Já não há presidente da república:
é outra coisa. Doutro mundo. Sei lá.
é outra coisa. Doutro mundo. Sei lá.
Ponto um: o PS ganha e tem um programa para cumprir
Ponto dois: O PS ganha mas sem maioria absoluta
Ponto três: PSD e CDS têm, juntos, mais deputados do que o PS
Ponto quatro: há maioria de esquerda, apesar de as esquerdas estarem tão divididas
Ponto cinco: um acordo de coligação com o CDS seria trágico e contrário à vontade dos eleitores - do PS, dos eleitores habituais do PS que se deslocaram para o Bloco e da maioria de esquerda nacional. Idem para o bloco central.
Ponto seis: no mundo ideal, um governo de esquerda seria bom. Mas as nossas esquerdas estão demasiados cindidas.
Ponto sete: numa democracia madura pode-se governar em minoria com acordos pontuais com todos os partidos, dependendo das matérias. Na actual situação (e o que há é o que há, resultante do voto popular) esta é a melhor situação
Ponto oito: seguem-se eleições autárquicas e daqui a dois anos presidenciais. Vai ser uma legislatura de negociação, esperando-se assim a dignificação do Parlamento
Ponto nove: a situação não é fácil e as próximas semanas vão ser tão difíceis como a campanha que acabou e a que agora começou. Vamos conversar. Vamos trabalhar.
Ponto dez (e mais da minha praia): Portugal tem agora uma maioria clara no Parlamento a favor da igualdade no acesso ao casamento civil.
(E não, nem a pausa, nem o intervalo dos posts anteriores, nem este corny sunrise têm necessariamente ou sobretudo a ver com política…)
[©David Moore]
Agora que a campanha está no fim, quero dirigir-me aos “meus”, à “minha gente”, por muito estranha (e abusiva) que possa ser esta expressão. Quero dirigir-me sobretudo aos meus familiares, aos meus amigos, aos conhecidos, aos amantes e ex-amantes, aos colegas, alunos e ex-alunos, às pessoas que conheci quando era da Política XXI e do Bloco, ao universo de gente dos sítios onde vivi e fiz pesquisa, a pessoas que passaram pelos pintasilguismos e alegrismos, às pessoas – muitas – que navegam na esquerda e sobretudo entre o PS e o BE. Muitas destas pessoas – muit@s de nós – irritam-se, e com razão, com defeitos do PS e com defeitos do BE; e agradam-se, também, com virtudes de ambos. Sabemos o quê: mais ou menos centrão, mais ou menos marginalidade; mais ou menos interesses, mais ou menos purismo; mais ou menos reformismo, mais ou menos radicalismo; mais ou menos incoerência, erros passados, esperanças goradas; teorizações diferentes, pensamentos mais ou menos coesos ou dinâmicos, atenções maiores e menores a estratégia e táctica, a estrutura e conjuntura, diferentes percepções das relações entre teoria crítica e estratégia e pragmatismo políticos. Etc.
Nem falemos disso. Falemos sim, do que nos une. Unem-nos valores. E esses valores são progressistas. Assentam na liberdade, na fraternidade, na igualdade. Assentam no humanismo, mesmo com a crítica pós-moderna a temperá-lo. Assentam no respeito pela história das esquerdas, mesmo com a crítica aos erros – e quantos deles terríveis – por ela cometidos. Une-nos uma atitude de esperança, de mudança, de modernidade, de cosmopolitismo, de desejo de igualdade de oportunidades, de que isso aconteça o mais depressa possível e para o maior número possível de pessoas. Acontece, porém, que agora é preciso votar. E ao votar decide-se a composição do parlamento e, indirectamente, a constituição do governo. Neste momento confrontamo-nos com duas cisões e decisões. De um lado, entre a direita e a esquerda, se aceitarmos – como aceito e defendo – que o CDS, o PSD, Manuela Ferreira Leite e Cavaco Silva representam o Portugal dos valores conservadores, tantas vezes reaccionários, apelando a um caldo de cultura que é herdeiro do atraso histórico atávico de um país cruelmente desigual e só há 30 e poucos anos em democracia. Do outro lado, temos a divisão entre as esquerdas, divisão herdada ainda do 25 de Novembro, em torno da aceitação ou não da economia de mercado, do grau e natureza da reacção ao neo-liberalismo, do valor relativo dado às ideias de reforma, negociação, revolução, utopia. Para mim, o percurso do Bloco, pelo menos enquanto o acompanhei até há mais de 3 anos, foi no geral positivo, pelo que trouxe à nossa política e à nossa esquerda de pensamento e acção e pressões novos. E até reconheço a honestidade da convicção (mesmo que a ache errada) dos que dizem que o voto no BE seria uma forma de forçar políticas de esquerda num governo minoritário do PS. Mas o Bloco que eu agora vejo perdeu a linguagem inicial, perdeu o élan de partido jovem, cristalizou-se e burocratizou-se com a vitória dos sectores mais ortodoxos, supostamente por causa da urgência dos problemas de emprego e laborais – e é verdade que são urgentes e mesmo prioritários, disso ninguém duvida – só que são para a direcção actual do Bloco um argumento para o regresso ao “partido comunista renovado”. E o PS que eu agora comecei a conhecer tem um potencial de mudança e de vida que lhe advém da sua diversidade, da sua tranversalidade, da sua representatividade das diferentes classes, grupos e categorias da sociedade portuguesa, e das mudanças entretanto verificadas pela crise. Mais ambíguo, é certo. Mas porque não pode refugiar-se no conforto sectário de um certo tipo de fundamentalismo intransigente.
Poderia falar de mil e uma coisas – até porque não quero ser o deputado apenas das causas LGBT (não quero, aliás, ser mais do que deputado, independente, não quero cargos executivos e tenho no horizonte da minha vida o regresso à universidade e à minha profissão depois da legislatura). Mas falo da questão LGBT, porque reconheço ser essa a marca que me foi consignada e é por aí que muita da “minha gente” me olha. Tenho sentido na campanha uma receptividade enorme ao que vou dizendo, uma surpresa encantadora com a capacidade de exercer pedagogia sobre pessoas pelo simples acto de nos conhecermos e de lhes dar testemunho da minha vida e da d@s LGBT bem menos privilegiad@s do que eu. Nesta área, o PS proporá a igualdade de acesso ao casamento civil para casais do mesmo sexo, e teremos maioria de esquerda para o aprovar. E como deputado farei toda a pedagogia, todas as reuniões, tomarei todos “os cafés” e “almoços” (grátis ou não), promoverei todas as audiências, interpelarei todos os órgãos e comunicarei por blog para toda a gente, sobre as outras questões que são para mim vitais porque são vitais para a comunidade LGBT e para a dignificação da democracia portuguesa e de toda a gente: as questões de parentalidade, incluindo a adopção e a co-adopção, o acesso das mulheres sozinhas e das lésbicas à PMA, as questões da identidade de género para as pessoas transgénero e transexuais e uma Lei da Igualdade que venha instituir o princípio do mainstreaming de igualdade em todas as leis e em toda a administração pública.
Mas é pelo casamento que começaremos. Começaremos por aquilo que, mundialmente, gays e lésbicas perceberam, no período posterior à crise da sida, ser a chave que abrirá os outros armários, o passo inicial para o fim da homofobia institucional. Em Portugal devemos orgulhar-nos de termos sabido transformar isso numa prioridade. Eu orgulho-me de o ter feito como opinador e de o ter feito, inicialmente, no Bloco, ao introduzir o tema, que felizmente ganhou raízes. Orgulho-me do papel das associações que souberam apostar nesta estratégia. Mas não sou, como se diz por aí, o “papa” (que horror de expressão) desta coisa. Aprendi e construí esta agenda por iniciativa de e em conjunto com a inteligência, a sensibilidade e a dedicação sobretudo de alguém que aqui quero invocar: Paulo Côrte-Real. Com ele, comigo, com tanta e tanta gente, investimos neste assunto de forma pioneira, contra a vontade quer de conservadores e reaccionários (os verdadeiros defensores da asfixias e das fracturas), quer de pessoas de esquerda hesitantes ou contraditórias, quer de supostos radicais que durante tanto tempo desprezaram o assunto. E orgulho-me de, depois de tantos erros e hesitações, ter visto o PS avançar neste sentido e senti-lo avançando cada vez mais, como grande partido de governação, nacional, popular, capaz de abranger uma fatia muito maior da população, diverso, e onde todos os dias estou certo travar-se um diálogo para trazer cada vez mais parlamentares, militantes e eleitores para a dignidade da humanidade e para a humanidade da dignidade.
Não é apenas porque me considero um social-democrata na verdadeira acepção da palavra que me candidato pelo PS, mesmo assumindo todas as críticas que fiz a algumas das suas políticas ou dirigentes ou a algumas ausências dessa mesma social-democracia radical. É também, e sobretudo, porque está na hora de completar no plano legislativo o princípio da igualdade na nossa democracia, alargando para lá dos sectores minoritários já por defeito convertidos à agenda que tant@s de nós têm de combate à violência histórica, física e simbólica da homofobia. No dia 27, primeiro que tudo há que derrotar o conservadorismo; e há que apostar na possibilidade de mudar a vida em tempo útil. No dia 27, apelo ao voto no PS. E depois conversaremos, tod@s @s que partilhamos o ideal da Liberdade.
Isto é lindo. Pena é saber que há pessoas, como a senhora que analisa a política na base de “climas” e “sentimentos”, que até poderão pensar que tudo isto é verdade.
Era tudo muito mais fácil se, à semelhança dos EUA e outros países, os órgãos de comunicação social tomassem posições nas eleições, endossando candidaturas.
Um estrangeiro recém-chegado a Portugal e que deparasse com o debate Louçã-Jerónimo perguntar-se-ia certamente sobre o significado português da palavra “debate”. Os dois líderes pareciam sê-lo do mesmo partido. O resultado da táctica “não se atacar mutuamente e atacar o governo” é que a diferença mais notória foi de classe (social). Em certo momento Jerónimo como que pedia desculpas por eventuais asneiras no “economês”, Louçã condescendia magnânimo. Um bocado penoso de assistir, considerando os valores de ambos em relação a esse assunto (e o quão horrível e relevante continua a ser o classismo, mesmo sem querer, em Portugal).
Completamente de acordo com o Rogério, ali ao lado. Hoje mesmo, antes do cancelamento do seu programa, Moura Guedes dizia, e com razão, que «só se fossem muito estúpidos é que me tiravam do ar». É esperar para ver. Porque qualquer suspeita de interferência política na liberdade de informação é obviamente gravíssima; e não o é menos a histeria de denúncia da mesma antes de se saber os factos.
(Declaração - necessária? - de interesses: sou candidato independente nas listas do PS e, defendendo que a liberdade de informação é sagrada em democracia, acho mesmo assim o programa de MMG péssimo.)