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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Arquivo para February.2008

O estado lava-mãos

Ainda a propósito deste post: um ano passado sobre o assassinato de Gisberta, que fez o estado português? Quantas acções de esclarecimento? De formação? Quantas campanhas? Revisões dos curricula escolares? Criação de estruturas, gabinetes de apoio, linhas de atendimento, como em Espanha? Discursos políticos? Folhetos? Cartazes? Acções simbólicas, como convidar uma pessoa transgénero para uma posição visível (há-as, e várias, com capacidades pelo menos iguais às de muitos deputados)? Promoção de visibilidade? Inclusão? Transformação das estruturas de acolhimento de jovens em risco? Condenação, nos discursos políticos, da homofobia e da transfobia - com essas palavras - para lá de palavras vagas sobre “tolerância” ou ser-se contra a “discriminação”? Nada. Zero absoluto. Parecemos estar a viver numa sociedade do esquecimento e das palavras vãs. Do lava-mãos.

(Lembram-se de uma coisa menos grave, como as promessas de António Costa de limpeza da cidade de Lisboa e ordenação do trânsito, por exemplo? Que aconteceu? Nada. A cidade definha, emporcalha-se, napolitaniza-se. Alguém protestou? Ninguém. Se é assim com uma mera promessa eleitoral autárquica, que poderíamos esperar em relação a um crime de ódio e suas causas?)

Comentários pendurados

Bem me parecia que ninguém andava a comentar… Mas não: descobri hoje que subitamente deixei de receber no mail o aviso de novos comentários para moderar. Por isso só hoje percebi que havia uma série deles “pendurados”. Desculpas a tod@s.

Por alturas do aniversário do assassínio de Gisberta

Ainda não se sabe ao certo, mas isto pode ser um crime de ódio. Muitas motivações podem estar por detrás de um assassínio tão cruel. Uma delas é o crime de ódio, quando a vítima é morta em função da sua identidade ou identificação, sendo esta quase sempre subalterna. Mas pode dar-se o caso de estarmos perante alguém assassinad@ pelos “patrões” do trabalho sexual. Nesse caso, já não será tecnicamente crime de ódio. Mas será que a tecnicalidade interessa? Muitas trabalhadoras sexuais - mulheres, transexuais, transgénero, travestis - são maltratadas e mesmo assassinadas por chulos, máfias e clientes. Serão bem mais raros, mesmo percentualmente, os casos de prostitutos masculinos maltratados. A violência de género é isso mesmo, de género, pois é na construção da feminilidade, biológica ou não (e nas suas “ramificações” simbólicas, como a homossexualidade ou a transexualidade M/F), como objecto (e quantas vezes como abjecto…) que radica o à-vontade para o exercício da violência.

Precisa de uma almofada?

Duas notícias sobre Obama/Hillary (nunca Barack/Hillary ou Obama/Clinton…), no mesmo dia. Sigo a chamada de atenção de quem diz estar a haver uma clara campanha pró-Obama e anti-Clinton. E de como no mediatismo da coisa, pouco contando as ideias, o género parece ser mais decisivo do que a “raça”… Leia-se atentamente as duas notícias. Os negritos são meus.

No DN:

«Hillary Clinton precisava de uma vitória clara para travar Barack Obama. Com seis dias até às primárias do Texas e Ohio, que se podem revelar decisivas para determinar o candidato democrata à Casa Branca, Hillary Clinton teve 90 minutos para inverter a dinâmica vencedora de Barack Obama. Obrigada a ganhar a 4 de Março para se manter na corrida, a ex-primeira dama foi firme nos ataques ao senador do Ilinóis durante o debate em Cleveland. Segurança social, comércio e política externa foram assuntos em que tentou mostrar as fragilidades de Obama. Mas, a acreditar nos analistas, o frente-a-frente terminou com um empate, pouco ou nada favorável a Hillary. Derrotada em 11 primárias consecutivas, a ex-primeira dama precisava de quebrar o momentum de Obama. A dúvida até o debate começar era que Hillary surgiria em Cleveland. A Hillary simpática que dissera estar “encantada por poder partilhar o palco” com Obama no debate do Texas? Ou a Hillary agressiva que o acusou de usar técnicas semelhantes às dos republicanos e denunciou os seus anúncios “vergonhosos”? A verdade é que a senadora de Nova Iorque sorriu pouco e não assentiu com a cabeça enquanto Obama falava. Foi num tom firme que se disse “muito perturbada” pelas acusações contidas nos anúncios do adversário. Estes denunciavam a ex-primeira dama como apoiante do NAFTA - o acordo de comércio livre entre EUA, México e Canadá -, e criticavam a sua proposta de reforma da segurança social. O NAFTA é muito impopular no Ohio onde muitos trabalhadores o consideram responsável pela falta de empregos. Quanto à segurança social, Hillary acusou a proposta de Obama de deixar de fora milhares de americanos. No que se refere à política externa, a senadora voltou a jogar a carta da experiência, apresentando-se como a mais apta para derrotar o mais que provável candidato republicano, John McCain, no dia 4 de Novembro. Enquanto Hillary fazia as suas críticas, Obama ouvia, muitas vezes com o rosto apoiado na mão e a sorrir. Com 90 delegados de vantagem sobre a adversária, a subir nas sondagens no Texas (onde já ultrapassou a senadora) e no Ohio e dado como favorito à nomeação, o homem que quer ser o primeiro presidente negro dos EUA preferiu manter um tom calmo nas respostas aos ataques e manter-se fiel à sua imagem de unificador. “A equipa [da senadora Clinton] também nos atacou, mas nós não nos queixámos porque consideramos ser uma coisa normal destas campanhas”, declarou numa das suas intervenções mais duras. E não deixou de lembrar o voto de Hillary a favor da invasão do Iraque em 2002. Mesmo quando se referiu à fotografia em que surge vestido com um traje somali, divulgada na Internet, Obama tentou relativizar a polémica. O senador disse acreditar que a imagem não tenha sido entregue pela campanha de Hillary, ao contrário do que disse o blogue DrudgeReport. Hillary não perdeu também a oportunidade para acusar os media de favorecerem o adversário. “Gostaria de sublinhar que nos últimos debates, pareço ser a pessoa que responde sempre à primeira pergunta”, disse a senadora. E acrescentou: “Talvez devêssemos perguntar a Barack se ele está bem ou se precisa de outra almofada.”» Ler o resto da entrada »

Deus, Pátria, Mercado

210208b.pngPrimeiro a Universidade servia a Deus. Depois serviu a Pátria. Agora serve o Mercado. Em poucos sítios e raramente terá servido a Ciência.

No country for blacks and women

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Obama é negro, Clinton é branca. Obama é homem, Clinton é mulher. Quase tudo na escolha Democrata - comparar ideias e propostas, provas dadas e experiência, retóricas de campanha, capacidade de cumprir e potencial de desilusão ou surpresa - passa ou é perpassado por estes dois eixos.

Caramba, não podiam ter arranjado uma mulher negra que nunca tivesse tido um presidente por marido, que gerasse entusiasmo sem ter que recorrer a vagos populismos sobre mudança, que se opusesse desde sempre à guerra no Iraque, que tivesse proposto um sistema nacional de saúde, e que fosse a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo? Damn

Em modo Porto

No Porto. Sempre que cá venho, estas duas sensações: é mais cidade do que Lisboa (uma amálgama de aldeolas em vales e colinas). E se o aspecto e feeling das cidades pudesse ser resumido em escolas de arquitectura e urbanismo, o Porto revive graças à escola do dito, e Lisboa definha numa espécie de modo Taveira.

Morreu Madalena Barbosa

«Não mais a natureza ou o Estado, ou uma qualquer religião a decidir sobre a vida e o futuro das mulheres, mas elas próprias.»

(Madalena Barbosa, Público, 4 Janeiro 2007)

“Não sei se estou a dizer um disparate”

Se pergunta, a gente responde: está, sim senhora. E um atrás do outro, e do outro e do outro.

Convite

Infelizmente estarei fora de Lisboa. Mas fica o convite:

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