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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Arquivo para April.2009

Back to the future

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Depressão económica e epi/pandemia de gripe: isto começa a parecer as primeiras décadas do século XX. E eu que em criança pensava que por esta altura andaríamos saudáveis e felizes em avicarros tipo Jetsons…

Bloco central?

É de esperar que, com a crise, surjam os argumentos piedosos sobre a necessidade de “entendimento entre partidos”, “união face à adversidade”, “sobrepor os interesses do país aos interesses partidários”, etc. Frases feitas, sem sentido. Os partidos, os seus programas, a vontade dos eleitores, não são clubes nem empresas nem pessoas singulares com desavenças mais ou menso resolúveis em função de “valores mais altos”. Tal é admissível em situações de catástrofe ou de guerra. Talvez. Mas a “crise”, por muito terrível que seja (e pode bem vir a sê-lo) não deixa de ser uma questão de política -nas suas origens como nas soluções para ela. Se as próximas eleições resultarem em ausência de maioria absoluta isso não não nos condena a governos de iniciativa presidencial, a coligações ideologicamente contra-natura ou a um bloco central. Mas, sobretudo, isso não deve ser colocado antecipadamente como desejável e/ou inevitável em função da “crise”. O melhor que o PS e o PSD têm a fazer é serem bem claros quanto à sua recusa desse cenário.

É 25 de Abril mas isso não interessa para nada

Tanto o Público como o DN põem a coisa nestes termos: “segundo caso de homicídio em casais gay em 3 dias”. Que súbita preocupação com o nosso bem-estar! Na realidade trata-se de estabelecer uma tendência onde ela não existe, de caminho cometendo o erro de chamar “casal” e “gay” (ou “homossexual”) a um caso em que uma das pessoas está casada com uma mulher e a outra pode bem ser uma mulher transexual - podendo ainda tratar-se de um caso relacionado com um conflito de trabalho sexual (necessitando a cobertura, nesses casos, do devido respeito quer para com as pessoas trans quer para com o trabalho sexual). Dramático e trágico e criminoso? Como o homem que matou o companheiro há dias? Claro que sim. Mas o propósito destas notícias não é esse. Elas pretendem servir de “comentário” ao debate sobre o casamento e à crescente visibilidade das vidas LGBT. Leiam a frase com que a notícia do Público termina: «Embora em Portugal não existam estatísticas sobre violência doméstica entre casais do mesmo sexo, os crimes que envolvem homossexuais [são], quase sempre, revestidos de grande violência» - o que interessa é qualificar uma suposta especificidade (violência) e não partir da semelhança (a violência doméstica, sexual, etc. afecta toda a gente). Que súbita “preocupação” com o nosso bem-estar, de facto. Certamente amanhã o DN e o Público estarão cheios de notícias sobre homofobia… Not. Nunca veremos títulos referindo “segundo caso de homofobia em três dias” ou “os crimes contra os homossexuais são revestidos de grande violência”…

Feliz 25

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Liberdade

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Uma palavra que parece ter passado de moda.

Pergunta

A exposição “Our Body” foi cancelada em França. Os corpos usados são os de condenados à morte na China. Esta mesma exposição esteve em Portugal e nada de semelhante aconteceu. Quem a organizou cá não sabia a origem dos corpos?

[Adenda: entretanto já soube que não há certezas quanto à proveniência dos corpor, e que houve polémica também em Portugal (se bem que não uma interdição)]

Um sapato para Ahmadinejad

Ontem diverti-me a ver o presidente do Irão falar na conferência contra o racismo em Genebra. E gostei de ver os delegados europeus saindo da sala assim que ele começou com frases anti-semitas (mascaradas de anti-sionistas). Mas fiquei frustrado: não teria sido uma óptima oportunidade para arremessar sapatos?

Nem é preciso comentar. Basta citar:

«Teresa Morais e Regina Bastos, as duas candidatas incluídas na lista do PSD ao Parlamento Europeu (PE) em lugar elegível por imposição da lei da paridade, poderão vir a renunciar ao mandato. A revelação foi feita no Funchal pelo líder dos sociais-democratas madeirenses, Alberto João Jardim, e pelo deputado do PSD Guilherme Silva, que admitiu ter havido negociações nesse sentido com a direcção nacional do partido. A renúncia das duas candidatas terá sido a condição imposta por Jardim para aceitar que o candidato por si proposto ficasse com o 8.º lugar nas listas, não elegível e visto como uma despromoção face ao 6.º posto ocupado nas últimas eleições europeias pelo ainda eurodeputado Sérgio Marques. Com a saída de Teresa Morais e Regina Bastos, 3.ª e 6.ª nas listas, o nome proposto pelo PSD-Madeira subiria duas posições e ficaria em posição de ser reeleito. Nunca um candidato proposto por Jardim deixou de ser eleito nas europeias.» (Público)

Sigilo & Pinochet

Precisamos de ver isto esclarecido. E isto. Caso contrário vivemos mesmo numa palhaçada.

Dickens pós-moderno

Uma jovem imigrante trabalha num café supostamente cosmopolita. Um dia um dos seus colegas sente-se mal, com dores agudas. Ela pede ao patrão para chamar uma ambulância. Este recusa. Ela insiste. O patrão esbofeteia-a e nos dias seguintes adverte os colegas para não comunicarem com ela.

Uma adolescente lésbica é agredida em casa quando é descoberto que tem uma namorada. Ajudada por alguém de fora da “família”, o caso é apresentado à protecção de menores. A rapariga é colocada numa instituição da Igreja, impedida de ir à escola, obrigada a ir à missa e não pode ver ninguém a não ser a… “família”. De protegida passou a sentir que está a ser punida - pela sua sexualidade.

Este tipo de horror acontece todos os dias e em silêncio. Poderia escrever posts e posts sobre os relatos que me chegam (e não sou nem técnico nem dirigente associativo, apenas professor, com alun@s que sabem poder partilhar comigo), desde a mais cruel homofobia familiar, ao mal-estar que os não-nacionais sentem aqui, passando pela prepotência dos empregadores de precários. A esses relatos poderia acrescentar as histórias de técnicos e técnicas que, sendo supostos ajudar, reproduzem - nas palavras com as vítimas, ou nos actos - racismos, sexismos e homofobias vários. Técnic@s que não têm qualquer treino para a complexidade das discriminações (complexidade?). Acima e à volta deles e delas, um sistema que tudo permite, contentinho por ir fazendo passar algumas leis piedosas, mas deixando-as por aplicar. Ainda mais “à volta”, uma cultura que depois acha que nada de particularmente grave se passa aqui, tranquila e cordial pastagem da tolerância e dos bons costumes…

Como sempre, o silêncio é a grande arma que mantém vivo este Portugal de conto de Dickens adaptado à pós-modernidade.

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