Arquivo para March.2008

Em Portugal continua o pânico com “a violência nas escolas“. Os media promovem o grau zero do raciocínio, extrapolando tendências a partir de casos não representativos; os comentadores conservadores encontram nisto a oportunidade para se queixarem do descalabro da “família”, também aqui atirando poeira para os olhos, já que reduzem ao seu arquétipo de família a imensa diversidade de situações familiares. Há de facto uma curiosa coincidência entre o pensamento reaccionário e o uso bárbaro das regras do raciocínio e da lógica. Não admira: quando se quer crer que o mundo corresponde (ou correspondeu) à nossa imaginação, nada é tão eficaz como a demagogia, o estereótipo, a simplificação e a manipulação de sentimentos.
Mas o pânico com “a violência nas escolas” não surge do nada. Interessante seria investigar as ligações entre este tema e vários outros: a reacção à proposta de alteração nas leis do divórcio; o pânico com a quebra demográfica (de portugueses “puros”, claro está); a insegurança (lembram-se: semanas atrás, antes da “violência na escola” era a “onda de violência”?); o medo da imigração; as reacções a reivindicações de igualdade no acesso ao casamento ou ao transexual americano que está grávido. Basta ler as caixas de comentários nalguns blogs ou no site do Público: aí, longe da alguma vergonha que ainda controla os instintos dos comentadores conservadores, é o desbragamento total. Em ambos os casos, ninguém faz o trabalho de casa, porque o que manda é a ideologia. Ninguém pensa, por exemplo, que pode haver ao mesmo tempo divórcio simples e protecção do elo mais fraco no casamento (e basta aos comentadores de direita que usam, agora, o argumento de esquerda sobre a desigualdade de género, lerem a proposta de lei que foi apresentada); ninguém pensa em fazer o primeiro gesto necessário para se poder pensar sobre a violência escolar, que é consultar o número das ocorrências e compará-lo com o número de alunos, turmas, escolas; ninguém pensa, ao dizer que a criança nascida de um transexual vai “sofrer”, em como todos nós nascemos de pessoas que não escolhemos; e por aí fora.
Fora de Portugal - mas pouco falta para cá chegar - a figura d’ O Muçulmano já está instituída como o novo Outro, o novo Pária, subsumida que está a O Terrorista. Este “muçulmano” é, obviamente, um estereótipo e não custa nada ver como a Islamofobia é a nova forma ocidental do antisemitismo. Os materiais simbólicos usados para uma e outro é que são diferentes. No caso da Islamofobia, “O Muçulmano” é construído como pobre, imigrante, jovem e masculino - o que vai muito bem com os outros pânicos. Quais? Olha, curioso, os que se constroem em relação à juventude, à violência, à insegurança dos “bairros perigosos”, aos imigrantes.
Armados de facilitismo nos processos de raciocínio, desprovidos da chatice da lógica, e embriagados pela eficácia estonteante da demagogia mediática, os reaccionários (há que voltar a estas palavras, caramba, e deixar de colaborar com a mentira de que já nada separa a direita da esquerda) estabeleceram um programa que consiste cada vez mais em defender a autoridade do estado, a reificação das culturas nacionais, a gestão patriarcal e heteronormativa da família e da reprodução, e a criação de um Outro diabolizado. Esta agenda - que ao contrário de politicamente correcta é correccional - convive bem com o belicismo e a guerra (contra os vários eixos do mal que se vão definindo) e com a fase selvática do capitalismo. Tão bem, que as consequências sociais deste (a precariedade, a exclusão, etc) são apresentadas como prova da decadência dos costumes e da autoridade. Blame the victim, chama-se a isto. E até para fugir a esta expressão há um truque: acusar a esquerda de desculpar sociologicamente todos os comportamentos antisociais. A espiral retórica do pensamento reaccionário é imparável e nunca falha. Pudera: fez a recruta na Inquisição.
· 28.03.2008 · 12:12 · Categoria(s): política · Tag(s): No Tags · Enviar
Ainda a propósito do post anterior: as queixas contra os “filhos de Rousseau” (e a invenção mesma do “conceito”…), contra o “eduquês”, contra a educação e a escola como uma alegria e um prazer, etc., etc., podem até ter uma base razoável. Mas no fim do dia (como dizem os americanos), cheiram a ranço. São mais um falhanço na tentativa da nova direita de se apresentar como radical e inovadora. São, no fundo, uma queixa contra a contemporaneidade. São um queixume generalizado e meio desfocado pela perda de qualquer coisa que, quando se vai ver (e quantos destes críticos não têm a obrigação de o fazer, vindos da História?), é uma tradição que nunca existiu. E se existiu - essa tradição, essa autoridade natural, esse respeito, essa honra, essa disciplina - abrangeu apenas certos nichos (como os liceus das elites, que então não preferiam colégios privados…) ou exerceu-se à custa da liberdade (como no ensino primário - nunca o nome foi tão adequado…) do Estado Novo.
PS: Experimentei e resultou, o Twingly do Público. Mas não sei se vou usar muito. Afinal de contas ter um blog atrelado à agenda dos jornais não é o tom que quero dar aos Tempos Que Correm. Se quisesse voltar a esse universo de referências fechadas e imediatistas regressava à actividade partidária ou passava a ilustrar o blog com fotos de actualidade e não com desenhos meus. Vou continuar a tentar o “impossível”: um blog de comentário social e político mas feito com um estilo subjectivo e até intimista.
· 26.03.2008 · 18:19 · Categoria(s): geral · Tag(s): No Tags · Enviar

Não sei se chegámos a um estado desastroso na educação. Sei que chegámos a a uma retórica e a um clima de desastre nas percepções do estado da educação. Basta ler jornais e opinadores, ver TV e ouvir certos políticos. Ao longo dos últimos anos têm sido várias as “verdades” criadas: já ninguém aprende nada nas escolas; as escolas tornaram-se em espaços de desautorização e violência; o “meio” escolar - incluindo alunos, professores, ministério - é um caos. Criou-se um pânico moral sobre as crianças e os jovens, normalmente associado a um pânico moral sobre os pobres, os imigrantes e outros “excluídos”. A “escola” tornou-se num lugar de fantasmas e demónios. A solução está à vista (de novo: basta ler jornais e opinadores…): se as pessoas (isto é, a classe média…) puderem escolher a escola onde colocam os filhos, o problema desaparece; se se regressar a formas antigas de autoridade, o problema desaparece; se se for retirando ao ministério a responsabilidade educativa (isto é, se se privatizar), o problema desaparece.
Quando se presta atenção às “soluções” propostas em artigos e reportagens escritos com tom muito sério, calmo, e responsável percebe-se porque tem que haver todos os dias uma notícia alarmista facilmente generalizável enquanto diagnóstico do caos.
· 26.03.2008 · 10:24 · Categoria(s): media, portugal, política · Tag(s): No Tags · Enviar
Estranhei em mim mesmo não ter corrido a escrever um post celebratório a propósito da peça do Expresso em que Solange F, do programa Curto Circuito da SIC Radical, fez o seu coming out. Sempre achei que em Portugal fazia falta a saída do armário de figuras mediáticas, sobretudo ligadas a públicos mais jovens. E foi de facto importante o que aconteceu no sábado passado. Agora creio ter percebido porque não “corri para um post”: é que, afinal, muita coisa já mudou. É como se, de algum modo, isto tivesse que acontecer, estivesse para acontecer. Como se os tempos e o país estivessem maduros. Graças ao trabalho do movimento LGBT, ao apoio de alguma media, e à influência da globalização (à falta de expressão mais adequada), as coisas têm mudado mais depressa do que os aflitos da “mudança de mentalidades” pensam. Mudam é subterraneamente e, como sempre, perante a total alienação dos responsáveis políticos. Que eu - e aqui funciono apenas como exemplo ou cobaia - não tenha saltado da cadeira para a redacção de um post esfuziante é um bom sinal.
· 26.03.2008 · 9:35 · Categoria(s): gay, portugal · Tag(s): No Tags · Enviar

“universidade” agora quer mesmo dizer “centro de formação profissional”. O texto oficial está aqui.
· 24.03.2008 · 18:52 · Categoria(s): universidade, portugal · Tag(s): No Tags · Enviar

· 22.03.2008 · 19:51 · Categoria(s): devaneio, geral · Tag(s): No Tags · Enviar
5 anos de Iraque. Bush vai para a reforma, Aznar descansa, Blair começa uma carreira internacional, Barroso dirige Bruxelas. Milhares e milhares de iraquianos e soldados americanos morreram, milhares de famílias ficaram esfrangalhadas, um país inteiro morreu. Depois fazem-se uns filmes, a coisa fica num parágrafo dos livros de História, e outra igual acontecerá. Pelo menos enquanto houver petróleo.
· 20.03.2008 · 11:30 · Categoria(s): internacional · Tag(s): No Tags · Enviar
in Arrastão:
«O Governo Regional da Madeira terá distribuído um comunicado à imprensa, onde refere que o jornalista Daniel Oliveira foi condenado pelo Tribunal do Funchal numa “pena de prisão até três anos ou com pena de multa não inferior a 180 dias”, a qual seria referente ao texto onde o jornalista chama “palhaço rico” ao Presidente do Governo Regional da Madeira, na sequência de o mesmo ter insultado, perante as câmaras, a classe jornalística. Ora, a sentença esclarece que não há desproporcionalidade entre o artigo de opinião e o insulto a que ele responde e que aquele se encontra em relação causal com o comportamento repreensível do Presidente do Governo Regional da Madeira, pelo que dispensa o colunista de pena, ao contrário do falsamente afirmado no comunicado do GRM. A indemnização arbitrada, porque “a publicação do artigo causou ao assistente incómodo e stress”, segundo refere o Tribunal, vai ser objecto de recurso».
· 20.03.2008 · 11:25 · Categoria(s): media, portugal, política · Tag(s): No Tags · Enviar
«Alberto João Jardim é um palhaço. Envergonha, de cada vez que abre a boca, a nossa democracia. Não é politicamente incorrecto. É apenas um palhaço que manda numa ilha com mais de duzentas mil pessoas. Recentemente, deu-se mesmo ao luxo de retirar a imunidade parlamentar, da qual nunca abdicou, a um deputado da oposição que o atacara. É um palhaço perigoso.» Esta é parte do texto do Daniel Oliveira de há dois anos.
Não seria interessante que muit@s de nós o subscrevessemos? Alberto João Jardim processaria 500 pessoas manifestando-se assim pela defesa da livre expressão e da crítica aos políticos eleitos em democracia?
· 19.03.2008 · 12:22 · Categoria(s): portugal, política · Tag(s): alberto joão jardim, daniel oliveira · Enviar

… é quanto a pérola do Atlântico perfaz hoje no poder.
Entretanto este blog desloca-se por uns dias para uma região autónoma um bocadinho diferente…
· 17.03.2008 · 17:15 · Categoria(s): portugal, política · Tag(s): No Tags · Enviar
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