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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Arquivo para August.2009

Propriedades

Alguma confusão noticiosa sobre o que disse ontem no Campus da JS em Santa Cruz. A propósito de questões de igualdade defendi dois pontos. O primeiro sobre como compete à geração mais jovem ultrapassar a cisão revolução/democracia liberal que herdámos do período revolucionário de 74-75 e da "normalização" do 25 de Novembro. O segundo sobre como compete à geração mais jovem integrar a sério as questões de combate à desigualdade socio-económica e as questões de combate à desigualdade de base identitária - ultrapassando assim quer o primado da primeira em muitas teorias de esquerda e o primado das segundas no modelo norte-americano que tende a globalizar-se. A propósito disto quis deixar bem claro que as questões de igualdade identitária, nomeadamente LGBT, não podem ser vistas como propriedade da esquerda mais radical - que as introduciu de modo mais visível em Portugal (ao contrário de outros países). Elas devem ser parte de sectores mais alargados, peocupados com a democracia, os direitos humanos e a dignidade. Ainda bem - e digo-o sem qualquer problema e até com um bocadinho de orgulho pelo que fiz por isso - que o Bloco de Esquerda assumiu as questões de igualdade para lá da socio-económica. Esse facto jogou um papel crucial na divulgação do assunto na política portuguesa - papel que, aliás, também a JS jogou. Mas não pode ficar propriedade de nenhum partido nem ser necessariamente associado a um partido. Até porque, em última instância, a força reivindicativa reside nos movimentos sociais e associações que agregam as pessoas que directamente sofrem com as discriminações.

Reduzir isto a uma questão politiqueira entre o PS e o BE é coisa que não me interessa nem motiva. Até porque bem mais importante é denunciar o projecto reaccionário do PSD neste campo. (publicado 1º no Simplex).

Interrupção de férias (as dele e as minhas)

Faço minhas as palavras da Palmira no Simplex e as do Eduardo no Da Literatura. Caladíssimo em relação à inventona das escutas do governo, Cavaco Silva resolve interromper o silêncio anunciado intervindo directamente no imaginário político em torno da questão do casamento. Como? Recorrendo ao veto das alterações praticamente inócuas à Lei das Uniões de Facto.

Bússola eleitoral

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Partido mais próximo: PS; Partido mais distante: PNR.

Faça o teste aqui.

«Cidadãos escutam o presidente»

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«O Púlpito conseguiu apurar que o senhor António da Silva escutou uma comunicação do Presidente transmitida pelas televisões. Segundo uma vizinha, que pediu para manter o anonimato, “ele não mudou de canal quando apareceu o Presidente”. Este é, segundo a mesma fonte, o segundo caso em menos de seis meses no bairro de Belém - embora a primeira ocorrência tenha atingido maior gravidade, já que se tratava de uma família inteira.»

Coisas boas de Lisboa

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Fazer a diferença

Para quem ainda acha que “é tudo a mesma coisa”, gostava que me dissessem que teria o PSD feito - e que faria Manuela Ferreira Leite se ganhasse - em relação a questões de género como a IVG, a paridade, a violência doméstica, ou o divórcio, entre outras? E que teria o PSD feito - ou o que faria Manuela Ferreira Leite se ganhasse - com a CIG, que nos últimos anos articulou uma verdadeira política de género, mais chegada às pessoas e aos locais e mais inclusiva de outras categorias de discriminação que cruzam com o género? A política de género é justamente um dos “lugares” onde se faz a diferença - a diferença do combate à discriminação e pela igualdade. E a diferença entre direita e esquerda. (no Simplex)

Democratas progressistas

«Paulo Pedroso defende que o PS deve coligar-se preferencialmente com o PCP e o BE, caso vença as eleições com uma maioria relativa. Apoiando a defesa de uma coligação preferencial do PS à esquerda, o dirigente do socialista, que é candidato à presidência da Câmara de Almada, junta-se à defesa desta estratégia de governação, que foi sábado defendida pelo ex-líder do PS Ferro Rodrigues, em entrevista ao “Expresso”. Reconhecendo que “o PCP e o BE têm um problema do ponto de vista do que é a sua visão da situação internacional, que data dos anos 70″, Pedroso considera que no que se refere “à política interna não há nada de incompatível entre o PCP e o BE e o que o PS defende, tirando a retórica e as prioridades de agenda”.» (Público)

Os democratas progressistas não gostam de duas coisas: da ideologia do mercado e da ideologia da revolução. Em Portugal, se quiserem participar em alguma forma de política organizada, têm tido sobretudo dois espaços: o PS e o BE. Num correm o risco de assistir a cedências à ideologia do mercado, no outro ao ressurgimento da ideologia da revolução. Os democratas progressistas subscrevem a democracia parlamentar e defendem que o exercício do poder deve ser marcado pela responsabilidade de avançar com reformas que garantam a melhoria de vida das pessoas, material e simbolicamente, recusando o neo-liberalismo e a utopia revolucionária. Neste momento há democratas progressistas no PS e no BE, como militantes, apoiantes ou independentes em listas. Poderiam e deveriam dialogar mais, ou em clubes de ideias, ou em blogs, ou em movimentos cívicos e sociais concretos. Não para criar partidos novos ou estimular facções em cada partido - mas para assumir a responsabilidade de assegurar mudanças com base em valores progressistas.

Hoje no Diário Económico:

tudo o que o cavaquismo não quer prometer, tudo o que o populismo não pode fazer.

Eu sei que é chato…

… mas a culpa não é minha: a partir de hoje não publicarei mais comentários de anónimos e/ou de pessoas com endereços de e-mail falsos que não permitam o contacto.

Outro piqueno problema (só que bastante maior)

Manuela Ferreira Leite não vai às festas do seu próprio partido. Manuela Ferreira Leite não apresenta um programa eleitoral. Manuela Ferreira Leite finge não se preocupar com a retirada de apoio de Moita Flores. Manuela Ferreira Leite cala-se o mais possível. Manuela Ferreira Leite percebeu a “psicologia histórica” profunda do Portugal herdeiro do salazarismo. A senhora latifundiária fica em casa, à sombra, fazendo as contas; os feitores são enviados para o campo para lidar com os trabalhadores; e estes constroem histórias sobre os poderes misteriosos da senhora resguardada no seu santuário. Salazar, Cavaco, Ferreira Leite: a tradição está viva.

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