Boa resposta
Boa resposta, Daniel.
Boa resposta, Daniel.
Até pode ser o resultado de algum estado psicológico. Até pode ser o resultado de frequentar mais novas zonas da cidade. O que é certo é que ando chocado com a quantidade de pessoas indigentes, pobres, tristes, deprimidas, pedintes, sem abrigo, desocupadas, embriagadas, vagabundeantes, desesperadas, loucas. É claro - e de que maneira - que o desemprego e a crise económica exponenciam estas situações. Mas creio que estas pessoas com que me cruzo sistematicamente -que literalmente povoam a rua, e com todo o direito,e com todo o direito à sua visibilidade (não é de nada disso que me queixo) - revelam uma crise mais profunda, a da nossa incapacidade colectiva, na democracia portuguesa, de resolver os problemas sociais, de garantir uma distribuição mais equitativa da riqueza, de garantir mais igualdade de oportunidades, de garantir o reconhecimento das pessoas nas suas diversas identidades e necessidades. O meu ponto não é necessariamente “político”, ao nívelda discussão comum que todos e todas temos sobre estes assuntos. É mais um ponto “antropológico” de observação: a sensação de uma enorme clivagem social que demarca já uma cidade vastamente “terceiro-mundista” de alguns enclaves (cada vez mais enclaves) de afluência.
Um gabinete mesmo para trabalhar, sem luxos, embora com vista para o jardim de S. Bento. Um computador funcional e uma boa ligação a um mundo de serviços internos online. Mas tudo muito complicado de perceber, por enquanto. Para mim, claro, em busca de informação sobre como resolver isto ou aquilo – ainda no domínio profissional. A isto acresce a relativa lentidão das coisas: estando num grupo parlamentar do partido do governo foi preciso esperar pela formação do mesmo para que o grupo se consolidasse: primeiro a escolha de ministr@s, depois a de secretári@s de Estado; ainda se anda a decidir quem preside às comissões e quais (e quantas) e a própria direcção do grupo, já anunciada (e é de saudar a paridade absoluta entre homens e mulheres) ainda vai tomar posse. Toda a casa mexe nestas situações: é preciso redistribuir gabinetes consoante o número de deputad@s de cada grupo, é preciso redistribuir os apoios secretariais, é preciso inserir toda a gente nova no sistema – e o sistema é, hoje, tanto físico, como social, como virtual. Até o grupo parlamentar começar a reunir a sério, já na próxima semana, a do debate do programa do governo, a própria discussão e entrosamento (e conflito, naturalmente) políticos não se processam, sobretudo para um novato que não saiba ainda onde ir, estar, como apelar à atenção de outrem, etc. Resolvi refugiar-me no gabinete hoje, o dia inteiro, e acabo agora mesmo de organizar a pasta “Casamento” em termos de documentação fundamental para argumentários. “E mais não digo”. Esta terrível frase aparecerá muito nesta rubrica, pois o trabalho político requer níveis de sigilo que não são compatíveis com um blog público. Talvez até esta rubrica não tenha, na realidade, as condições necessárias para a sua existência, nem sequer “etnográfica” (bota aspas aí): pelo “e mais não digo”, mas também pelo facto de ter mesmo de dedicar a cabeça ao modo trabalho político, que não tem a distância reflexiva da observação (aqui é mesmo participação, não observação-participante à antropólogo). Mas a observação vai sendo feita pela parte de trás, ou de lado, ou de cima, ou o que seja, da cabeça, e certamente será sistematizada mais tarde.
Uma Secretaria de Estado da Igualdade, com Elza Pais (ex-CIG) à frente.
Cláudio Anaia não é, ao contrário de alguns comentários, membro da bancada do PS. É um militante com todo o direito a exprimir as suas opiniões. Ligado, já antes, ao movimento anti-escolha no caso da IVG, percebeu agora, em conjunto com outros movimentos, que a exigência de um referendo sobre a igualdade no acesso ao casamento civil é a forma mais eficaz de derrotar esse objectivo. Porquê? Porque explora justamente as razões pelas quais este tipo de questão não deve ser referendada: coloca o acesso das minorias aos direitos gerais das maiorias nas mãos destas, numa situação de homofobia ainda muito grande. É como se o voto das mulheres ou a igualdade racial fossem referendadas. Como já explicou brilahntemente a constitucionalista Isabel Mayer Moreira (que os media deveriam contactar mais), a igualdade de direitos é por natureza contra-maioritária . E houve eleições, com programas claros sobre legislação na matéria, havendo maioria na questão. Nenhum dos partidos com projectos e intenções de avançar com a igualdade, ou o movimento lgbt, aceita a hipótese do referendo. No extremo oposto, encontramos isto. Ignorância ou desinformação? O PS não aceita a hipótese referendária, muito menos a criatura (que acontece ser eu) que ilustra o post. Todo este assunto nem deveria merecer muita atenção - mas lá que irrita, irrita.
Agora vou visitar uma bebé recém-nascida. Não há nada mais apaixonante. Depois, no “Directo ao Assunto” na RTP-N, a horas impossíveis para o meu eu contemporâneo. Isso é que já é um bocado mais bleergh… sobretudo quando resvala para a conversa de café especulativa, essa pecha da nossa koltura…
Quanto aos Salteadores dos Passos Perdidos só está parado porque está tudo em compasso de espera: formação de governo, de comissões, etc. Não está parado, simplesmente os deputados têm de esperar por estas decisões das esferas (naturalemente, não é queixa) mais altas para começarem a trabalhar de forma mais visível (o trabalho “invisível” faze-mo-lo). Amanhã mesmo já terei gabinete e vou declarar o rol de incompatibilidades e rendimentos.
P.S.: Claro que estas coisas têm um contexto original…
Temos uma governação minoritária. Temos um parlamento mais equitatativamente distribuído pelos partidos. Não vai haver coligações ou acordos parlamentares depois dos vários “não” das oposições.
A AR não pode ser dissolvida nos primeiros seis meses depois das eleições, nem nos últimos seis meses antes das eleições presidenciais, que deverão ter lugar no início de 2011.
Posto isto, a igualdade de acesso ao casamento civil deverá ser conseguida o mais rapidamente possível. Em 2010 deveríamos estar no Top 10 dos países que pugnam pela igualdade da sua cidadania.
Temos uma maioria no Parlamento que pode garantir isso. Para que aconteça é preciso negociação, diálogo, busca de denominadores comuns. Para bem da população gay e lésbica, para bem da nossa democracia. Às vezes uns avançam com tiradas para ganhar corridas partidárias ou para dizer que certas bandeiras são suas. Às vezes outros amolecem, pensam noutras coisas, preferem esperar. Ambos se comportam erradamente. É preciso que assim que a AR esteja a funcionar em pleno, depois de constituídas as Comissões, nomeados os seus presidentes, estabelecidos os deputados, se avance, e em força, para uma solução de discussão, apresentação (necessariamente) conjunta de projectos, e votação.
E, desde já, é necessário o trabalho político para o conseguir o mais rápido possível. No meio daquelas super-organizações, daquelas corporations que são quer a AR quer os partidos, já estou a fazer tudo o que consigo para que, no contexto acima enunciado, se consiga avançar e em força. Mas é preciso e é urgente. Caso contrário, temos muitos caldos entornados.