Arquivo para October.2007
A série sobre a Guerra Colonial na RTP 1 - serviço público, canal aberto e em prime time - é uma autêntica sessão de terapia de grupo. Neste caso, o grupo é um bocadinho maior. Chama-se “os portugueses”. Ontem lá vimos as cabeças decepadas, os corpos crucificados, o transporte de dezenas de corpos para valas comuns; ouvimos falar de napalm e bombardeamentos, ouvimos (com os ouvidos de hoje) a palavra “terrorista”, ouvimos portugueses dizerem com tranquilidade expressões como “a pretalhada” e ouvimos africanos narrar como iam para a guerrilha inspirados num deus que chegou ali pela mão dos europeus. Mas no meio de tanta violência visual, os pequenos pormenores, resgatados dos arquivos ou apanhados hoje, são os que mais chamam a atenção: um tal de alferes Robles faz um discurso inflamado sobre o seu serviço à pátria; ao seu lado está Salazar, acho; subitamente o chefe/ pai/ patrão/ cura da nação faz um gesto para Robles falar mais devagar; este obedece e o enaltecimento da pátria torna-se mais lento e grave. Menino bonito: mata pretos com requintes de crueldade, mas obedece como uma colegial submissa ao grande chefe. Salazar não é, aliás, naquelas imagens, o velhinho que ficou na memória dos que nele votaram para maior português de sempre, é sim um homem duro manipulando um espectáculo. Mas de repente penso: “talvez não seja o Salazar, talvez eu esteja enganado”. É que o estilo pegava-se. Pega-se.
Salto no tempo: Adriano Moreira é entrevistado hoje. Sobre a sua chegada a Luanda quando o regime decide enviar tropa em força, diz candidamente qualquer coisa sobre como a população de Luanda apoiou a tropa, como o clima entre a população de Luanda mudou radicalmente - mais confiança, mais positividade. Nem por um segundo se apercebe que por “população” está a referir-se aos europeus.
Na terapia de grupo, não é a grande choradeira que conta. São os pequenos lapsos.
· 31.10.2007 · 9:06 · Categoria(s): media, portugal, política · Tag(s): No Tags · Enviar
Está acessível a partir de hoje o site/sítio que se articula com este blog. Por enquanto tem apenas conteúdos referentes a 2007. Daqui até ao fim do ano será possível preenchê-lo com crónicas, artigos, ilustrações e outros materiais referentes e muito mais anos. Optar por um modelo de site não é tarefa fácil. Neste caso, resolveu-se correr todos os riscos: nem profissional apenas, nem pessoal apenas; antes um híbrido, como os tempos que correm.
· 29.10.2007 · 15:06 · Categoria(s): geral · Tag(s): No Tags · Enviar
As universidades entram agora no processo de revolução dos seus estatutos, de modo a aplicar o novo Regime Jurídico. As assembleias constituintes, que vão fazer os novos estatutos, são democraticamente eleitas. No entanto, a lista vencedora cooptará um conjunto de “personalidades externas de reconhecido mérito”. Estas “personalidades” terão direito a voto, serão para todos os efeitos membros das assembleias. Decidirão sobre o futuro das universidades. A justificação é a ligação da universidade à “sociedade”. O resultado é, como é fácil perceber, a penetração de toda a espécie de interesses. Como é que uma barbraidade destas passou, é coisa que não cessa de me espantar.
Querer reproduzir em Portugal uma qualquer fantasia positiva sobre as universidades americanas, através de uma receita em que se escolhem uns ingredientes e se deixam de lado outros, é não perceber nada de duas coisas: de EUA e de Portugal. Corrijo: é perceber, e muito, de Portugal, pois já se está mesmo a ver de onde vem o “reconhecimento”, de que “mérito”, e aplicado a que “personalidades”.
· 29.10.2007 · 13:44 · Categoria(s): universidade, portugal, política · Tag(s): No Tags · Enviar
A Fernanda Câncio faz-nos o favor de traduzir passagens do acórdão do Tribunal Constitucional da África do Sul sobre a igualdade (em relação ao quê? Não digo, de propósito: é sobre a igualdade). No caso de o Tribunal Constitucional português ter alguma dificuldade com o inglês, a Fernanda (e eu e tanta gente) podemos ajudar, está bem?
· 26.10.2007 · 10:05 · Categoria(s): gay, portugal, política · Tag(s): África do sul, igualdade · Enviar
«O geneticista James Watson, premiado com o Nobel em 1962 por ter sido um dos descobridores da estrutura da molécula do ADN, demitiu-se esta manhã do conselho de administração do Laboratório de Cold Spring Harbor, nos Estados Unidos, onde trabalhou mais de 40 anos.» (Público)
E do Conselho Científico da Fundação Champalimaud?
· 25.10.2007 · 17:38 · Categoria(s): portugal, geral · Tag(s): racismo, watson · Enviar
Vale a pena reproduzir (desde logo porque não se consegue linkar) duas cartas de leitores (e a resposta de São José Almeida) hoje publicadas no Público a propósito da peça de SJA sobre Julieta Gandra:
«No texto publicado sobre a minha tia Julieta Gandra, na edição do PÚBLICO de domingo passado, 22/10/2007, foi-me atribuído um comentário a pretexto da relação que terá mantido com Fernanda Tomás, que não corresponde ao que eu disse, nem sequer ao que eu penso. O que eu disse - e, por isso, peço esta rectificação - é que a minha tia nunca me fez qualquer alusão a uma relação sentimental, explicita ou implicitamente. Nem eu nunca tive pessoalmente conhecimento que o tivesse feito a outros, família ou amigos. Como disse à jornalista São José Almeida, entendo que questões dessa natureza respeitam à vida privada de cada um. Também desminto em absoluto que tenha sido eu a dizer esta frase: “Elas tinham uma atitude muito natural em relação à situação. Não houve propriamente festa de casamento, mas naquelas idades não se faz isso.” Primeiro, porque, para mim, não havia qualquer “situação” sobre que ter “uma atitude muito natural”. Depois, porque também não tenho, nem nunca tive preconceitos quanto à idade de se fazerem festas de casamento. Ana Rita Gandra Gonçalves, Lisboa.
N.R. - Não tenho por prática profissional como jornalista inventar declarações. Mantenho o que escrevi no texto em causa. S.J.A.
Incluo-me no núcleo de pessoas que conviveram muito de perto com Julieta Gandra. Foi com agrado que me apercebi que, duas semanas após a sua morte, o PÚBLICO, na secção P2, dedica justificado espaço à sua memória. Porém, o texto aborda aspectos da sua vida íntima, que, justamente por serem íntimos, ninguém os pode nem deve dar como provados. Apraz-me assegurar que a sua relação com Fernanda Paiva Tomás (outra pessoa de excepção) foi forjada na coragem de assumirem a dissidência política. Pagaram o seu preço. Depois de mortas, continuam a pagá-lo. Henrique Gama, Lisboa.»
Porque é isto interessante? Porque, caso se tratasse de uma alusão a uma relação heterossexual, é bem provável que não tivesse havido qualquer reacção dos leitores.
· 25.10.2007 · 12:37 · Categoria(s): gay · Tag(s): homossexualidade, vida privada · Enviar
Mais do que conduzirem a uma reflexão crítica sobre o estado da escola pública, os supostos rankings escolares que alguns jornais e TVs tanto gostam de mostrar, parecem um exercício de descarado classismo. As melhores notas obtêm-se nas escolas mais caras e mais selectivas socialmente. Obrigado pela informação. Assim os pais dos miúdos que andam nas outras escolas todas ficam a saber que com dinheiro, família e igreja o sucesso é garantido. Da próxima poderiam mostrar com quem os alunos desses colégios se casam, e em que empresas obtêm emprego. Mas não é esse o propósito de tanto investimento jornalístico no tema. Nem sequer se trata de uma vontade cívica de nos informar sobre o estado da educação. A obsessão de alguma media com os rankings vai sempre junto com editoriais sobre a liberdade de escolha das escolas, sobre a definição local de programas, sobre os cheques-escola, sobre a liberdade de educação e por aí fora. Trata-se, simplesmente, de criar o clima social para a conquista de um dos últimos mercados a retirar à coisa pública. O motivo ulterior é a evangelização mercantil.
· 25.10.2007 · 10:55 · Categoria(s): portugal, política · Tag(s): escolas, ranking · Enviar
A propósito de não sei o quê, o homem no autocarro disse: «Com um olho no cu e outro no cigano». Ora aqui está um exemplo de algo que deve ser censurado (não interessa para o caso o potencial erótico daquela frase…). Não pela lei, mas pelos interlocutores ou pelos circundantes. Crime de correcção política, como bradaria logo o actual Fernandismo? Acontece que ao longo da História já perdemos muita coisa - e muitas perdemo-las porque as quisemos deitar fora. Porque, a partir de certo momento, as achámos intoleráveis. Ao perdê-las perdemos também um pedaço de “património”, como no caso de ditos como aquele? Sim. So what(son)? Também a escravatura era, além de instituição político-económica, um universo de práticas e valores culturais. Provavelmente os abolicionistas foram acusados de quererem acabar com todo um universo cultural (provavelmente, não, foram-no mesmo, pelo menos no Sul dos EUA).
· 24.10.2007 · 11:48 · Categoria(s): antropologia · Tag(s): homofobia, racismo · Enviar
1. É muito curioso que o caso Watson tenha agitado tanto a sociedade portuguesa - pelo menos a que se revela na comunicação social. Dir-se-ia que décadas de propaganda colonial sobre a suposta tolerância e não-racismo portugueses (o famoso - ou infame? - lusotropicalismo) têm abafado o racismo despoletado pelos fluxos de “outros” para o jardim à beira-mar plantado. É preciso um cientista americano dizer uma asneira - como o próprio reconheceu - para se ter uma desculpa para confundir o politicamente correcto (na origem uma atitude de exigência de respeito pelos violentados simbolicamente e não, como agora se quer fazer crer, sinónimo de hipocrisia) com aquele artefacto ideológico do antigo regime - e assim abrir as portas para o “e se fosse verdade que eles são mesmo inferiores”?
2. Se há diferença substancial entre o discurso científico e o de senso comum, é que o primeiro suspende sistematicamente a veracidade do segundo e vigia a sua penetração na produção de ciência. Quando uma noção científica penetra no senso comum é transformada em mais senso comum; quando o inverso acontece, o senso comum não é transformado em ciência. Ou, pelo menos, não deveria sê-lo. Certas áreas da vida social são de tal forma vistas de modo essencialista que até a ciência - melhor, alguns dos seus actores e actrizes - têm dificuldade em suspender a validade do senso comum. O sexo e a “raça” são os casos mais flagrantes, desde logo pelo facto de o trabalho de classificação simbólica ser feito a partir de matérias do corpo.
3.Muitos de nós nas ciências sociais escrevemos “raça” assim mesmo, entre aspas. Com isso queremos dizer isto: não existem raças humanas no sentido biológico, mas muitas sociedades funcionam com base numa qualquer ideia de “raça”. Nem sempre e sobretudo não da mesma maneira, mas deixemos isso de lado. Quando procedemos ao inquérito científico sobre “raça”, o que investigamos é como nascem e se reproduzem e agem as categorias de senso-comum sobre “raça”. Isso inclui a análise de como conceitos históricos da ciência passaram para o senso comum. “Raça” é um deles. Como a ciência - dura ou mole, natural ou social, pouco importa - é uma actividade social humana em contexto (algo que assuta os mais ignorantes, que nela depositam a esperança de uma nova dogmática ou normativa), tempos houve em que “raça” surgiu. Tal como a teoria da Terra plana, não tem qualquer validade hoje. Mas sobrevive “lá fora”, para lá dos campus e laboratórios. Como nos restaurantes e cafés que “sustentam” as observações selvagens de Watson sobre a inteligência relativa de empregados com a pela mais ou menos clara
4. O consenso estabelecido hoje na ciência social (e não só) é de que “raça” é um fenómeno social de classificação simbólica com base na definição de algumas (arbitrárias, mas fixas uma vez estabelecidas) características fenotípicas, sistematicamente utilizada para criar, ao mesmo tempo, diferença e desigualdade entre grupos (daí, até, que “raça” muitas vezes seja ventríloqua de classe, de etnia, de nação, de religião, de endógenos e exógenos, e vice-versa). A “raça” é, sempre e logo, também um sistema de assimetrias e hierarquias. E a raiz destas está nos processos históricos concretos que lhe deram azo e formas específicas. No nosso caso, valerá a pena repetir a lenga-lenga da expansão, da escravatura, do colonialismo, do eugenismo e do Holocausto?
5. É por isso também que para muitos de nós não é a “raça” que está na origem do racismo, mas sim o contrário. Frase provocatória? Sem dúvida. Mas pedagógica na sua intenção. A capacidade de classificar e discriminar é humana e provavelmente nunca nos veremos “livres” dela; mas as classificações e discriminações são também quase sempre o combustível de processos de poder em que as desigualdades são legitimadas pela essencialização e naturalização das diferenças. É tão espantosamente fácil desconstruir isto (por exemplo, relembrando como muitos de nós somos classificados como “brancos” em certos contextos sociais e políticos e como “não-brancos” noutros) quanto parece ser difícil convencer muitos de que as coisas poderiam ter seguido o curso inverso (se as sociedades africanas tivessem liderado o processo da meracantilização mundial os “brancos” seriam hoje suspeitos de pouca inteligência - e também elogiados por maravilhosas habilidades físicas, musicais e outras sensualidades simétricas de selvajarias e canibalismos vários…). O racismo é o processo - político, ocial, cultural, tudo isto incluindo a ciência - de criação de diferença para a desigualdade. A luta cívica deve ser, em última instância, mais contra o racismo do que pela harmonia “entre raças”.
6. No entanto: é porque a “raça” funciona, no real (quer gostemos, quer não), como categoria histórica e sociológica de manutenção de diferenciações geradoras de desigualdades que muitas vezes se tem que combater a discriminação com base na “raça” ou que, no outro extremo, muitas movimentações sociais e identitárias se fazem recorrendo à identidade “racial”. Aceitamos isto na medida em que só podemos pensar e agir com as categorias que temos. Aceitamos, até certo ponto, este “essencialismo estratégico”. Mas não podemos abdicar de um pensamento crítico que vá mais longe (e a ci~encia deve produzi-lo, indo mais longe do que as categorias que temos…) e que defina claramente o racismo como o verdadeiro processo social problemático e a combater, e a “raça” como uma triste e trágica invenção, da mesma ordem que a “histeria feminina” ou o “carácter nacional”.
7. Uma ciência sem auto-consciência não é ciência, é uma mecânica utilitarista. Uma ciência sem consciência social não é ciência, é uma monstruosidade positivista (e já vimos no que isso deu nos anos 30 e 40 europeus, ou será que não vimos?). Uma comunicação social que não pára um segundo, antes de escrever, para se perguntar o que, se algo, constitui a “essência” de “raça” ou de “pretos” ou de “brancos”, o que constitui a ciência, ou quais os efeitos do que diz sobre a desigualdade já existente, não é comunicação social – é , na “melhor” das hipóteses, uma caixa de ressonância do senso comum ou, na pior, um ainstrumento de propaganda.
· 23.10.2007 · 15:33 · Categoria(s): antropologia · Tag(s): politicamente correcto, racismo, watson · Enviar
O padecimento de Maria Fernanda tem cura. Reputados especialistas têm abordado casos semelhantes. Aparentemente tudo começa com um acontecimento traumático na infância, mais exactamente no momento em que se produz uma ruptura no lesbianismo primordial da relação de amamentação e contacto de pele mãe-filha, normalmente por via da intromissão de uma figura patriarcal. A criança traumatizada cresce, então, de forma imatura, procurando satisfazer as exigências patriarcais sob a forma de uma atracção por figuras masculinas. A síndrome pode ser agravada se, no decurso do desenvolvimento psico-social, a jovem for exposta a impulsos ambíguos, como é o caso da permanência em ambiente unisexuais mas assexuados, como em certas formas de co-residência promovidas por alguns cultos religiosos. A resolução do sofrimento da quebra do lesbianismo primordial passa por, naturalmente, resgatar a lésbica adormecida em si. Tal consegue-se por duas vias - pelas terapias aversivas ou pelas de gratificação e recompensa. No respeitante à primeira aconselha-se o tratamento com electrochoques - largamente experimentado em meados do século XX - provocando pequenas doses de dor quando a paciente se confronta com imagens masculinas ou fálicas; quanto à segunda, pequenos exercícios de experimentação sáfica deverão ser recompensados, no que constitui uma forma de condicionamento com sucesso bastas vezes comprovado entre os primatas superiores (categoria que abrange, como se sabe, o tipo de pacientes em causa).
· 22.10.2007 · 13:31 · Categoria(s): gay · Tag(s): homofobia · Enviar
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