Talvez haja quem não se aperceba da importância desta notícia, remetendo-a para o campo das questões supostamente “menores” e “politicamente correctas” ou achando que tem a ver apenas (e nunca seria “apenas”) com os direitos das pessoas transgénero e transexuais. Já seria suficiente, mas ela pode significar muito mais: o começo do fim da ditadura categorial de género com que temos vivido quase sem questionamento (desde logo, e este sim exemplo menor, de cada vez que marcamos M ou F em n questionários, ao mesmo tempo que reagimos com vários graus de perplexidade às entradas sobre “etnia”, “raça” e quejandos). Este pode bem ser um breakthrough político e antropológico.
Os Tempos Que Correm
Miguel Vale de Almeida5 Comentários »
Happy!
exemplo a seguir; ou base para reflectir, para os que ainda não se tenham apercebido da importância do M/F
boa notícia ![]()
Mas… quando marcamos M ou F num questionário, o que estamos a identificar não é o género, mas sim o sexo, do/a respondente. E sexo e género não são nem sinónimos nem conceitos intersubstituíveis, verdade? Como é que o prezado Miguel passa de uma categoria para outra, ou subsume uma na outra, assim sem mais? Cumprimentos cordiais,
cmc
Acho a possibilidade interessante, mas não tem necessariamente a ver com os direitos ou necessidades das pessoas transsexuais. Talvez nalgumas situações de transgenerismo (uma palavra que gosto pouco pela amplitude tão grande que acaba por definir pouco ou nada).
A vastíssima maioria das pessoas transsexuais (ou todas, eventualmente, se formos por algumas definições), tal como as pessoas cissexuais, identifica-se como homens e mulheres, e não é uma opção satisfatória uma identificação ‘indefinida’, pelo menos na sociedade em que vivemos (e onde temos vivido há muito, muito tempo), onde a identificação por género continua a ter uma importância nuclear. A tendência, mais ou menos recente em Portugal, para incluir as pessoas transsexuais no grupo dos ‘fuzzies’, como alguns lhe chamam, também acaba por ser um disputar da sua identidade sentida (e vivida), como se ela fosse mesmo, no final de contas, pouco mais que uma pretenção. É algo como dizer (no caso dos homens transsexuais, por exemplo), bom, não és mulher, ok, mas também não és 100% homem.
É um pouco como os quartos de banho unissexo que alguns países ‘ameaçam’ construir para albergar as pessoas transsexuais (geralmente sobre a base da ‘ameaça’ sexual para as utentes mulheres) - há duas possibilidades existentes, com uma das quais se identifica e prefere, mas adiciona-se a terceira como solução intermédia (e sem o aplicar a quem é cissexual). É, no fundo, uma assimetria de reconhecimento da identidade de género entre cissexuais e transsexuais. Não serve, apaga a identidade, é um padrão duplo. É também esperar-se um momento pós-identitário… de quem ainda não tem identidade reconhecida.
O ‘breakthrough’ era mesmo (embora compreenda de que certas perspectivas não seja tão ‘revolucionário’), uma coisa muito normal e banal - mas que ainda não existe para uma minoria entre minorias, que são as pessoas transsexuais. Dizes que és, tens uma identificação persistente e lúcida como, vives e só podes ser feliz, ter qualidade de vida e inserção social como homem (ou mulher)? Então és isso mesmo. Ponto.
Comentaristas: a questão da distinção entre sexo e género é cada vez mais académica, no sentido em que para a pessoa comum não se coloca com a mesma pertinência. O M e o F e dos questionários subsume o género no sexo. Por exemplo, eu que por acaso não sou transgénero nem transexual, fico sempre irritado com os M e os F, por razões políticas, porque não sinto que aquela categoria (e, lá está, tanto o sexo como o género - e o sexo É género) me interesse como descritora de mim mesmo. Quanto a isto se aplicar ou não a pessoas transgénero e/ou transexuais: a aplicação destes breakthroughs é quase sempre indirecta: ajuda a colocar a hipótese de pensar e classificar fora das caixinhas actuais, incluindo a possibilidade de escolher pensar… dentro delas. (Note-se, também, que o que deu azo a esta decisão na Austrália foi um “problema” biológico e não uma vontade política de ultrapassar a categoria género; mas a mudança social e cultural faz-se assim mesmo; caso contrário a luta das pessoas transexuais, por exemplo, seria considerada “reaccionária”, por supostamente obedecer ao binarismo. Recuso isso. Liberdade e autodeterminação implicam liberdade de viver segundo as categorias relevantes para @s própri@s).
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