Excelente,
este post do Daniel.
este post do Daniel.
Irritante mesmo é quando a ignorância se apresenta como coisa séria e quase doutoral. Tão ou mais triste do que a campanha da Tagus foi o coro de críticas da hetero-direita jornalística às reacções de algumas associações e activistas lgbt (e não importa aqui discutir se essas reacções foram mais ou menos adequadas). O que a hetero-direita (que abrange muita gente de “esquerda”) não percebe é que não existe (infelizmente, mas não existe) simetria simbólica entre hetero e homossexualidade, a não ser em grupos muito restritos de pessoas. Não percebem que não existe, organizada, sistémica e culturalmente incorporada, uma heterofobia equivalente à homofobia. O que eles não percebem é que, por exemplo, não existem insultos referentes à heterossexualidade.
Mas se sentem falta disso, não seja lá por isso, que a gente inventa a simetria. Podemos suprir esta terrível injustiça e inventar uns palavrões? Querem mesmo? OK: “Aquele gajo é um ganda _____________”.
Por um mero acaso, só ontem reparei numa frase de campanha da lista adversária (e representando o sector dos actuais dirigentes) nas eleições para a Assembleia Estatutária da minha faculdade: “Equilibrar racionalização e participação”. A frase é extraordinária. Ela parte do princípio de que “racionalização” e “participação” são princípios opostos. A dita racionalização seria sempre, subentende-se, um processo economicista e este, por sua vez, seria sempre anti-participatório (que é como quem diz democrático). É brilhante como confissão do ar dos tempos. Aliás, é algo deste género que permeia o espírito do governo e o espírito do absurdo Regime Jurídico das Universidades que está a tentar impor-se. O objectivo final é acabar com a experiência portuguesa de gestão democrática das universidades. É apenas isso. Para dar lugar ao grande desígnio de “racionalização” que consistirá na privatização, conseguida graças a vários cavalos de Tróia, desde a presença de “figuras de relevo” da “sociedade” nos órgãos de decisão até à gestão por fundações de direito privado. Há quem diga, e com razão, que a universidade tem demasiado corporativismo e que atitudes anti-democráticas são o pão nosso de cada dia em muitas faculdades. É verdade. Se bem que mais numas do que noutras. Mas diz a lógica que quando há falta de democracia, acrescenta-se democracia, não se tira ainda mais. Mas o ar dos tempos - que em Portugal parece sempre surgir como brisa, até que uma rabanada nos enche os olhos de areia - diz que não. Sob a capa dos slogans do ar dos tempos - entre os quais “racionalização” - evita-se responder às questões de fundo, ou sequer formulá-las: queremos ou não ensino superior como serviço público? Queremo-lo ou não tendencialmente gratuito? Queremo-lo ou não gerido democraticamente? É na resposta a estas questões que se joga a razão.
Sou sensível ao argumento - que tem surgido por exemplo no Arrastão ou no Zero de Conduta - de que que há hipocrisia na concentração na figura de Mugabe (quando tantos outros ditadores não parecem levantar problemas) ou de que uma cimeira Europa-África é isso mesmo, independentemente de quem são os líderes nacionais. Mas então por que não fico convencido? Em certa medida porque Mugabe é especialmente performativo no seu ódio e na sua loucura, e nas percepções políticas isto conta e muito. É a sua performance racista, classista e homofóbica que faz dele uma “boa” figura para uma pedagogia contra esses males e para uma defesa simbólica da Europa como lugar e comunidade que os quer recusar. Mugabe funcionaria assim como um símbolo. E esta coisa das cimeiras e da diplomacia é, antes do mais, um teatro - uma performance - de posturas simbólicas. Também não me agrada a concentração de Brown e dos britânicos naquela figura, por saber que se deve a todo um complexo colonial e pós-colonial em torno da Rodésia/Zimbabué, e por quebrar o consenso europeu sobre a realização da cimeira, colocando mesmo em causa a sua viabilidade. Mas prefiro isso, com todos os defeitos, à lavagem de mãos sistemática que os governos portugueses fazem das suas relações com ditadores, ao “pragmatismo” de Sócrates. Em suma: é melhor haver este caso Mugabe do que não haver caso nenhum.
O homem que venha, então. Mas não vamos sair à rua para protestar contra as suas políticas e o insulto que ele personifica para o seu povo e para todos nós? Vamos só ficar a vê-lo jantar com Sócrates enquanto criticamos a inflexibilidade de Brown?
…no mundo do Direito.
O Arrastão mudou para aqui. Bons arrastos!
O assunto da localização do aeroporto resolvia-se bem com um campeonato de wrestling. Por um lado, isso permitiria que víssemos as personagens das associações empresariais, da universidade católica e do governo mostrando o que valem e dando o corpo ao manifesto. Por outro lado, os golpes, como as vitórias e as derrotas são combinados de antemão, bateria certo com os procedimentos usuais nestas coisas. Mighty Ota, Thundering Alcochete, e Portela Earthquake + 1 dariam um belo espectáculo. Um pouco infantil, é certo, mas apropriadamente. Podia até haver um campeonato paralelo, uma little league dedicada a decidir quem seria o + 1: Montijo Master? Alverca Terminator? Sintra Sledgehammer?
Enquanto isso, outro dia experimentei o novo Terminal 2 da Portela. Já não via uma rodoviária assim desde a última viagem ao terceiro mundo. Até dá direito a sentir o escape dos autocarros entrando pelos “gates”. Só não choca mais porque o Terminal 1 há anos que é, também ele, um pardieiro apertado, sistematicamente redecorado por uma equipa recrutada nas melhores lojas da Almirante Reis. O campeonato final - com todo o seu espírito de total demolition - para a decisão sobre o local do novo aeroporto, poderia mesmo ter lugar na Portela.
«Andamos vigiados. Precisamos de contar anedotas sobre brancos, pretos, judeus, muçulmanos, gays, machos, mulheres, loiras, morenas, católicos, papas, padres, rabinos, alentejanos, açorianos, portuenses, lisboetas, o que for. Para ver se somos gente normal. Ou se só copiamos os estereótipos politicamente correctos.» (Francisco José Viegas, no JN). O “problema”, Francisco José Viegas, é que em rigor não existem anedotas sobre brancos ou católicos; e muito menos sobre heterossexuais (que julgo ser o que quer dizer - erradamente - com “machos”). E as anedotas sobre homossexuais (na realidade sobre paneleiros, fufas, panascas, and so on) são uma espécie de guerra preventiva: uma forma de dizer a pessoas cuja sexualidade raramente está na cara que será feio e risível se algum dia correrem o risco de virem a ser identificadas naquela categoria. As liberdades, quando vistas a partir do centro neutro, são sempre uma coisa muito fácil, não é?
…o Boss disse tudo e muito bem.