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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Salteadores dos Passos Perdidos, 4: Notas parlamentares (ou talvez mais para-parlamentares)

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Só me apercebi mais tarde. Não foi uma performance propositada. Na sexta-feira, na sessão plenária de discussão do programa do governo, estava vestido com uma camisa roxa e, à minha frente e sobre a mesa, languescia o meu caderno rosa-choque. Feminista e gay, but of course. E visível perante as câmaras de TV e o público. Gostei do gesto não-calculado.

A retórica política dominante no parlamento, e independentemente das áreas políticas, é pouco entusiasmante. Isto é, parece que se estabeleceu uma tradição que já não tem nem o gusto do parlamentarismo do século XIX ou inícios de XX, e não tem ainda (alguma vez terá?) modos mais contemporâneos, inovadores, experimentais, de fala.

O estado-teatro, que Geertz tão bem analisou ao estudar o Bali do sec. XIX, parece estar vivo. Não no culto da cerimónia, por exemplo, mas mais na semelhança que a nossa política institucional tem com a arquitectura dos palácios dos poderosos naquele lugar remoto: metaforizando, uma sequência de câmaras e antecâmaras que conduzem a níveis cada vez mais restritos e secretos de capacidade de decisão, com filtros que impedem a passagem de informação, criam dependência em relação a intermediários, promovem o boato e a especulação.

Insuportável é ver e ouvir pessoas que não respeitam uma outra ritualidade que, essa sim, acho fundamental ser mantida: a da “dignidade da instituição parlamentar”. “Mandar bocas”, demonstrar displicência, não ouvir os outros, é desrespeitar o mandato de “representante do povo”. E quem faz isso não o faz porque tenha um pensamento sofisticadamente cínico em relação à adequação dessa expressão – “representante do povo”. É porque tal nunca lhe ocorreu. (É certo que aprendi mais sobre democracia vendo filmes americanos do que assistindo a debates parlamentares portugueses – e isso tem os seus custos. Custos de ingenuidade. Mas, caramba, estar ali é um poder e o poder comporta responsabilidade. Que haja quem não tenha aprendido isso - com os pais, na escola, na rua, nas relações pessoais - entristece, quando não revolta).

Muitas pessoas – fora ou dentro do parlamento, não é isso que está em causa – adere a uma visão cínica da política e da acção dos media. A política seria só mesmo poder, no sentido cru de poder pessoal e porta de acesso a riqueza ou status. Os media seriam também apenas a actividade empresarial ou política por outros meios. Uma visão realista seria bem mais adequada: a política e os media são, sim, também isso. Mas são – podem ser, devem ser – mais do que isso. E é aí que entra o factor humano: vão-se encontrando pessoas que, sabendo jogar o jogo, o fazem com convicção e com uma empatia com as pessoas que representam (os políticos), ou com as pessoas a quem apresentam (os jornalistas). E outras não. E isto em todos os partidos e meios de comunicação.

Por vezes, o cizentismo. Uma espécie de funcionários de corte, com identidades aparelhísticas, de instalação praticamente definitiva nos partidos e no parlamento. Nota-se no olhar, desde logo, com algo de baço, triste, distante. It’s pretty depressing, actually.

O Galamba e eu falávamos outro dia sobre isso: às vezes apetece aplaudir outros, de outras bancadas, sejam quais forem. Ou porque o que dizem foi bem dito, ou foi justo, ou se concorda com. Mas os aplausos são ritualmente sectários. Cada tribo aplaude os seus. Estritamente. Mais do que um parlamento de pares, um parlamento de partidos. Terrível para os independentes (they should have known better? Talvez. Mas não creio. Haverá formas de afirmar, con frontalidade e honestidade, a independência, sobretudo quando não se deseja fazer carreira política).

Antes ainda da Política com P grande, a política com p pequeno. Aquela que surge necessariamente no momento de interacção entre quaisquer duas pessoas. Assim que me cheira ligeiramente a manipulação, a tentativa de influência, a coscuvilhice com intenções ulteriores, é o carácter da pessoa que me repele. Fica logo na lista de “bloqueados”. A relação continua, a relação é necessária – mas não há ali a possibilidade de uma relação. Quem se habituou toda a vida a procurar o “é uma boa pessoa” como condição sine qua non para o relacionamento mais do que instrumental ou ocasional, não consegue ceder muito nessa área. Mas ali há de tudo, felizmente.

O deputado normal é um peão. No nível seguinte há a direcção da bancada ou grupo parlamentar. Aí se distribui quem fala, sobre o quê e por quanto tempo. E no nível acima desse, a conferência de líderes das diferentes bancadas, onde se decidem os agendamentos. É certamente necessário que assim seja, por razões práticas. Um parlamento não é uma ágora com toda a gente a falar e sobre o que lhe ocorre. As direcções, por sua vez, têm de articular com as lideranças partidárias, e mais ainda se o partido em causa estiver no (ou for de) poder. De resto, é na distribuição dos deputados pelas Comissões, onde as propostas e projectos de leis são verdadeiramente discutidos e negociados, que se joga a (maior) capacidade interventiva dos peões. E – se o desejarem e quiserem verdadeiramente – na articulação que consigam fazer com o mundo exterior, com a “sociedade civil”.

Mesmo contaminada pelo “referendo” e pelo big scare especificamente português (mais sobre isso um destes dias) da “adopção”, a igualdade no acesso ao casamento civil está definitivamente na agenda. Vai ser preciso muito jogo de cintura, muita pedagogia, muita negociação, algumas cedências e q. b. de teimosia, para conseguir ultrapassar quer a inclinação maximalista (que não é só de outrem, está em mim também), quer o minimalismo amedrontado. É preciso perceber a sociologia dos grupos parlamentares, as tácticas políticas de curto prazo de cada partido na disputa com os outros, apostar em denominadores comuns, e perceber estrategicamente o que é mais necessário e urgente, o que pode abrir mais portas, o que possibilita mais avanços depois, o que pode despoletar a “mudança de mentalidades” a partir do exemplo dado pelo Estado e pela Lei. Pessoas como a Isabel Moreira, “cá fora”, fazem um excelente trabalho de desconstrução do absurdo da exigência de um referendo; e é precisa acção cívica e de movimentos sociais para, mais tarde ou mais cedo, se perceber que a montante da discussão sobre “adopção”, há muitas questões de parentalidade que já se colocam, muitas e muitas famílias de pais e mães gay e lésbicas com filhos.

Sobretudo manter-se igual a si mesmo. Em dignidade, em auto-respeito, em princípios. E manter-se em contacto – com o mundo, as pessoas cá fora, as coisas reais, carnais, emocionais concretas e fundadoras. Carregar baterias humanas – e ir com esse carregador cheiinho “para o Palácio”. (Este fim-de-semana: algures no Portugal profundo, com amigos profundos, com sono profundo. It feels damn good).

10 Comentários »

  Pinguim escreveu em 8.November.2009 | 8:21

Quando soube da sua adesão, como independente (na lista do PS), e a sua posterior eleição como deputado, confesso que a primeira reacção, e positiva, claro, foi a de quão bom seria ter pela primeira vez uma voz defensora do mundo LGBT no hemiciclo, e principalmente como defensor da lei sobre o casamento de pessoas do mesmo género, tendo até dedicado uma postagem a esse facto.
Mas, agora e após a leitura atenta deste seu texto, acho que ganhei, eu e muito mais gente, algo mais do que isso. Temos uma voz, que de “lá de dentro” nos mostra como “aquilo é”; é um pouco, e num bom sentido, é evidente, ter lá um “espião” para nos ir contando o que por ali se passa, à vista e nos corredores…sim porque deve haver muita politiquice nos corredores de S. Bento.
Abraço e desculpe o testamento.

  anna escreveu em 8.November.2009 | 23:36

Embora eu esteja num “fora” muito mais externo ao “dentro” da AR do que o Pinguim, também fico imensamente agradecida pelo esforço (que não deve ser pequeno) de continuares a escrever e a postar estes comentários. Absolutamente priceless.

  Velho escreveu em 9.November.2009 | 2:36

Eh, pá, ó Miguel, este diário é porreiro. Prossegue!

  /me escreveu em 9.November.2009 | 11:14

Gostei de ler. E, embora concorde e entenda que a política exige esperas, compromissos, táticas a longo prazo, a vida exige urgência. É difícil conciliar.

Eu não votei PS porque não suporto o estilo chico-esperto de Sócrates e causa-me asco as políticas educativas seguidas pela anterior ministra (embora também não tenha esperança nos outros partidos. No estado actual das coisas, concordam todos com escolaridade obrigatória até ao 12º, ideia bonita e necessária mas impossível de implementar para á sem custos proibitivos para a qualidade de ensino, e isso choca-me).

Se pudesse votar numa pessoa, teria votado em ti. Por duas razões: por acreditar na tua qualidade e bom senso e por ter esperança de que serias um deputado próximo dos que o elegeram. Como este texto comprova. A explicação dos actos de decisão, das táticas, dos quês e dos porquês é essencial. Para a sociedade civil, para o seu espírito crítico, e creio que também para ti, enquanto independente e com sensibilidade pedagógica.

  PGFV escreveu em 9.November.2009 | 11:49

Continue.

  Tiago escreveu em 10.November.2009 | 11:00

Queria apenas subscrever os comentários acima.

Este trabalho de mostrar o parlamento “por dentro”, de dar mais transparência à casa da democracia, de por um rosto humano à coisa, de aproximar eleitores e eleitos, é absolutamente precioso.

Fiz 8.000 Km para estar cá no dia das eleições. Votei no circulo de Lisboa. Ao ler isto começo a ter a sensação que valeu a pena.

Espero que continue.

  sofia wahnon escreveu em 10.November.2009 | 11:44

Gostei tanto de ler esta entrada (e a de cima, já agora) que maravilha,prof., com aplausos, tribos e Geertz à mistura, podia lá haver melhor?!

  Maria Manuel Silva escreveu em 11.November.2009 | 19:03

De facto, a sua presença na AR até transmite uma sensação de segurança e protecção. Assiste-se a tanto cinismo nos debates do Parlamento, a tanta hipocrisia e imaturidade, que não admira que haja por lá muitos homofóbicos disfarçados de boa gente. It feels so good to have someone who can stand up for all of us on the outside!! Sou ainda bastante jovem e não foi há muito que “saí do armário” e dou graças a Deus por ter nascido na minha geração, por já não ter de me esconder como há 10 anos atrás, ou menos, e por ter tido o acesso a informação e ao apoio transmitido por pessoas como o Miguel, ajudando-me a enfrentar a situação como mais segurança e menos medo!!
Conheci este blog há muito pouco tempo, mas bastou para me tornar uma leitora assidua!
I am fan!!!

  who let the dogs out? escreveu em 13.November.2009 | 22:15

A questão referida no 4º parágrafo do post é invariavelmente notada pelos alunos em todas as visitas de estudo que realizei ao Parlamento, e já foram muitas. “Então mas eles portam-se assim?”, dizem eles.

  Isabel Valongo escreveu em 26.November.2009 | 0:53

Imagino que o trabalho só é colorido no teatro, no circo ou na galeria de arte. E apenas para quem ali estiver por vocação e não por vaidade.
Que não é certamente o seu caso. Muna-se de paciência mas não deixe de imprimir os seus sinais à sua actuação responsável, em benefício de toda a sociedade.
Já agora, ainda não percebi essa súbita adoração pela instituição casamento!? Afigura-se-me que não é necessária para a segurança nem para a adopção.
Boa sorte.

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