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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Arquivo para June.2009

Outra vez não (3)

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Quem foi a principal responsável pela crise das propinas?

E da PGA?

E pela proliferação de universidades privadas?

MFL: My Fair (not) Lady

Outra vez não (2)

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MFL não surge agora saída do nevoeiro. Ela foi:

1) Secretária de Estado do Orçamento no XI governo, de Cavaco Silva

2) Secretária de Estado Adjunta do Orçamento no XII governo, de Cavaco Silva

3) Ministra da Educação no XII governo, de Cavaco Silva

4) Ministra de Estado e das Finanças no XV governo, de Durão Barroso.

@s leitores/as que quiserem enviar recordações de políticas concretas ou polémicas, podem fazê-lo ao longo dos próximos meses. Serão publicadas aqui.

 

Outra vez não (1)

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Vamos então recordar Ferreira Leite. Comecemos pela repressão policial contra os estudantes da chamada (insultada?) “geração rasca”. Sim, Ferreira Leite, ex-Ministra da Educação no Cavaquismo, não hesitava em lançar a polícia sobre os estudantes. Boa recordação aqui.

Sociologia selvagem

Em mais um extraordinário editorial, José Manuel Fernandes resolve mostrar-nos a sua capacidade para a sociologia selvagem. Interpreta os resultados de uns recentes inquéritos sobre valores afirmando que o crescimento do “individualismo” significa (ou deve significar, no fundo é mais isso…) um afastamento do Estado. Esquece-se de fazer o exercício mais básico de todos: “será que há um caso que possa contradizer a minha interpretação?” Há, e não é só um: vá lá ver se o individualismo escandinavo não cresceu a par da exigência de bons serviços públicos e de solidariedade social através do Estado.

(Aliás, as interpretações destas coisas são muito engraçadas, porque nunca definem primeiro os conceitos que usam. A 1ª página do Público diz “Portugueses estão mais individualistas mas com menos preconceitos”. Porquê “mas”? Porque o senso comum confunde individualismo com egoísmo. Quando, na realidade, a hipótese mais provável sociologicamente é a de os portugueses terem menos preconceitos por estarem mais individualistas).

Sintam-se à vontade para usar…

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…temos 3 meses para reavivar a memória e desmascarar este embuste…

O filtro

Mesmo online, ainda leio os jornais seguindo o número das páginas. Por isso, na edição de hoje deparo com o editorial de José Manuel Fernandes argumentando contra uma crónica de Rui Tavares. Hesitei. Não me lembrava nada de ter lido a referida crónica. Esqueço o assunto, passo umas páginas e eis que deparo com a crónica de Rui Tavares. Justamente a crónica que o director do jornal referia. Isto é extraordinário - ou sou eu que vivo noutro mundo?

(Já agora, um pedaço da crónica do Rui: «O que José Manuel Fernandes faz é desvalorizar o testemunho empírico - o registo de quem acertou ou falhou -, para nos dizer que nos 28 estão “os mais respeitados economistas portugueses”. Este é exactamente o tipo de pensamento que nos levou à crise, tanto nos seus aspectos mais amplos como mais mesquinhos (no BPN e no BPP também estavam banqueiros “respeitáveis”, como dizia Vítor Constâncio). Eu, insultuosamente, não quero saber se eles são respeitados ou respeitáveis. Eu quero é saber se eles acertaram no diagnóstico, porque isso lhes daria mais probabilidades de acertar também no remédio.»)

Arraial do orgulho (na liberdade)

De um lado desfilam viaturas militares antigas. Do outro, um grupo de evangélicos guineenses ouve uma pregação em crioulo em que se distingue a palavra “Satanás”. No centro decorre o Arraial Pride. Na luz de fim de tarde à beira-Tejo dir-se-ia uma quermesse rural inglesa. No bom sentido. Muitos carrinhos de bebé, muito velhos (mas não do Restelo), gente gorda e magra, escura e clara, burguesa e popular. No Arraialito, as crianças, na sua maioria filhas de casais hetero, ouvem histórias contadas por fantoches, pintam livros que retratam vários tipos de famílias. Às tantas são os miúdos guineenses que acorrem à tenda. Os pais e as mães passeiam por entre o arraial, assim como os turistas e os polícias. Por entre a crescente multidão vê-se o representante da associação de polícias gay e lésbicas, vê-se o casal hetero que fundou a associação de pais e mães pela liberdade de orientação sexual dos filhos dando entrevistas no Welcome Center da ILGA-Portugal, decorado com um painel alusivo aos 40 anos da revolta de Stonewall. Um senhor passa por mim com uma página do Le Monde e pede-me que preste atenção ao iraniano que corre o risco de ser expulso da Europa (onde vinha casar-se, na Bélgica, com o seu companheiro) e ser enforcado no Irão. Num extremo decorrem os Queer Games, com corridas de salto alto e saia travada, arremeso de pochete e de tairocas ao Papa – fazendo jus à auto-ironia que caracteriza a comunidade LGBT desde… sempre (como suportar a homofobia sem auto-ironia?). À medida que a tarde cai, o recinto vai enchendo, os bares começam o frenesim, a música soa no palco. Pela primeira vez um presidente da Câmara demostra-se digno desse nome e aparece no palco para saudar a iniciativa: “Tenho orgulho em que vocês tenham orgulho”. Homenageia-se António Variações (quantos pequenos países têm um ícone pop gay?) e Ruth Bryden, ouve-se música de vários géneros, que o arraial arrasta cada vez mais jovens, LGBT ou não, que sentem que a narrativa daquele espaço e daquele tempo de festa é – mais ainda do que a retórica da diversidade e do combate ao preconceito – a do valor que mais prezávamos há 3 décadas atrás: a liberdade. El Terremoto de Alcorcón goza consigo mesma e os seus conterrâneos cantando em spanglish: “i rrrrainingue mén, aleluia!” ou “lóbe i in di é!”. E diz que apesar de o Pride de Madrid ser gigantesco, é aqui em Lisboa que vê a maior percentagem de mulheres. Algo que decorre de o movimento LGBT português ser dos mais equilibrados entre L e G que conheço por esse mundo fora. “Vivan los coños!”, pois, como disse ela levantando a sua saia multicolorida de artista-mulher “passando” por travesti. Pelas três e meia da manhã o céu desaba. “God hates fags”? Não creio: acho é que cada uma tem a sua forma peculiar de demonstrar afecto e Ela o que tem é a água (não usou trovões, pois não?).

Novidades no Arraial Pride

Amanhã à tarde, no Arraial Pride, há uma novidade: o Arraialito, um espaço e um tempo para @s miúd@s.

Também à tarde, outra novidade: os Queer Games, incluindo a modalidade olímpica do Lançamento da Pochete!

Nem tudo é (à) “noite”, portanto!

Desnorte

Em Busca da Identidade - O Desnorte, de José Gil, não parece estar a ter a mesma repercussão que teve Portugal Hoje: O Medo de Existir. Posso estar enganado, mas não parece. E é pena, porque é um excelente livro, que vai directo ao coração da “coisa” actual. (Será isso que não atrai?). Sócrates e o aparelho do PS deveriam lê-lo e discuti-lo em retiros de fim-de-semana. Particularmente forte é a análise das reformas da educação como paradigmáticas das mudanças que o poder actual está a promover nas nossas subjectividades. A análise de Gil situa-nos, como colectivo, entre a neurose salazarista e a coisa nova da “modernização” (discurso de Sócrates dixit) e da “avaliação”. O livro termina com isso mesmo, a descrição de um hoje marcado por ambas, vislumbrando-se o retorno da panca identitária como refúgio. Sendo uma crítica incisiva - e a meu ver correcta - da governação socialista, só tenho pena que no fim não surja o aviso sobre como a figura de Ferreira Leite pode justamente ser a promessa subliminar de um retorno à doce neurose salazarenga. É que quando há desnorte, quando não se oferece uma narrativa nova válida - a “modernização” e o homo avaliadus não servem - as narrativas velhas tendem a ocupar o vazio.

Amanhã, no Arraial Pride:

Terremoto de Alcorcón!

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