WWW.MIGUELVALEDEALMEIDA.NET inicio mail me! Formato tipografico grande Formato tipografico medio Formato tipografico pequeno RSS/ XML/ Sindicação

Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Arquivo para July.2008

Eu gostava de dizer qualquer coisinha

O homem que, antes da sua visita oficial à Madeira, não se pronunciou contra os insultos à democracia pelo cacique local, vem hoje demonstrar o seu poder com a contestação do Estatuto dos Açores.

Anúncios enganosos

Quanto ao Classmate PC, perdão, “Magalhães”, ver aqui.

Quanto ao outro anúncio, o de que o Presidente da República de San Teodoros vai falar hoje (oooooh! aaaaah! Ena, páááá! Uaaaau!), se o homem não se demitir considerar-me-ei enganado.

A etnia portuguesa

Eu cá acho que a etnia a que pertence a juíza Ana Gabriela Freitas tem pouca higiene, é traiçoeira e subsídio-dependente. Raramente os vejo descalçar os sapatos quando entram em casa e vejo-os fazer quantidades incalculáveis de lixo; raramente cumprem as leis, traindo assim os seus concidadãos, e até no privado são dados à traição - a conjugal; e conseguiram viver à pala dos fundos europeus sem os terem usado para efeitos positivos. Não há, de facto, a menor razão para considerar os membros da sua etnia como coitadinhos, coisa que caracteriza o seu discurso sistematicamente queixoso e miserabilista.

Maga-what?

A ideia do computador parece boa. Mas se querem exportá-lo não acham o nome um ‘cadinho difícil de pronunciar e escrever por aquelas pessoas que não dominam a fantástica língua portuguesa e que até inventaram o horrífico “Magellan“? Já estou a a ouvir a soccer mom de subúrbio dizendo “There’s this really nice laptop for kids, the… watchamacallit?… Maga-something….”. Nonio (o de Pedro Nunes, e sem o acento) teria sido uma boa alternativa, até pela relativa proximidade com Nokia…).

(PS: agora a sério, já chega de navegadores e descobridores, não? Já não há paciência…).

A pobreza da cultura (e um token black pelo meio)

Há dias a RTP transmitiu uma reportagem sobre a Quinta da Fonte. Parte dos depoimentos dos moradores eram de cariz etnocêntrico e racista. Mas outra parte era de cariz inclusivo. Icónico mesmo era o caso de um cigano e um negro que eram melhores amigos desde a infância. O que é que isto tem de especial? Pouco ou nada. Qualquer realidade é rica, complexa e diversificada, cruzando-se histórias pessoais, histórias de família e outros grupos, histórias de “comunidades”. Em níveis muitas vezes contraditórios - por classe, género, etnicidade, idade, etc. Especial é as pessoas admirarem-se com isto, especial é não irem primeiro à procura disto, mas sim da confirmação de generalizações.

Também na RTP foi possível ver a entrevista ao director das escolas da Apelação, personagem muito interessante que deu conta de como é possível fazer intervenções positivas em zonas complexas e com resultados bons. Nâo usava nem a “sociologia” desculpativa nem a nova onda politicamente “incorrecta” da nova direita/ex-esquerda. Era simplesmente uma pessoa de bom senso, de cabeça aberta, dedicada e sobretudo conhecedora do meio. José Manuel Fernandes e a outra entrevistadora devem ter ficado banzados…

Mas parece que não. No editorial de hoje do Público, José Manuel Fernandes - apesar de, no fim, reconhecer o valor do referido enterevistado - é mesmo capaz de recorrer à teoria da “Cultura da pobreza”, conceito abandonado e hiper-criticado pelas ciências sociais há décadas. A nova direita/ex-esquerda politicamente “incorrecta” não tem propriamente pensamento: espanta-se com o mundo e a sua complexidade, reage a esta superficialmente recorrendo ao senso comum (que não ao bom senso), e depois “teoriza” desenterrando lixo  sociológico.

Por fim, há que convocar a elite dirigente para, do alto do seu poder, mandar bitaites socio-antropológicos sobre a complexidade social e cultural. Como? Uma vez mais recorrendo a estereótipos e ideias recicladas dos piores passados . Na semana que passou coube a tarefa a Luís Campos Cunha, economista e ex-ministro, que escreveu uma crónica irreal no seu tom lusotropicalista: da sua crónica depreende-se (segue-se a minha interpretação) que os portugueses são no fundo menos racistas, bastando comparar com os ingleses, sendo a instância de exemplificação (oh, espanto!) uma autobiografia colonial e uma história do género “eu até tenho amigos pretos” - a qual, neste caso, até foi levada ao paroxismo com o exemplo do melhor amigo ser negro, com direito a nome e tudo.

Pelo meio, o “trunfo” da nova direita/ex-esquerda tem sido, nos últimos dias, a “descoberta” de que as pessoas de esquerda estariam surpreendidas por haver racismo entre as minorias. Achar que isso é para nós uma novidade ou que nos coloca nalgum aperto é mesmo não ter a mínima noção do que é hoje quer o pensamento progressista, quer o pensamento das ciências sociais. Pudera: a indigência do que se escreve nos nossos jornais de “referência” é largamente baseada na ignorância da coisa mesma que se pretende atacar.

Reincidência crónica

O Público de hoje traz uma crónica de Pedro Vaz Patto contra o aborto. Hoje, dia 27 de Julho. Acontece que o mesmo Pedro Vaz Patto publicava uma crónica no mesmo jornal no dia 24 de Julho, dessa feita contra a nova lei do divórcio. Não sei se será um novo cronista fixo. Mesmo que o seja, baterá um recorde: 3 dias de intervalo. Ou será que as duplas consoantes dão direito a “reincidência crónica”? Certamente depois de amanhã lá teremos um texto seu contra a igualdade no acesso ao casamento?

El jefe

«(…) In July 2003, state-operated radio declared Obiang to be a god who is “in permanent contact with the Almighty” and “can decide to kill without anyone calling him to account and without going to hell.” He personally made similar comments in 1993. Despite these comments, he still states that he is a devout Catholic and was invited to the Vatican by John Paul II and again by Benedict XVI. Macías had also proclaimed himself a god (…) Obiang has assigned to himself several creative titles. Among them are “gentleman of the great island of Bioko, Annobón and Río Muni.” He also refers to himself as El Jefe (the boss)»

Quando a Guiné Equatorial entrar para a CPLP, adoptando o português como língua oficial, Obiang passará a ser “o chefe”. E com certeza teremos Sócrates pragmaticamente elogiando os grandes feitos do seu governo….

Cresce, pulga

Quem, como eu, já viveu no Brasil ou mantém com aquele país contacto regular subscreve sem dúvida este texto. (Deveria haver um programa Erasmus obrigatório para alunos portugueses no Brasil - para acabar de vez com a provinciana sobranceria…)

«(…) Era bom que, com a assunção pelo Governo português de uma política da língua, se conseguisse que esta, bem como as políticas culturais, deixassem de ser dominadas por uma certa elite que parece ainda não ter ultrapassado o complexo de rejeição e de inferioridade causado pelo abandono do país por D. João VI aos ocupantes franceses, indo para o Brasil, que passou a ser sede de Império. Ou seja, era bom que se deixasse de olhar para o Brasil com despeito e se percebesse e aceitasse a magnificência cultural daquele país e a grandeza que é o português ser falado naquela imensidão de terra e de gente. Era bom que se percebesse que Machado de Assis não fica atrás de Eça de Queiroz, que Padre António Vieira existiu porque viveu a dinâmica global da sua época nos dois territórios, que se Mia Couto inovou porque enriqueceu o português com a vivência da língua em Moçambique, antes, no Brasil, existiu Guimarães Rosa. Era bom que quem se acha dono da língua percebesse que as línguas vivas vivem dos seus falantes. Caso contrário, morrem. É por isso que a capacidade de fazer uma reforma ortográfica comum a todos os países lusófonos, como o recente acordo ortográfico, é uma prova de vida e de vitalidade. É por isso que é ridículo dizer que a pronúncia do português que tem que ser regra no ensino e na política da língua no mundo é o português de Portugal. Porquê? Pelos 800 anos de história? E já agora o português de qual Portugal? De Lisboa? De Beja? De Castelo de Vide? De Coimbra? Do Porto? De Chaves? De Lagos? De Câmara de Lobos? De São Miguel? É que a arrogância de proprietários da língua que muitos intelectuais portugueses assumem em relação ao Brasil dá vontade de lhes dizer que perante o elefante cultural, artístico e linguístico que o Brasil é, Portugal não passa de uma pulga.» (São José Almeida, Público, 26 de Julho 2008)

Sem princípios, sem Política

Esta ausência de convicções - esta ausência de política com P grande - nota-se mais ainda quando Sócrates saca do argumento do pragmatismo e dos interesses de estado. Usa-o  quando visita ditaduras e regimes quejandos, da China à Líbia, a Angola, ou quando recebe o presidente da Guiné Equatorial (acolhendo-o na CPLP). O pior é que nem se fica por aí: é comum elogiar os governos e líderes locais. Nada disto é “obrigatório” na diplomacia, nem em nome dos interesses económicos, e nem todos os líderes da sua área política o fazem.

É assim, através desta curiosa pedagogia política, que um país inteiro vai tranquila e pragmaticamente encolhendo os ombros e repetindo os mesmos gestos de falta de princípios a todos os níveis do sistema, das autarquias às empresas e às famílias.

Europe, what Europe?

Obama faz a sua grande aparição europeia em Berlim e não em Bruxelas. Alude assim ao imaginário americano do pós-guerra e desdenha o reconhecimento da União Europeia. Começamos bem, sim senhora.

Entradas seguintes »