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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Arquivo para antropologia

Tudo é provisório

Sessão de autógrafos de A Chave do Armário ontem na Feira do Livro. Num intervalo leio de novo o prefácio. Tão desfasado em tantas coisas. Umas mudadas para melhor, outras para pior. Focando nas boas, que invertem algumas queixas no prefácio: o casamento foi aprovado no Parlamento; já existe um órgão do governo que tem como uma das suas competências a promoção da igualdade com base na orientação sexual e identidade de género; e o activismo cresceu muito em termos de voluntariado.

Amor líquido

Desde 2003 que estou para ler Liquid Love do sociólogo Zygmunt Bauman. Finalmente consigo.

Da Foreword:

«The hero of this book is Der Mann ohne Verwandtschaften - the man with no bonds (…) the denizen of our liquid society (…)»

«The uncanny frailty of human bonds, the feeling of insecurity that frailty inspires, and the conflicting desires that feeling prompts to tighten the bonds yet keep them loose is waht this book tries to unravel…»

«The principal hero of this book is human relationship (…) so desperate to ‘relate’; yet wary of the state of ‘being related’…»

«…human attention tends nowadays to be focused on the satisfactions that relationships are hoped to bring precisely because somehow they have not been found fully and trully satisfactory; and if they do satisfy, the price of the satisfaction they bring has often been found to be excessive and unacceptable.»

«What they hope to hear from the counsellors is how to square the circle: to eat the cake and have it, to cream off the sweet delights of relationship while omitting its bitter and tougher bits…» Ler o resto da entrada »

Tão bom,

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ter podido participar na homenagem a Benjamim Pereira.

Breakthrough

«Australia may have made gender history this week, as the New South Wales government lays claim to being the first in the world to recognise an individual’s sex as officially “not specified”.»

Talvez haja quem não se aperceba da importância desta notícia, remetendo-a para o campo das questões supostamente “menores” e “politicamente correctas” ou achando que tem a ver apenas (e nunca seria “apenas”) com os direitos das pessoas transgénero e transexuais. Já seria suficiente, mas ela pode significar muito mais: o começo do fim da ditadura categorial de género com que temos vivido quase sem questionamento (desde logo, e este sim exemplo menor, de cada vez que marcamos M ou F em n questionários, ao mesmo tempo que reagimos com vários graus de perplexidade às entradas sobre “etnia”, “raça” e quejandos). Este pode bem ser um breakthrough político e antropológico.

O Jason…

sabe do que fala.

Libertação, igualdade, queer.

O movimento lgbt caminhou de um paradigma de libertação para um paradigma de igualdade. O primeiro juntava as energias da contra-cultura, vinda dos anos sessenta, e do pensamento revolucionário. Via na afirmação da homossexualidade, no seu desocultamento, na criação de uma cultura e comunidade, um gesto de emancipação da heteronormatividade e, por vezes, um gesto de superação da mesma e do patriarcado. Em certos momentos e contextos esse paradigma podia conduzir mesmo ao separatismo. O seu “modo” cultural era a afirmação da diferença. O segundo tem uma raiz liberal e procura sobretudo a obtenção de direitos. Também aposta no desocultamento e na criação de cultura e comunidade, mas numa perspectiva mais plural e tem como “modo” cultural a busca da “indiferença”. Um não substituiu o outro, ambos persistem, e elementos de ambos podem encontrar-se nas mesmas pessoas, organizações, estratégias, etc. Um terceiro paradigma tem emergido - o queer. Pretende superar a noção de definição identitária. Nisto, partilha elementos contra-culturais e de libertação, mas fá-lo num modo que pode também ser consonante com um certo individualismo, próprio de visões pós-modernas que podem acabar por se dar bem com os modelos do decisor racional em busca do auto-interesse, definindo a identidade individual através da performance de si e do consumo. Os 3 paradigmas e modos - libertação, igualdade, e queer - podem e devem coexistir, mas têm funções e virtualidades específicas. No plano da acção política o paradigma da igualdade tem provado ser o mais eficaz. E no plano ético é o que garante mais liberdade e diversidade, ao contrário do que dizem os seus detractores, que o apelidam de “burguês” e demasiado preso aos procedimentos da “democracia liberal”. Não vejo nisso um problema, porque este paradigma não impede uma análise de longue durée da condição lgbt, análise essa baseada numa abordagem de libertação, nem impede uma vivência cultural, individual e saudavelmente provocadora de tipo queer.

Fosso cultural

A pedinte é uma cigana romena. Está sentada no passeio e repete uma frase de pedido de ajuda. Repete-a sem fim. Levanta-se e aproxima-se, repetindo a mesma frase. Insiste, insiste, insiste. Perante a minha recusa, roga-me uma praga. Percebo o verbo “morrer”. Fico a pensar no fosso cultural. Passar uma mensagem através da repetição e da insistência não é exactamente o “nosso” modelo (”nosso” português e “nosso” de classe, grupo social, whatever; estamos mais habituados à sedução e argumentação, por muito falaciosa que seja); e rogar uma praga, jogando com a superstição e a distância étnica que “especializa” os ciganos no rogar de pragas (e a crença na eficácia das mesmas) tão-pouco faz parte do modelo (já fez, mas já não é consensual). Ou seja: o infortúnio daquela mulher (a ser verdadeiro, mas isso é irrelevante para o caso) é exponenciado pela sua falta de conhecimento da cultura local. O seu trabalho não é eficaz para a prossecução dos seus próprios interesses.

Rapazes (e raparigas)

Início dos anos 80, um grupo de entusiasmados - e um pouco bebidos… - estudantes de antropologia (e um de estudos portugueses) no meio da Festa dos Rapazes da aldeia de Babe, concelho de Bragança. Lá pelo meio, e com imaginação, podem ver este vosso servo. Ai, ai… (bem, este ai, ai era escusado: não sou dado à melancolia e quando as memórias do passado são boas fazem o presente ainda mais feliz, não mais triste). Obrigado ao João que, depois de na época ter tido que enviar a película a revelar em Espanha (aprendam, contemporâneos de vida facilitada!), digitalizou esta arqueologia…

Os nossos queridos marcadores

Sabes o que é, Maria João? É que às vezes não há pachorra. Quando li a divulgação daquele estudo disse logo para mim mesmo “oh, não, vem aí merda…”. Basta ler a caixa de comentários ao post do irmãozinho para perceber do que se trata: desata-se logo o chorrilho de confusões sobre “raça” e grupo étnico e religião e cultura. Uma salganhada. Confusões que, aliás, não são maiores do que as que estão implícitas naquele tipo de estudos: há um gigantesco salto lógico que é dado quando se passa do estudo dos marcadores para as ilações sobre descendência no sentido cultural. O estudo é o que é (e é válido, não é isso que está em causa): um estudo de marcadores que, por si, não dizem nada, isto é, não significam. As ilações são inevitavelmente políticas, carregadas de significados produzidos aqui e agora por relações sociais e não por marcadores ou por nossosenhorjesuscristo. É nas ilações que começa a “guerra”: o nacionalista assusta-se por “ter” tantos antepassados judeus; o multiculturalista fica contente por ver o nacionalista lixado; ambos estão a usar o significante “judeu” ou “mouro” com uma carga de significado que não está nos marcadores. Desculpa (desculpem) a linguagem, mas é que é assim mesmo: aquelas duas “coisas” - o estudo e as ilações - são incomensuráveis.

PS - já agora, e a contrapêlo do que digo acima: pena é que a “mestiçagem” a que alude o artigo do Público sobre aquele estudo não tenha incluído dados sobre a “nossa” “herança” (tanta aspa, meus deuses…) negra-africana… Então é que era um forró. (também aqui)

Feliz centenário, Claude

“A long terme, tout penseur célèbre peut être certain de deux choses : de mourir et d’être considéré comme dépassé. Quand le premier événement intervient avant le second, c’est une chance.” La boutade de l’anthropologue américain Marshall Sahlins est citée par sa consoeur brésilienne Manuela Carneiro da Cunha, dans le quotidien Folha de Sao Paulo. Elle ajoute : “Claude Lévi-Strauss aura 100 ans le 28 novembre, ce qui lui a donné le temps d’inventer une troisième possibilité : avoir été considéré comme dépassé par quelques-uns, et être redécouvert de son vivant.”

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