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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Arquivo para January.2008

Orientação moral

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[a partir daqui]

«Na “orientação moral” aos católicos espanhóis e a todos os que “desejem” ouvir os seus conselhos, os bispos espanhóis vão mais longe quando referem algumas das políticas emblemáticas do actual Governo, sustentando que “nem todos os programas políticos são igualmente compatíveis com a fé e as exigências da vida católica”. Em relação ao casamento homossexual, a Conferência Episcopal aconselha os católicos a votar nos partidos que se oponham a esta medida, lembrando que o Papa defende “uma família fundada no casamento” indissolúvel entre homem e mulher, considerando que todas as outras formas de união “contribuiriam para a destabilizar”, cita o “El País”» (Público). A coisa não espanta. Aliás, um leitor do Público comenta a notícia justamente chamando a atenção para a mais evidente contradição: em que é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo prejudica, ataca, fere ou perturba o casamento entre pessoas de sexo diferente? E outro leitor/comentador chama a atenção para a vaga de casos de denúncia de abuso sexual de menores por parte de sacerdotes católicos nos EUA (em Portugal não há casos desses, é claro. Isto é assim como o racismo). Mas, hélas, eis que uma leitura atenta do comentário provoca urticária imediata: «Gostava de ler as declarações destes Padres espanhois [sic]sobre as centenas de milhões de dolares [sic] que a diocese de Boston, USA., teve de pagar a titulo [sic] de indemnizações por causa do escandalo [sic] dos Padres maricas de Boston.» Maricas? E eu que pensava que o problema era serem abusadores… Como se vê pelo exemplo, a homofobia ataca tanto a Igreja Católica e a sua “orientação moral” como o campo anticlerical. (Isto é assim como o racismo…)

Remédio sem folheto

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Qualquer coisa de estranho se passava antes da demissão do ministro da saúde. Primeiro foram as sistemáticas queixas de autarcas e manifestações populares contra o encerramento de urgências locais. A sua cobertura foi tal que passaram a ser parte tão integrante dos noticiários como a previsão do tempo. De seguida foi a descoberta sistemática pelos media de casos que criassem sensação. Dos mais trágicos, como mortes, aos mais cómicos (e não menos trágicos…) como o de Alijó. Tão-pouco havia dia que passasse sem um “caso”. Por essa altura deu-se o terceiro fenómeno: subitamente o Ministro começa a aparecer nas TVs, praticamente como comentador fixo, e afundando-se na sua incapacidade em se explicar. Mas uma coisa ficou por dizer, quer pelo ministro, quer pelos outros políticos, quer pelos media: em que consistia (consiste?) o projecto de reforma da saúde? É de admitir que seja catastrófico e vocacionado para a privatização. Mas também é de admitir que muitas das queixas e denúncias não tivessem uma base racional (é admissível que uma ambulância possa ter mais meios do que uma urgência mal equipada). Não sabemos. E não sabemos porque nem o governo foi capaz sequer de fazer uma boa campanha de propaganda (”oiçam, é assim, a coisa está mal por isto e isto e nós vamos mudar isto e aquilo para no ano x termos o resultado y”), nem a oposição desmontou - ou não lhe foi dada voz… - a reforma. Em suma, nenhum dos actores da política ou da informação. Andámos a tomar um remédio que não trazia folheto explicativo.

O interesse da família suprema

Os que argumentam, em abstrato, sobre o “supremo interesse da criança” (ver, sobretudo, comentários aqui), impõem, eles sim, um interesse à criança: ter um pai e uma mãe. Se levassem o seu pré-conceito até às últimas consequências, teríamos (?) no futuro uma lei de adopção que distribuiria tipos de criança por tipos de adoptantes, pois os mais consonantes com a satisfação do referido interesse teriam mais possibilidades de negociação e escolha - na qual investiriam todos os preconceitos dominantes; os menos contentar-se-iam com os “restos” (também segundo os preconceitos dominantes). Casais heterossexuais estáveis teriam acesso a crianças saudáveis, eficientes e, claro, tendencialmente loiras e de olho azul. Pessoas sozinhas ficariam com as crianças dadas às olheiras, moreninhas e baixitas. E os casais homo ficariam com as crianças “diferentes”, como se diz agora, doentes crónicas e deficientes profundas. O “supremo interesse da criança” é, na ausência de agency das crianças mais pequenas, uma frase vazia onde podem caber ideias sobre famílias supremas e famílias párias, crianças de segunda e crianças supremas.

Uma questão de fé

«Les boletes confiscades per la Guàrdia Civil als islamistes detinguts a Barcelona i exhibides per la policia com a metralla per multiplicar l’efecte destructiu de les bombes són, en realitat, grans per muntar rosaris per resar.» (Avui)

[as bolinhas confiscadas pela guarda civil aos islamitas detidos em Barcelona e exibidas pela polícia como sendo metralha para multiplicar o efeito destrutivo das bombas são, na realidade, grãos para fazer rosários de oração] Obrigado à Sara pela dica desta notícia.

Calle, carrer, rua

 

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Um repórter de um jornal português, numa peça sobre o bairro do Raval em Barcelona referia, provavelmente para dar cor local, que é na calle Hospital que se situa a mesquita local. Achei curioso o uso do castelhano calle em vez do catalão carrer. Certamente o jornalista não quis com isso posicionar-se na política linguística local. Apenas reflectiu a atitude portuguesa perante Espanha e as Espanhas. Uma atitude que tem muito de distanciamento e ignorância - em certa medida compreensíveis pelas conhecidas razões históricas. Mas que começa a não fazer sentido - já não faz sentido - com a integração europeia e, sobretudo, a integração ibérica. É comum nos media, por exemplo, ouvir e ler referências a Espanha quando se fala, de facto, da Galiza. Sendo, é certo, a última parte da primeira, o que espanta é por que não surge como natural e automático dizer “Galiza” em vez de “Espanha”. As entrevistas de rua, por exemplo, são feitas num rascosíssimo castelhano e nunca em português. Também não faltam as pessoas que já conheci que, quando passam temporadas largas na Catalunha (Barcelona tornou-se num importante destino português), olham o catalão e a cultura catalã como bizarrias marginais, que não se esforçam por aprender, levando-as a reproduzir o b-a-ba do anticatalanismo primário da hegemonia madrilena. Quer isto dizer que aprenderam, com gosto e dedicação, a língua e conhecimentos da cultura espanhola de expressão castelhana? Não, tão-pouco: aparte o utilitarismo dos cursos para frequentar faculdades de medicina ou a aprendizagem promovida por empresas espanholas, os portugueses continuam de costas voltadas para o espaço ibérico. Para a Espanha-espanha e para as espanhas - de que somos, afinal, uma das partes. Se calhar é por isso mesmo, para recusar isso mesmo; e, nesse processo, não medra sequer a solidariedade ou a empatia com as nacionalidades históricas aqui ao lado.

As pessoas não ficam quietas

insem.pngEnquanto o sistema vai resistindo, das formas mais absurdas e frequentemente cruéis, ao reconhecimento da igualdade plena, as pessoas não ficam quietas. Cada vez mais homossexuais recorrem a algo que os homófobos esquecem que eles e elas têm: corpos. A reprodução biológica das lésbicas aumenta, mesmo entre nós; por vezes sem que o “pai” biológico enverede por um projecto de pai social. Mas, por outras, com participação - biológica e social - de um homem ou casal gay. Nem a proibição do acesso de mulheres individuais e lésbicas à procriação medicamente assistida (coisa da lei portuguesa recente e ao contrário da lei espanhola dos anos… 80) impede as pessoas de cumprirem o desejo de procriar e/ou de construir projectos de parentalidade. A inseminação artificial caseira faz-se e não é nada do outro mundo.

Pensavam que íamos ficar quiet@s?

Flashback sonoro

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O autocarro parou lá em frente. O letreiro dizia: “Residência de Velhinhos das Irmãzinhas dos Pobres”. Os mais novos talvez não percebam que campainhas uma frase destas faz tocar, mas “eu sou do tempo” (aargh, frase detestável!) em que o espaço público sonoro estava pejado de velhinhos, irmãzinhas, pobrezinhos, aleijadinhos, coitadinhos, é a vida, triste sina, é o meu calvário, maçadas, nervos, ralações, preocupações, eu sou muito doente, se deus quiser, o que é que se há-de fazer, vai-se andando, muita saúdinha, e toda uma sinfonia de resignações declinadas em inho.

No meio das panelas? Hummm…

Obrigado ao P.M. por estas deliciosas e embaraçosas fotos numa loja de utilidades e decoração algures na Parede. Não há nada mais irreal do que a realidade…

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Como não conseguiria dizê-lo melhor…

… aqui fica escarrapachado:

«Associação ILGA Portugal condena Decreto-Lei sobre famílias de acolhimento

O Decreto-Lei que estabelece o regime de acolhimento familiar foi publicado ontem, excluindo desta possibilidade os casais de pessoas do mesmo sexo. Trata-se de uma medida irresponsável do actual governo socialista, baseada no preconceito homófobo e que revela a incapacidade de contribuir para a igualdade e cidadania plena.

Governo legisla irresponsavelmente com base no preconceito homófobo.

Foi ontem publicado em Diário da República o Decreto-Lei que estabelece o regime de execução do acolhimento familiar, «medida de promoção dos direitos e de protecção das crianças e jovens em perigo».

Numa entrevista no Público em 12 de Novembro de 2007, aquando do anúncio do novo Decreto-Lei, a Secretária de Estado Adjunta e para a Reabilitação, Idália Moniz, respondeu à questão “Casais homossexuais poderão candidatar-se a esta figura?” dizendo que “O que está na lei é: [pode candidatar-se] uma família que resulte de um contrato de casamento, uma pessoa singular, ou duas pessoas em união de facto ou em economia comum.” Ler o resto da entrada »

A bactéria e o código postal

Há uma bactéria doida por encontrar “homens que têm sexo com homens”. Se ela tivesse os códigos postais dos bairros com maior percentagem de casais gay ficaria contente. Tontice? Não. A realidade é bem pior. A divulgação do estudo sobre a Staphylococcus aureus também é pior do que se pensava e padece dos mesmos erros dos anos oitenta, quando do surgimento da sida nos EUA. Não se ficou pelo Correio da Manhã, apareceu também, acríticamente, no Público e no Diário de Notícias. Se lerem o artigo científico que está na base disto tudo, vão ver o nível. Escolhem-se os códigos postais correspondentes a zonas da cidade onde vivem mais gays e pumba [«We calculated the incidence of multidrug-resistant USA300 infection in each city ZIP code based on the 532 cases and used 2000 U.S. Census data to test the association between disease incidence estimates and the proportion of male same-sex couples living in those ZIP codes»]. Sobre os verdadeiros riscos - os que decorrem de certos comportamentos sem protecção, praticados tanto entre homens como entre homens e mulheres, por exemplo - nada, muito menos na divulgação mediática. Convenhamos: a notícia só interessa aos jornais porque o verdadeiro objecto é “os homossexuais” e não a bactéria. Não admira que numa das notícias alguém advirta que a coisa se espalhará terrivelmente quando passar para a “comunidade” em geral. Deve ser aquela a que os homossexuais NÃO pertencem e onde NINGUÉM tem comportamentos de risco no que diz respeito a doenças sexualmente transmissíveis…

Já há um comentário ao artigo: «Annals [é o nome da revista, OK?] article highlights the risk is associated with skin-to-skin contact primarily by unprotected anal intercourse [algo que é independente da orientação sexual das pessoas; aqui competiria aos jornais que divulgaram a pesquisa especificá-lo]. My concern is the community of men who have sex with men are the only population emphasized in the article when anal intercourse is practiced fluently in men who have sex with women. Men who have anal intercourse with women do so for reasons mainly of pleasure and a form of birth control, usually unprotected for the latter. So, if an average person were to read a synopsized version in the news based on this article, particularly the young, they might get a message of: ‘It’s a risk for men who have sex with men, I am not of this population, therefore I am not affected.’ Can this article emphasize that it is the unprotected anal intercourse causing the risk of MRSA infection and that is not limited to men who have sex with men?»

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