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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Arquivo para May.2008

Congresso Feminista

São José Almeida no Público de hoje:

«Um bom indicador da dimensão da barreira mental à reflexão sobre tudo o que se relacione com a liberdade e a autonomia da mulher vai ser o impacto do Congresso Feminista, a decorrer entre 26 e 28 de Junho, em Lisboa. Será interessante perceber qual o peso que vai ter o facto de a comissão promotora do congresso ser composta por cerca de 400 personalidades dos mais variados quadrantes políticos e ideológicos, que reflectem em si a pluralidade da organização, mas, sobretudo, do feminismo. Bem como qual o peso que terá a diversidade temática e político-ideológica das intervenções e a importância das e dos intervenientes. Para já não falar de o congresso se realizar na institucionalíssima Fundação Gulbenkian e de contar na abertura com a presença do Governo, através da presidente da Comissão para a Igualdade de Género, Elza Pais, e de personalidades como a historiadora laureada com o Prémio Pessoa 2007, Irene Pimentel - que assim, mais uma vez, se assume como feminista. Será que todos estes factores serão motivos suficientes para que este congresso não seja atirado para o quintal dos temas marginais, esquizóides, pseudomodernaços ou fracturantes, como se gosta de dizer agora em Portugal? Que as suas reflexões e inquietações sirvam para quebrar o muro do silêncio e da ignorância que normalmente trava o assumir de uma sociedade em que a mulher e o homem estejam lado a lado.»

Junho feminista e lgbt: Congresso Feminista; Marcha LGBT.

Petro-notas

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Há dias um escritor holandês falava do seu gosto por correr maratonas. Dizia ele que ao correr entrava em automático e atingia um estado próximo da meditação. Não sou dado ao exercício físico e, no entanto, percebi o que ele queria dizer. Acontece-me o mesmo quando ando de autocarro. A sensação é semelhante à que se tem num comboio ou num carro como passageiro: quieto, mas deslocando-se, entra-se num ligeiro transe. O autocarro tem, porém, uma vantagem acrescida: circula por espaços urbanos e não paisagens; melhor, a paisagem são as pessoas, as ruas, as casas, os gestos e movimentos, os ritmos, rotinas e imprevistos da cidade

Trago o autocarro à baila por duas razões. Porque em tempo de crise do preço dos combustíveis e de aquecimento global, há que acarinhar o transporte público. Mas em Lisboa o metro não chega porque é curto demais. E o autocarro tem sido construído como o parente pobre do transporte público. Para muita gente, sobretudo da burguesia urbana, o autocarro é um desconhecido porque é um tabu. Como se ao colocar o primeiro pé na coisa se perdesse estatuto social na hora. No entanto, os autocarros da Carris melhoraram imenso, os passes são acessíveis e carregam-se no multibanco, muitas paragens têm painéis electrónicos indicando o tempo para a chegada das carreiras, e os carros são confortáveis e climatizados. Num país de deslumbrados e aflitos sociais, o melhor que a Carris tinha a fazer era uma campanha promovendo o chique do autocarro. Por exemplo comparando Lisboa com cidades do Primeiro Mundo, onde os transportes públicos ganham ao carro.

Mas o nosso “modelo de desenvolvimento” (gasp! cóf, cóf!) privilegiou o carro e a gasolina. Hoje muita gente não pode prescindir do carro, é certo. Mas será mesmo assim? E quem tem estações de comboio praticamente à porta? E quem, vivendo em Lisboa, se desloca de qualquer modo de carro? Não desprezo a existência de necessidade automóvel para muita gente, mas desprezo e desconfio de duas coisas: desprezo a discussão constante sobre “o trânsito” como um problema quase da ordem da natureza e cuja resolução é transformada em prioridade política para que haja trânsito e não para que haja substituição pelo transporte público; e desconfio que a razão última do amor ao carro seja mesmo estatutária e simbólica, sobretudo para as gerações do deslumbramento, do “modelo de desenvolvimento” terceiro-mundista dos últimos 30 anos. O carro - e a autonomia que ele dá (dá mesmo?) - é o símbolo da superação da pobreza.

Não é por acaso que Lisboa é a cidade europeia onde mais se sente a presença dos carros: nas ruas, nos passeios, no ruído, na poluição. Não é por acaso que por cá a publicidade está saturada de automóveis, as conversas sobre automóveis abundam e as pessoas medem-se mutuamente pelos carros. Pela parte que me toca tenho um chaço velho e sujo, parado a maior parte do tempo e faz-me uma impressão horrível imaginar pagar milhares de euros por um objecto que desvaloriza no minuto seguinte. Não fossem os nossos governantes muito provavelmente auto-deslumbrados também eles, e poderíamos ter uma revolução cultural, inspirada “no estrangeiro” (outro deslumbramento, mas com certeza com bons resultados e por boa causa), onde a palermice do auto-status foi já substituída pela auto-nomia dos cidadãos que andam a pé, flanam, param nas montras, saltam para o autocarro e descem ao metro, meditando cidade fora.

Os mais desiguais

Isto é “apenas” o maior e mais grave falhanço da democracia portuguesa. Deveria ser “apenas” a principal razão de vergonha nacional.  E deveria ocupar um lugar central nos discursos da classe política, desde logo e obviamente à esquerda.

SMS

«Maior greve nos combustíveis. 22, 23, 24 e 25 do 5 ninguém abastece na galp, nem bp. Perca 5 minutos do seu tempo e reencaminhe para pelo menos dez contactos»

Erros de português à parte, subscrevo. Mas deveria estender-se a todas as gasolineiras e não ter a ver apenas com o aumento do preço, mas sim com toda uma atitude na medida do possível (e é muito) anti-petróleo e anti-carros.

Chega aquela altura do ano

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Com blog e tudo.

Só é pena a JS ser tão autónoma do PS…

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Sócrates anti-Calvinista

Ao dizer que vai deixar de fumar - e não se ficando apenas pelo pedido de desculpas por ter cometido uma ilegalidade - Sócrates confirma que por detrás das leis anti-tabágicas está um moralismo. Numa cambalhota lógica, no dia 16 disse (via Público) que estava contra o “calvinismo moralista radical” de alguns dos que o atacaram.

Curioso, no entanto, é ninguém ter reparado que nesta frase o primeiro-ministstro está a demonstrar um preconceito contra uma corrente religiosa com certeza com aderentes em Portugal e hegemónica em vários países e regiões da Europa.

Os juristas mobilizam-se

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Acaba de sair “O Casamento entre pessoas do mesmo sexo” de Carlos Pamplona Côrte-Real, Isabel Moreira e Luís Duarte d’Almeida. Da apresentação disponível aqui: «As normas expressas pelos artigos 1577.º e 1628.º, alínea e), do Código Civil - que vedam o acesso ao casamento a pessoas que não sejam de-”sexo diferente” - são inconstitucionais. Assentam em juízos acerca de uma pretensa inferioridade “moral” das relações afectivas homossexuais e em preconceitos sobre a qualidade das famílias constituídas por duas pessoas do mesmo sexo. A consequente discriminação é atentatória dos princípios constitucionais de dignidade da pessoa humana e de igualdade, e do direito fundamental a contrair casamento - também na sua dimensão de direito de uma pessoa a escolher com quem casar. É esta a opinião jurídica defendida pêlos autores nos três estudos aqui apresentados.»

Californication

Fernanda Câncio no DN:

«(…)Há perguntas chatas de fazer. Mas parece que umas são mais chatas que outras. E quem embandeira em arco com este resultado do inquérito do ICS, que parece vir mesmo a calhar para negar uma alteração do Código Civil que permita o casamento das pessoas do mesmo sexo, deveria levar a coisa às últimas consequências e propor a alteração da Constituição. Acrescentar um artigo: é permitida a discriminação em função da orientação sexual. É permitido à maioria decidir por quem se devem apaixonar as pessoas, e como têm o direito de consagrar as suas paixões; é permitido à maioria banir os homossexuais para a clandestinidade. De uma vez por todas, assuma–se a homofobia como um valor da sociedade portuguesa. Propostas de um nome especial para os casamentos homossexuais são homofobia envergonhada, que não se assume. Assumam-se. Repitam comigo: eu sou homofóbico. As coisas devem ter os nomes certos, certo?(…)»

Meanwhile in California:

«O Supremo Tribunal da Califórnia confirmou ontem a possibilidade de casamentos entre pessoas do mesmo sexo naquele estado, ao declarar inconstitucional uma lei que limitava o matrimónio a casais de sexo diferente. Nas ruas da cidade de San Francisco, centenas de casais homossexuais celebraram efusivamente a decisão histórica, que poderá ter uma repercussão nacional. O mayor daquela cidade, Gavin Newson, disse que iria retomar imediatamente a celebração de casamentos entre indivíduos do mesmo sexo.» (Público. Ver NYT)

Ainda o PSD:

«Uma boa notícia: Passos Coelho e Neto da Silva concordam com a existência de um contrato com os mesmos direitos e deveres do casamento para pessoas do mesmo sexo. Só não lhe querem chamar de casamento. Apesar de ser a mesmíssima coisa, parece que o nome já foi patenteado. Ainda assim, a direita portuguesa parece estar a evoluir.» (Arrastão)
Percebo o Daniel. Mas não consigo simpatizar com as declarações de Passos Coelho, mesmo sendo as menos más entre os candidatos do PSD. É que a pequena cobardia irrita-me mais do que a grande.

O nome da coisa

Ainda bem que é gente do PSD a propor um “casamento MAS com outro nome” (e dizendo a seguir - e sem se aperceberem da contradição - que “o nome não tem importância”…). É que assim talvez o PS se decida mesmo pela igualdade total (coisa, como se sabe, dificílima de decidir, sobretudo para quem não leu a Constituição).

Ainda bem que é gente do PSD que se coloca na mesmíssima posição que o PP espanhol. Talvez o PS aprenda com o PSOE que a questão está mesmo no nome.

PS - leia-se as entrelinhas e veja-se como o discurso de Passos Coelho é manhoso (e não pela estupidez de falar em “opção” sexual): é todo feito de modo a evitar qualquer referência à igualdade na adopção, PMA ou parentalidade.

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