
Estava a tentar perceber por que não me entusiasma o Maio de 68. Isto é, por que não é parte do meu imaginário mais afectivo e estético. De repente lembrei-me de termos falado, eu e alguns amigos, sobre isso mesmo nos tempos da faculdade, nos inÃcios dos anos 80. Quando se deu o 25 de Abril tinha 13 anos e fui politizado a alta velocidade. A revolução foi entusiasmante, mas depois do 25 de Novembro e à medida que se aproximava o tempo da faculdade, querÃamos coisas novas, querÃamos que as discussões e debates e formas de vida da revolução evoluÃssem para formas novas, mais criativas e mais livres de viver o quotidiano. Estávamos fartos das discussões de grande ideologia. E essas discussões eram de certo modo mantidas pela geração que tinha “vivido” o Maio de 68 e para quem o 25 de Abril era a sua continuação em Portugal. “Nós” (isto é, um certo “ar dos tempos” entre alguns jovens universitários) fizemos a coisa tÃpica dos jovens: identificámos uma certa “geração” como aquela com quem não nos querÃamos identificar - e “os de Maio de 68″ eram a etiqueta disponÃvel. Se eles gostavam de poesia, nós gostávamos de banda desenhada; se eles gostavam de “cinema francês” (uma generalização, claro), nós gostávamos de cinema americano; se eles gostavam de ir a Paris, nós gostávamos de ir a Nova Iorque (a transição de um mundo de referências francófonas para um de referências anglófonas talvez tenha sido um importante divisor); se eles gostavam de referências com toques hippie, nós gostávamos de referências urbanas; se eles viviam o amor em straight mode, nós abrÃamo-nos à s possibilidades gay (que na época queria dizer mais, o mesmo que hoje se entende por queer) . E por aà fora. Se calhar foi só um daqueles arrufos tÃpicos entre irmãos mais velhos e irmãos mais novos. Se calhar foi mais. Não sei.
Por pouca importância que estas coisas tenham, elas marcam. Ainda hoje olho para a polÃtica portuguesa, sobretudo à esquerda e - apesar de já ter quarenta e muitos anos - continuo a vê-la como coisa de irmãos mais velhos…
· 9.05.2008 · 11:50 · Categoria(s): devaneio · Tag(s): maio de 68 · Enviar
«O Grupo BES qualifica como injuriosas e demarca-se das afirmações produzidas hoje pelo activista Bob Geldof sobre as autoridades angolanas. “O Grupo Banco EspÃrito Santo vem, formal e inequivocamente, declarar que é totalmente alheio e não se identifica com as afirmações injuriosas que Bob Geldof proferiu esta tarde num evento Expresso/BES relativamente ao Estado de Angola”, refere uma nota tornada pública pelo grupo financeiro. Bob Geldof falou esta manhã numa conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, organizada pelo Banco EspÃrito Santo e jornal Expresso, dedicando uma intervenção de cerca de vinte minutos ao tema “Fazer a diferença”.»
[Pela parte que me toca já fechei há tempos uma conta que tinha no BES (e no Millenium também). Que tal mais gente “fazer a diferença”? Que tal passarmos ao activismo mesmo, em vez de nos queixarmos do paÃs e dos polÃticos e dos partidos que temos?]
· 6.05.2008 · 20:13 · Categoria(s): geral · Tag(s): No Tags · Enviar
Muitas vezes os cientistas sociais fazem pesquisa pensando que é neutra e que apresenta factos, factos esses que depois, crê-se, pode acontecer serem “abusados” pelos media. Muitas vezes os media pegam em dados de pesquisas e apresentam-nos fragmentados, ainda que com a boa intenção de denunciar alguma iniquidade. Mas uns e outros fazem muitas vezes estas coisas com base numa ilusão: a de que os assuntos de que falam não assentam à partida em desigualdades de poder fortÃssimas e mesmo estruturais. Por exemplo: há espaço de manobra para abordar neutralmente o número de pessoas que se assumem como gays ou lésbicas? Ou as atitudes e valores sobre homossexualidade? Duvido. Estamos a falar de uma minoria dificilmente apreensÃvel em amostras pequenas e estamos a falar de uma minoria simbólica e social que vive num sistema que tem como uma das suas bases a sua diabolização, criando vergonha social, silêncio, invisibilidade e mentira.
Seja como for: e se reenquadrássemos a interpretação do inquérito referido no post abaixo? Isto é, e se começássemos por constatar que 87,7% da pessoas se autoidentificam como heterossexuais? E se perguntássemos aos inquiridos se acham a heterossexualidade uma orientação tão legÃtima como as outras? Do ponto de vista cientÃfico não estarÃamos, em rigor, a cometer nenhum erro. Do ponto de vista da nossa responsabilidade para com uma democracia que não deve ser ditadura da maioria (mas cujo valor se mede, justamente, pelo respeito pelas e integração das minorias) não estarÃamos a criar valor acrescentado?
· 6.05.2008 · 18:17 · Categoria(s): ciência, media, gay · Tag(s): No Tags · Enviar
A estranhamente denominada Coordenação Nacional para a Infecção VIH/Sida encomendou ao ICS o Inquérito “Saúde e Sexualidade”. O Público achou por bem fazer uma peça de infeliz efeito que foca apenas numa pergunta do inquérito, aliás duvidosa (pois pergunta se as pessoas acham a homossexualidade “errada” e não, por exemplo, se a acham “igual à s outras”…). Qualquer pessoa de inteligência média lê esta peça e conclui: 1) afinal só há meia-dúzia de gays e lésbicas; 2) a sociedade portuguesa “votou” contra a homossexualidade. E isto mesmo que a intenção do artigo tenha eventualmente sido a de mostrar quanta homofobia existe entre nós.
Depois do jornalismo, o que se seguirá em termos de “leitura” do Inquérito (ou de “leitura” da “leitura” do Inquérito)? Ou seja: que fará com isto um polÃtico conservador, contra a igualdade, ou um polÃtico aflito da área do governo - a mesma da encomenda? E a investigação, que ilações tirará dos efeitos do seu conhecimento e dos limites da sua metodologia?
Ou será que ninguém acha mesmo que a homofobia é um/O mal (que é … “errada”), que é estruturante da nossa sociedade, que assenta numa assimetria e desigualdade de género e de orientação sexual e que afecta de facto a vida de muita gente - sejam 1% ou 10% ou 20%?
· 5.05.2008 · 15:45 · Categoria(s): media, gay, universidade · Tag(s): No Tags · Enviar
Desta vez em Boston (de certo modo o circuito irlandes continua…). Regresso ao postar normal na segunda ou terca-feira (ja com acentos…)
· 2.05.2008 · 15:17 · Categoria(s): geral · Tag(s): No Tags · Enviar
Meus deuses, será que vem aà a Dama de Leite?
· 30.04.2008 · 8:07 · Categoria(s): portugal, polÃtica · Tag(s): No Tags · Enviar


· 30.04.2008 · 7:58 · Categoria(s): internacional · Tag(s): belfast · Enviar



· 26.04.2008 · 15:51 · Categoria(s): internacional · Tag(s): No Tags · Enviar
Passando o 25 de Abril em Dublin. Anda-se pelas ruas e há por todo o lado bandeiras anunciando o Festival de Teatro Gay. É então que reparo no logo: Oscar Wilde comum cravo na boca.
PS: Ah, e catazes que dizem “Say no to Lisbon” (aqui há referendo ao Tratado da dita…)
· 25.04.2008 · 20:39 · Categoria(s): devaneio · Tag(s): No Tags · Enviar

O 25 de Abril vai ter o tempo noticioso ocupado com Ferreiras Leites, Santanas, Jardins e Menezes. Estas pessoas vão levar-nos directos para os divãs dos psicanalistas em dois tempos. A minha cabeça, pelo menos, já se baralha toda: falam-me desta gente e vêm-me logo imagens de avozinhas, porquinhos, lobos, sopros, comezainas, traições, terrores nocturnos, pai-por-favor-deixa-a-luz-acesa. No meio disto não há cravo que medre.
PS: para compensar a ausência destes últimos dias…
· 24.04.2008 · 10:38 · Categoria(s): devaneio · Tag(s): No Tags · Enviar
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