Back to the future
Depressão económica e epi/pandemia de gripe: isto começa a parecer as primeiras décadas do século XX. E eu que em criança pensava que por esta altura andaríamos saudáveis e felizes em avicarros tipo Jetsons…
Depressão económica e epi/pandemia de gripe: isto começa a parecer as primeiras décadas do século XX. E eu que em criança pensava que por esta altura andaríamos saudáveis e felizes em avicarros tipo Jetsons…
É de esperar que, com a crise, surjam os argumentos piedosos sobre a necessidade de “entendimento entre partidos”, “união face à adversidade”, “sobrepor os interesses do país aos interesses partidários”, etc. Frases feitas, sem sentido. Os partidos, os seus programas, a vontade dos eleitores, não são clubes nem empresas nem pessoas singulares com desavenças mais ou menso resolúveis em função de “valores mais altos”. Tal é admissível em situações de catástrofe ou de guerra. Talvez. Mas a “crise”, por muito terrível que seja (e pode bem vir a sê-lo) não deixa de ser uma questão de política -nas suas origens como nas soluções para ela. Se as próximas eleições resultarem em ausência de maioria absoluta isso não não nos condena a governos de iniciativa presidencial, a coligações ideologicamente contra-natura ou a um bloco central. Mas, sobretudo, isso não deve ser colocado antecipadamente como desejável e/ou inevitável em função da “crise”. O melhor que o PS e o PSD têm a fazer é serem bem claros quanto à sua recusa desse cenário.
Tanto o Público como o DN põem a coisa nestes termos: “segundo caso de homicídio em casais gay em 3 dias”. Que súbita preocupação com o nosso bem-estar! Na realidade trata-se de estabelecer uma tendência onde ela não existe, de caminho cometendo o erro de chamar “casal” e “gay” (ou “homossexual”) a um caso em que uma das pessoas está casada com uma mulher e a outra pode bem ser uma mulher transexual - podendo ainda tratar-se de um caso relacionado com um conflito de trabalho sexual (necessitando a cobertura, nesses casos, do devido respeito quer para com as pessoas trans quer para com o trabalho sexual). Dramático e trágico e criminoso? Como o homem que matou o companheiro há dias? Claro que sim. Mas o propósito destas notícias não é esse. Elas pretendem servir de “comentário” ao debate sobre o casamento e à crescente visibilidade das vidas LGBT. Leiam a frase com que a notícia do Público termina: «Embora em Portugal não existam estatísticas sobre violência doméstica entre casais do mesmo sexo, os crimes que envolvem homossexuais [são], quase sempre, revestidos de grande violência» - o que interessa é qualificar uma suposta especificidade (violência) e não partir da semelhança (a violência doméstica, sexual, etc. afecta toda a gente). Que súbita “preocupação” com o nosso bem-estar, de facto. Certamente amanhã o DN e o Público estarão cheios de notícias sobre homofobia… Not. Nunca veremos títulos referindo “segundo caso de homofobia em três dias” ou “os crimes contra os homossexuais são revestidos de grande violência”…
A exposição “Our Body” foi cancelada em França. Os corpos usados são os de condenados à morte na China. Esta mesma exposição esteve em Portugal e nada de semelhante aconteceu. Quem a organizou cá não sabia a origem dos corpos?
[Adenda: entretanto já soube que não há certezas quanto à proveniência dos corpor, e que houve polémica também em Portugal (se bem que não uma interdição)]
Ontem diverti-me a ver o presidente do Irão falar na conferência contra o racismo em Genebra. E gostei de ver os delegados europeus saindo da sala assim que ele começou com frases anti-semitas (mascaradas de anti-sionistas). Mas fiquei frustrado: não teria sido uma óptima oportunidade para arremessar sapatos?
«Teresa Morais e Regina Bastos, as duas candidatas incluídas na lista do PSD ao Parlamento Europeu (PE) em lugar elegível por imposição da lei da paridade, poderão vir a renunciar ao mandato. A revelação foi feita no Funchal pelo líder dos sociais-democratas madeirenses, Alberto João Jardim, e pelo deputado do PSD Guilherme Silva, que admitiu ter havido negociações nesse sentido com a direcção nacional do partido. A renúncia das duas candidatas terá sido a condição imposta por Jardim para aceitar que o candidato por si proposto ficasse com o 8.º lugar nas listas, não elegível e visto como uma despromoção face ao 6.º posto ocupado nas últimas eleições europeias pelo ainda eurodeputado Sérgio Marques. Com a saída de Teresa Morais e Regina Bastos, 3.ª e 6.ª nas listas, o nome proposto pelo PSD-Madeira subiria duas posições e ficaria em posição de ser reeleito. Nunca um candidato proposto por Jardim deixou de ser eleito nas europeias.» (Público)
Precisamos de ver isto esclarecido. E isto. Caso contrário vivemos mesmo numa palhaçada.
Uma jovem imigrante trabalha num café supostamente cosmopolita. Um dia um dos seus colegas sente-se mal, com dores agudas. Ela pede ao patrão para chamar uma ambulância. Este recusa. Ela insiste. O patrão esbofeteia-a e nos dias seguintes adverte os colegas para não comunicarem com ela.
Uma adolescente lésbica é agredida em casa quando é descoberto que tem uma namorada. Ajudada por alguém de fora da “família”, o caso é apresentado à protecção de menores. A rapariga é colocada numa instituição da Igreja, impedida de ir à escola, obrigada a ir à missa e não pode ver ninguém a não ser a… “família”. De protegida passou a sentir que está a ser punida - pela sua sexualidade.
Este tipo de horror acontece todos os dias e em silêncio. Poderia escrever posts e posts sobre os relatos que me chegam (e não sou nem técnico nem dirigente associativo, apenas professor, com alun@s que sabem poder partilhar comigo), desde a mais cruel homofobia familiar, ao mal-estar que os não-nacionais sentem aqui, passando pela prepotência dos empregadores de precários. A esses relatos poderia acrescentar as histórias de técnicos e técnicas que, sendo supostos ajudar, reproduzem - nas palavras com as vítimas, ou nos actos - racismos, sexismos e homofobias vários. Técnic@s que não têm qualquer treino para a complexidade das discriminações (complexidade?). Acima e à volta deles e delas, um sistema que tudo permite, contentinho por ir fazendo passar algumas leis piedosas, mas deixando-as por aplicar. Ainda mais “à volta”, uma cultura que depois acha que nada de particularmente grave se passa aqui, tranquila e cordial pastagem da tolerância e dos bons costumes…
Como sempre, o silêncio é a grande arma que mantém vivo este Portugal de conto de Dickens adaptado à pós-modernidade.