questões, elaborar projectos, responder a pessoas, receber grupos, etc.
Percebo o seu ponto de vista, mas discordo.
Sei que a grande maioria dos deputados está lá meramente sentada sem nada para fazer no curso dos trabalhos. Pena que assim seja já agora pois a pluralidade de opiniões só traria ganhos aos debates. Não quero com isto dizer que os deputados fossem agora todos falar pois isso seria o caos em termos de agenda.
Contudo, penso que, tendo conhecimento ou não do que se está a discutir, convinha, pelo menos, ouvir o que se está a falar para saber as conclusões. Quanto mais não seja porque os deputados devem estar cientes do que se aprova e porquê. Custa-me acreditar que se possa apresentar propostas que a maior parte dos deputados depois não sabe bem o que se passa.
Repare que, os deputados não estão lá sentados sozinhos. Outras pessoas há nas galerias e mesmo em casa, graças às transmissões na TV, que seguem o que se passa nas sessões da Assembleia da República. Aguentam o tempo necessário para ouvir o que lá se passa.
Por isso estranho que um deputado, cargo eleito pelos cidadãos eleitores para participar na governação do país, possa ir para um plenário e não estar atento ou não ter sequer interesse no que por lá se diz. Isto parece-me grave.
Sei que o tempo não abunda e acredito que o trabalho burocrático, se não outro, seja enorme. Não estou a por isto em causa. Mas penso que a imagem de deputados que, em plenário, estão mais interessados no seu ecrã do que no debate é tudo menos saudável.
Sem querer acusar ninguém nem dizer que isto é a regra, embora tema que seja mais normal do que seria expectável, muitos são os deputados que são apanhados a lerem jornais desportivos e afins. Isto é tudo menos privado e certamente que não é trabalho, muito menos de deputado.
Assim sendo, torna-se imperativo que haja um certo decoro, na minha opinião, do que se vê e faz com os computadores na AR. Consequentemente, não vejo qual o problema nas fotografias tiradas aos ecrãs.
Mesmo discordando que se faça tais trabalhos nos plenários, se a questão é apenas de salvaguardar a privacidade dos cidadãos que contactam os deputados, então isso resolve-se facilmente com uma reorganização do trabalho pessoal. Guarde-se para o gabinete as questões que poderão envolver a privacidade dos cidadãos e nos plenários trabalhe-se sobre aquilo que é do domínio público.
Mas repito, acho que nos plenários a atenção devia de estar nos debates e não nos ecrãs de computadores. Se assim fosse, não haveria sequer problema de fotografias.
P.S.: Peço desculpa pelo exagerado tamanho do comentário. Saiu maior do que estava a contar.
Já agora, obrigado pela atenção e pelas respostas. Cumprimentos.
Faço exactamente isso: ficar o tempo todo, ler o mais possível os projectos etc em discussão e acompanhar a dita (sou dado ao multitasking, posso perfeitamente ouvir/acompanhar e fazer algo no computador - nomeadamente ler os projectos…). A questão da imagem pública é fundamental, para dignificar a democracia, desde logo. Mas voltemos ao essencial do post: câmaras com teleobjectivas apontadas aos ecrãs dos computadores?!
Se não for nada de importante, leia-se algo do foro da privacidade do cidadão ou algo pessoal (o que, como disse, penso que seja de evitar nos plenários), qual será o mal?
Todos sabemos que a comunicação social é implacável na sua procura por noticias. Contudo, se tirarem uma fotografia ao ecrã e for apenas trabalho, haverá alguma falta de privacidade? Afinal, se for trabalho, não será este do domínio público? Não será do domínio público saber o que os deputados fazem ou deixam de fazer?
Penso que, assim sendo, não haverá nenhum problema. Penso mesmo que poderá ser um factor de transparência. Se os deputados não tiverem nada a esconder, entenda-se se for apenas trabalho e este não puser em causa a privacidade dos restantes cidadãos, como disse antes, então o incomodo dos deputados será um perfeito exagero.
No entanto, concordo que, porventura, haverá um certo exagero típico da comunicação social. Os deputados, pela própria natureza do cargo que ocupam, sabem que são objecto de atenção constante. Como tal terão de saber lidar e viver com estas situações.
Se não há nada a esconder, por muito exagero que se possa considerar que sejam as objectivas apontadas aos ecrãs, também não haverá motivo para indignação. Se é do trabalho do cargo que estão a tratar e este é, ou deverá ser, em prol do país e dos cidadãos, então as objectivas e o que elas fotografam até deveriam fazer os deputados agradecerem pois (com)provam ao país o trabalho que os deputados realizam.
Digo eu vá.
Não podia estar mais de acordo com o Elenáro.
Subscrevo tudo.
Desculpe-me o MVDA, mas as câmaras com teleobjectivas começaram a ser utilizadas em relaço aos computadores, porque, infelizmente, a postura dos deputados durante as sessões deixa muito a desejar.Aliás, sempre deixou.
Cumprimentos
«AR não justifica o voyeurismo sobre os aspectos da privacidade d@s deputad@s.»
Caro MVA, escuso-me a comentar jornalismo de casa de banho que fotografa telemóveis e afins. Porém, importa ter presente que o que o Presidente da AR terá dito é que nós (todos nós, V. também) que pagamos os computadores dos deputados, fazêmo-lo por tratar-se de instrumento de trabalho. Logo, não é para que os Srs. deputados acedam a contas pessoais de e-mail e por aí fora durante as sessões da AR.
A privacidade dos deputados não pode estar nos computadores da AR. E, por isso, não deve haver o risco dos jornalistas conhecerem informação reservada.
Abriu-se a caixa de pandora nos últimos tempos, os políticos não tem mais direito a qualquer tipo de resquício de privacidade, ainda mais se forem do PS, e o povo aplaude a nova lógica entusiasticamente. Daqui para a frente é sempre a descer…
sofia, uma das “contas pessoais” a que se refere é de deputado no parlamento. Pode escrever-me: mmalmeida@ps.parlamento.pt. Terei todo o gosto em responder-lhe e fá-lo-ei a partir do plenário. Assim como usarei, no plenário, as redes sociais e outras contas de mail. O mundo já não é o que era. Quanto à demagogia do tipo “os computadores são pagos por nós”, ela morre no momento em que eu lhe desvendo esta extraordinária notícia: também eu pertenço a esse “nós”, tb os pago através dos meus impostos. E onde é que isso nos leva? Quanto ao comportamento dos deputados, que outro comentador refere: que tal abdicar de generalizações? E que tal dar um exemplo de uso indevido dos computadores por deputados, captado pela “implacável vontade de notícias” da comunicação social? Por que há-se essa vontade ser aceite como um facto da natureza? E será tudo notícia?
[…] propósito dos comentários no post Público e Privado, tenho a dizer que continuarei, em plenário, a fazer o seguinte: 1) consultar a minha conta de […]
Ninguém diz que tudo é noticia. A questão, e agora vai-me perdoar a frontalidade, é que muitas das vezes são os próprios deputados a porem-se a jeito.
Antes dos computadores não eram poucos os que levavam jornais para lerem no parlamento…
E quanto ao exemplo que pede, há um, que vi algures num jornal qualquer (penso, já se passou algum tempo) uma fotinha de um computador de um deputado do bloco ou do pcp, não consigo agora precisar, em que se via um jornal desportivo.
A questão aqui, e isto para fazer de uma longa história curta, é que quem não deve não teme.
Em todo o caso, embora tenha achado um disparate o dinheiro gasto na modernização da AR (8 milhões de euros se não estou em erro), também acho um bocado disparatado a questão de quem paga o quê. Aqui tenho de concordar com o Miguel Vale de Almeida.
Para além que essa nem sequer é a questão aqui.
Bossito
Quanto à privacidade que se diz que os deputados em Portugal não têm… Bem, um olhar atento, por exemplo, para a Suécia mostra que em Portugal o que há é privacidade a mais se calhar. Parece-me que está a atirar para o lado errado e vitimização não lhe fica nada bem. Mas pronto(s). Sinais dos tempos… Lamento a postura mas adiante.
Penso, na verdade, que não é preciso ir tão longe como Suécia mas é preciso ter cuidado quando se fala de “falta de privacidade” e “perseguições”. Aqui, pelo menos da minha parte, não se trata de perseguir seja quem for. Trata-se antes de haver um pouco de racionalidade.
Não se pode esperar que as figuras públicas titulares de cargos públicos enquanto que no seu exercício de funções, elas também públicas, queiram passar despercebidos. Para isso, não aceitavam o cargo. É muito simples.
A privacidade dos políticos é em relação à sua vida privada. No que diz respeito à sua função de titulares de órgãos de soberania, quando se trata do seu trabalho, o público deve e tem o direito a saber o que andam a fazer.
Pena é que essa transparência tenha de vir da parte dos jornais visto que a informação disponível sobre o trabalho de deputados, ministros e outros membros do governo e órgãos de soberania eleitos, é escassa.
Caro Miguel,
Eu, enquanto estudante, por mais capaz que seja de fazer multitasking, não tenho permissão para frequentar as redes sociais ou estar a ler notícias durante das aulas teóricas ou práticas que tenha. Se o fizer, posso ser imediatamente posto fora da aula e levar falta. Parto do princípio que tenha a haver com o facto de estar a “trabalhar” enquanto estudante e ter de respeitar a minha remuneração que me é paga em “educação” e trabalhar para a merecer. Já para não falar do respeitar dos outros, especialmente daqueles a quem devemos prestar atenção.
Não percebo a sua questão, nenhum funcionário público ou privado tem permissão para usar redes sociais ou aceder a contas privadas ou sites de lazer durante os períodos de trabalho, sempre que isso não se enquadre nas suas funções profissionais, e os deputados não são excepção.
Se não acham bem estarem todos os deputados na Assembleia mudem esse sistema para um mais funcional, mas não se juntem todos só para fazer figurino .
E, sinceramente, acho muito bem que as objectivas estejam apontadas aos monitores, e acho que podem divulgar qualquer imagem ou foto que tirem desde que isso não divulgue informações da vida privada de ninguém. Considero isso ser transparência, e acho que faz muita falta no ramo político do nosso país, um ramo que tem particulares deveres nesse campo, como deve reconhecer.
E, Miguel, pode ir directo ao assunto: trabalho de deputado é muito chato, ocupa muito tempo, e apanha-se muita “seca” porque o sistema está mal organizado. Sendo esse o problema, é mais fácil alterar o modo de funcionamento do que criticar as objectivas que filmas os pcs dos deputados que vão ao facebook durante os plenários “inúteis”…
Concordo com o Miguel Vale Almeida.
Ir a um grupo numa rede social não é necessariamente ir brincar para a net. Há muitos grupos de discussão e debates. sim, sim, não são apenas os jogos e as fotos dos amigos. E porque não aproveitar para adiantar trabalho se têm tempo para isso? Vendo, lendo e tratando de outros assuntos além do que está a ser debatido no momento na AR?
A mim parece-me que as pessoas já começam a ficar paranóicas. Eu leio o meu email no pc do trabalho por vezes. O meu trabalho é prejudicado por isso? Não! Tenho tempos de espera que me permitem fazê-lo e não tenho ninguém colado a mim a ver o meu monitor.
Os senhores jornalistas e fotógrafos admitiriam eles próprios que estivessem a fotografar ou até mesmo apenas olhar para os seus monitores enquanto trabalham? Ora pois…
Hipocrisia, é o que é…
Elenáro se está a sugerir que o Canal Parlamento seja emitido em canal aberto tem o meu apoio total.
Sra.Daniela:
Das duas uma. Ou tem muita sorte por ter um patrao que nao se importa com a sua produtividade, ou tem muito azar porque nao compreende por si mesma o quanto isso é errado do ponto de vista etico-profissional. Digo-lhe isto com o maior respeito.
Sr.Deputado (espero que nao esteja a ler isto na sua hora de trabalho):
Compreendo a sua dificuldade… se soubesse ao que ia provavelmente nao teria ido.
O que nao vale a pena:
Confundir a etica com a moral. O publico com o privado. Os meios com os fins.
O que deveria valer a pena:
Apresentar propostas de melhoria funcional do Parlamento. Nao é pelo simples facto de termos melhores ferramentas de trabalho que garantimos maior capacidade critica.
A qualidade do nossa sociedade reflete-se na forma como nos respeitamos e como reflectimos e isso é tanto mais relevante quanto maior o nosso papel na mesma.
Por aqui me fico…
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