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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Arquivo para March.2009

Adenda

Uma pequena adenda à intervenção de ontem na Conferência “Políticas Integradas contra a Discriminação de Pessoas LGBT”, para esclarecer o tipo de equívocos que podem resultar de uma comunicação improvisada:

Em política (seja a dos partidos, seja a dos movimentos sociais) uma coisa são as convicções e os princípios, outra a estratégia. Desde que o PS prometeu o casamento, é natural que o Bloco queira apostar na questão da parentalidade, para fazer diferença. No plano das convicções e princípios concordo, como sempre disse, com a resolução das muitas questões de parentalidade. Mas estas não se esgotam nem na “questão da adopção”, usada como arma pelos opositores do casamento, que manipulam os receios sociais em relação às crianças; nem se resolvem todas na legislação sobre casamento (mas sim em outras legislações, como a da PMA, etc.). A causa da igualdade no acesso ao casamento civil - e desde logo os principais interessados e defensores, o movimento e a população gay e lésbica - não pode deixar-se cair refém de uma disputa entre partidos políticos. Deve procurar o denominador comum nesta fase da luta pela igualdade, e esse denominador é a igualdade no acesso ao casamento civil. Nesse processo não se tem de, nem se deve, abdicar dos princípios e convicções - que têm a ver com a resolução de todas as questões de parentalidade que afectam os direitos das crianças, futuras mas sobretudo existentes.

Disse que o casamento está “ganho”? Sim, mas historicamente ganho, pois sabemos que será uma realidade mais tarde ou mais cedo - parte do processo de crescentes garantias de igualdade - tendo já dado o salto para o debate nacional, para a agenda política, e para o “centro” do sistema com a proposta do PS. Mas politicamente, em termos de apoio real dos partidos e deputados, de resultados eleitorais, e de apoio social, ainda não está assegurado. Não disse que “está no papo” e que por isso deveríamos aumentar a parada com a exigência de um compromisso do Centro em relação à parentalidade no mesmo pacote do casamento.

Uma coisa são as convicções e os princípios, outra a estratégia. Com a ressalva de que esta não pode contradizer fundamentalmente aqueles. Devemos sempre defender que os direitos e interesses das crianças serão mais bem defendidos se houver igualdade no casamento, assim como na família, na parentalidade, e na reprodução. Não podemos é deixar o debate e o avanço político da questão do casamento ficar dependente, aqui e agora, de uma estratégia maximalista.

Fora dos nossos passeios

Acho excelente. E vou aderir. Mas nestas coisas o meu lado radical vem ao de cima com a força de um vulcão: o que apetece mesmo fazer é partir espelhos e limpa pára-brisas. Não vou, é claro, confessar aqui se já o fiz ou não…

Cá vamos bocejando e rindo

Duas coisas que me passaram completamente ao lado: uma disputa qualquer por causa de um provedor de justiça (bocejo) e uma coisa qualquer com um árbitro de futebol não sei quê (duplo bocejo). Uma coisa simpática do amadurecimento (pronto, vá, do envelhecimento) é que a gente fica boa em triagem.

Nunca se inventa nada

Graças ao comentário da Maria João Nogueira: Taxista do dia. E ainda este, também via comentários.

O taxista-filósofo

Todos temos histórias de táxis. Acho mesmo que devia haver um blog aberto a toda a gente e só para recolher histórias de táxis, uma espécie de etnografia ou reportagem em aberto e em permanência. Mas se as histórias de táxis são quase sempre negativas, ontem aconteceu-me uma de espanto: a corrida custava 6 euros e pouco. Nem eu nem o taxista tínhamos “trocado”. O mais “trocado” que eu tinha era uma nota de 5 euros. O taxista disse que não era preciso pagar, que “deixasse estar”. Insisti para que ficasse pelo menos com a nota de 5. Qual quê. Resposta: “Não se preocupe, um dia encontramo-nos nas voltas da vida e depois paga-me”.

Pedido de desculpas

tirado da casa de fim-de-semana.

De alguns cidadãos, quer você dizer

«”Dificilmente o país teria um melhor provedor do que Jorge Miranda, uma personalidade independente, com uma vida inteira dedicada à defesa dos direitos dos cidadãos, à causa pública”, disse Sócrates.» (Público). Pois sim, pois sim, uma vida dedicada à defesa dos direitos de 90% dos cidadãos…

Jornalismo às 3 pancadas

Se, como diz a notícia do Público, «o novo estatuto será chamado de “associações de convivência”», então o título da notícia - «Venezuela vai legalizar casamentos de homossexuais» - é completamente falso.

Da “lógica” como hiper-racionalidade perversa

Os blogs e opinadores que são contra o acesso ao casamento civil por parte de casais de pessoas do mesmo sexo adoram usar o argumento de que tal mudança implicaria logicamente a permissão do casamento incestuoso e poligâmico.  Acontece que o “argumento”, que apela à lógica, é bem fraco nesse plano - já para não dizer que as transformações políticas e as garantias dos direitos não decorrem exclusivamente ou sequer principalmente da lógica. O “argumento” prossegue a mesmíssima “lógica” do mais radical reaccionarismo homofóbico, o mesmo que associa a igualdade no acesso ao casamento civil ao suposto perigo do slippery slope que conduziria não só ao casamento poligâmico e incestuoso, como ao casamento com… animais (ouvi esse argumento a fundamentalistas evangélicos nos EUA e a ultramontanos da extrema-direita espanhola). A lógica - como a retórica - dão para tudo. Hitler também era, em rigor, bastante “lógico” no seu arianismo e no seu nacional-socialismo : por isso não só os judeus foram vítimas dos massacres, mas também os comunistas, os deficientes, os ciganos e os homossexuais. Não consta que “os polígamos” e “os incestuosos”, essas não-categorias-identitárias-historicamente-discriminadas, existissem enquanto identidades sociais e fossem por isso encaminhados para os campos. No “argumento” não há nada de lógico nem precisa de haver - o seu único propósito é ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e não o de ser a favor de uma transformação maior do casamento.

P.S.: Tem sido muito citado um texto (que não linko, e assumo que isso possa ser pouco ético…) que foi certamente (e à semelhança de casos anteriores) escrito com uma motivação pessoal - um conflito grave que opõe o autor a mim próprio, logo ao meu protagonismo nesta causa…. Não se trata de me auto-conferir mais importância do que tenho; trata-se de saber, infelizmente por experiência com esta pessoa, como funcionam as mentes perversas.

“Cruzes!”

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