Os estereótipos são maus nos dois sentidos, mesmo reconhecendo a assimetria de poder e de (não)reconhecimento entre homos e heteros. É claro que os pais gay e as mães lésbicas não são nem melhores nem piores que os hetero. Mas no campo da adopção - não no da reprodução - quando os casais de gays ou de lésbicas puderem adoptar, passarão pelos mesmos screenings de qualidades parentais que os candidatos hetero. E o que interessa é que esses testes e avaliações não tenham preconceitos homofóbicos (nem, obviamente - mas onde é que isso acontecerá? - heterofóbicos). O artigo do DN que referi posts abaixo tem falhas que poderiam ser colmatadas com afirmações como estas. Mas para que tudo possa um dia funcionar é necessário que o acesso à adopção seja igual para heteros e homos, e que o pessoal dos serviços seja educado para a não-discriminação. O que deve sair de vez dos argumentos políticos é a questão do interesse dos “terceiros”, as crianças, quando usada como desculpa para justificar homofobias mais ou menos escondidas. Esse discurso nunca me ouvirão reproduzi-lo. Quando muito haverá questões de táctica política para conseguir a vitória de denominadores comuns (é claro que é do casamento que falo) capazes de despoletar o tanto mais que faltará cumprir no campo da igualdade; quando muito haverá que considerar a sociologia (ou, em rigor, a sociografia…) quer dos eleitores quer, sobretudo, dos seus representantes parlamentares e das estruturas partidárias em que se inserem. Mas muita gente, e em vários partidos, está dedicada ao trabalho político pedagógico de abrir mentalidades, pelo diálogo, pela demonstração, pelo debate, em torno da virtude da igualdade no acesso à adopção.
Os Tempos Que Correm
Miguel Vale de Almeida3 Comentários »
É exactamente isto, Miguel. Concordo com todas as palavras )))
Bjs, Ana
Hoje ponho em cheque o que pode ser entendido como gays e lésbicas. Não que eu duvide da homossexualidade. Ao contrário do que prega Almadinejad (acho que é assim que se escreve o nome do presidente do Irã), tenho absoluta certeza de que existem homossexuais no Irã. Na verdade, melhor dizendo, hoje desconfio da heterossexualidade. Somos tão heterossexuais assim? Acho que nem cinquenta por cento! Há heterossexuais totalmente orientados por valores cínicos e homossexuais por valores compartilhados. Com isso, estou demonstrando sem querer criar as velhas polêmicas que na verdade fui uma grande sexista! Chata, etc. O que existem são pessoas autênticas e outras cínicas e o resto é fachada. O que cada um quer para si é de cada um. E o que quer prejudicar os outros, também. Para mim, em resumo, a adoção de crianças tem a ver mais com as expectativas do que se quer fazer com esta criança do que propriamente como são os pais. Por exemplo, se os pais têm os filhos mortos num acidente de carro, têm eles condições de adotar crianças? Por isso, para mim, importam mais os critérios de adoção do que com quem os pais dormem. Com quem os pais dormem em minha opinião não determina nada em termos de gênero, mas sim em termos de estabilidade. Estabilidade que inclue VALORES como fidelidade, finanças e como se dispõem a tratar as crianças. Não necessariamente qualquer discussão de “casal” ou o que é um “casal”, portanto, não necessariamente hetero ou homo, uma vez que para mim essa diferença francamente não existe. Deixo minha opinião aqui e sei o quanto é discutível. Mas não sou eu a parlamentar e fujo pela tangente.
Acho que todos deveríamos contemplar uma raiz homossexual em nossa cultura. Quando crianças, somos isolados. Quando adolescentes, um grupo sexual se isola do outro. De repente se forma uma unidade grupal de um e de outro lado e aí sim começam as misturas. O namorado de cá puxa a amiga para o amigo e há alguns elementos do grupo que não se intercambiam nessas trocas, permanecendo fiéis a alguns valores. Isso não deve ser por certo nenhuma teoria nova mas estou apenas a verificar o quanto somos homossexuais em nossa cultura, o quanto preferimos contar as nossas confidências entre o nosso mesmo sexo (gênero) e o quanto nos identificamos por nossas características físicas, muito mais estas do que outras. Como somos impregnados de cultura! Como nos parece horrível o mito do homem-e-da-mulher-num-só-corpo e preferimos (típicos!) permanecer junto aos artefatos morais de Adão e Eva e as cores azul e o rosa. É tão absurdo que não dá para entender como o positivismo “confirma” estas pragas em esteriótipos e julga mal homens e mulheres que “desconcertam” ou “desafiam”. Como estamos amarrados à idéia de violência-masculina e delicadeza-feminina. Como damos ainda pouco valor aos estudos sobre a violência simbólica, por exemplo? Ou a violência-e-o-sagrado? Títulos de livros em nossas prateleiras, não temos coragem de abri-los. Desculpa-me descarregar assim esses malditos pensamentos, saindo de vez de qualquer discussão política, mas como somos tolos, verdadeiros idiotas! A cultura nos faz homossexuais, a heterossexualidade-e-o-amor-romântico são o que constituem os nossos verdadeiros mitos. A nossa realidade é homossexual. As nossas diferenças são, meramente, de geração. O amor-cortês, o amor-cordial, o “casal” tudo isso sim é mais que construção social. Isso é mito! Isso é o que não existe e que forçamos e somos forçados a admitir a existência. Definitivamente, fomos engolidos pelas fábricas de fabricar casais, cônjuges…se fomos colocar tudo poço abaixo, a terra viraria de ponta-cabeça. Estou decepcionada, fui tremendamente enganada.
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