Eis algumas alternativas, ao longo de 2008, para quem não quiser fazer nada logo à noite:
10 de Janeiro: Muharram (Ano Novo Islâmico)
14 de Janeiro: Ano Novo Cristão Ortodoxo Oriental
22-25 de Janeiro: Ano Novo Budista (Mahayana)
7 de Fevereiro: Ano Novo Chinês
14 de Março: Ano Novo Sikh
1 de Abril: Ano Novo Assírio
13 de Abril: Ano Novo Tailandês
21 de Março: Norouz (Ano Novo Zoroastriano) e Naw Ruz (Ano Novo Bahá’í)
6 de Abril: Ano Novo Hindu
20-23 de Abril: Ano Novo Budista (Theraveda)
11 de Setembro: Ano Novo Copta
29 de Setembro / 1 de Outubro: Rosh Hashanah (Ano Novo Judeu)
29 de Dezembro: Muharram (Ano Novo Islâmico)
· 31.12.2007 · 13:55 · Categoria(s): devaneio · Tag(s): No Tags · Enviar

“Disclaimer” nº 1: fumo tabaco (não sou fumador, pois isso não é uma identidade). “Disclaimer” nº 2: concordo com leis de defesa das pessoas (incluindo “fumadores”) que não fumam e com a proibição de fumar em espaços públicos fechados.
Posto isto, o que me preocupa é a vaga cultural que aí vem, à semelhança do que aconteceu, por exemplo, nos EUA - o tsunami fundamentalista e virtuoso. É uma vaga em que se mistura o fundamentalismo de origem religiosa sobre o corpo como templo de Deus com o fundamentalismo higienista da eugenia do século XX e com o fundamentalismo da imortalidade, da saúde, do health club, da dieta e da ortorexia do século XXI. A partir de 1 de Janeiro vou ser como aqueles homens que eram acusados de servir o diabo por consumirem álcool e os herdeiros contemporâneos das militantes evangélicas da lei seca norte-americana vão crucificar-me. Porque a verdadeira e mais profunda convicção dessa gente é a de que a lei antitabágica é amendoins – nada menos do que a ilegalização do tabaco, a medicalização e a criminalização dos fumadores as satisfaria. Porque para elas, sim, há uma espécie, a dos fumadores. Espécie inferior ou, no mínimo, raça degenerada, à espera de ser resgatada do seu ínvio comportamento ou punida pela sua recusa primitiva em ascender à civilização. A partir de 1 de Janeiro serei um drogado, um junkie, uma pessoa sem força de vontade, um fraco, um untermensch, um pedaço de lixo, um peso para a sociedade, alguém que vai consumir em contas hospitalares os impostos pagos pelos outros (é claro que este “argumento” deliciosamente irracional nunca refere os impostos que eu pago – e bem e de bom grado – pelos abortos de pessoas com quem nem o sexo partilho, ou pelo tratamento da diabetes de comedores compulsivos de doces). A partir de 1 de Janeiro eu terei uma falha moral, serei uma pessoa suja, decadente, nojenta, atentatória do bem-estar da nação, anti social, em suma: má. O mal terá tomado conta de mim, e o mal que passará a habitar em mim é um mal perigoso, que poderá contagiar os outros e contribuir para a decadência generalizada da sociedade. Será um mal a extirpar, mais tarde ou mais cedo. Não serei uma pessoa com comportamentos de risco, serei membro de um grupo de risco, um sidoso. E esse problema não será só meu, será dos outros, dos virtuosos (os sidosos da virtude?), porque o virtuoso não quer o bem do outro, quer é não ter que o ver, quer é que ele não seja. A partir de 1 de Janeiro serei o exemplo negativo a mostrar às crianças, o pária, o andrajoso, o papão, o judeu salivante esperando à esquina por inocentes violáveis, serei pior do que um “paneleiro”. Deu-lhes para aqui, talvez por simetria com a - de facto - execrável indústria tabaqueira. Foram o fumo e o tabaco como poderia ter sido qualquer outra coisa. Já foi o álcool, já foi o sexo, amanhã será outra coisa. Mas a partir de 1 de Janeiro, a moral cristã, a moral do estado-nação e a moral médica partilharão a cama das mentes virtuosas, para quem o verdadeiro problema não é – e nunca foi – garantir um equilíbrio de liberdades, garantir o seu direito a estarem em espaços sem fumo. Mentes para quem o verdadeiro problema é estarem rodeadas de sujos imorais. Gente que para lá da absoluta legitimidade de pedir para que não se fume em suas casas ou muito perto delas, não deixará de azucrinar com conversa antitabágica onde e quando quer que seja.
Gente com quem não terei o mais pequeno interesse em aguentar cinco minutos sequer de conversa num ambiente utópica, laboratorial e celestialmente limpo, temperado pela poluição dos seus queridos e smoke-free automóveis promotores de status para parolos. À vossa, padres-polícias-pneumologistas, uma baforada e um feliz ano novo.
· 30.12.2007 · 22:58 · Categoria(s): devaneio · Tag(s): No Tags · Enviar

Ouvir a palavra “humilde” é levar um pontapé que me envia para os anos sessenta, o Portugal tardo-salazarengo, os livros de leitura da escola primária de então, burguesas de lagrimita ao canto do olho no Natal dando comida a mendigos, narrativas sobre pastoras pré-púberes com visões. As palavras são assim, marcadas. “Humilde” tem musgo e cheira a salazar. Agora entremos na máquina do tempo. Tenho andado a tropeçar na palavra “liderança”. Acho que ela me atacou porque, desde logo, é muito feia. “Humilde” tem aquele “humi” que soa a mofo, tal como “liderança” tem aquele “ança” que soa a mal-amanhado. Mas são palavras com marcas simétricas: oiço humildade e vem-me a imagem de uma professora beata de bata; oiço “liderança” e vem-me a imagem de um enfatuado de fato. “Humildade” está para o horror do Portugal ancien régime como “liderança” está para o horror do Portugal nouveau régime. A primeira soa a trocos e igreja, a segunda a muita massa e tropa. Não por acaso percebi outro dia que um curso de gestão da minha faculdade oferece cursos de liderança na escola de fuzileiros. (Não consigo é encontrar cursos de humildade. Nem tudo é mau, portanto). O Portugal da humildade e dos trocos e o Portugal da liderança e da finança (olha, outra) vão encontrar-se mais tarde ou mais cedo e não faço ideia como vão dar-se. Suspeito que uma velha receita será trazida de volta à luz do dia: dá-se a humildade aos pobres e a liderança aos ricos. Cada macaquito em seu galhito (ler com sotaque castelhano em honra dos apresentadores de circo desta época humilde).
· 27.12.2007 · 11:07 · Categoria(s): devaneio · Tag(s): No Tags · Enviar
Irreal, de facto. Quer dizer, real demais. Mas os blogs podem servir também para contar os pequenos episódios que de outro modo se perdem nas memórias pessoais. Há umas noites atrás, o meu companheiro e eu chegámos a casa de táxi. Ao sairmos, dois outros homens aproximaram-se e acenaram para o motorista. Este rapidamente desligou a luz indicadora de “livre” e arrancou. Os dois homens eram “negros”.
Mas, é claro, não há racismo em Portugal.
· 27.12.2007 · 10:33 · Categoria(s): portugal · Tag(s): No Tags · Enviar

… a última semana em que se pode fumar livremente.
· 24.12.2007 · 11:41 · Categoria(s): devaneio · Tag(s): No Tags · Enviar
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· 23.12.2007 · 13:13 · Categoria(s): geral · Tag(s): No Tags · Enviar