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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

68

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Estava a tentar perceber por que não me entusiasma o Maio de 68. Isto é, por que não é parte do meu imaginário mais afectivo e estético. De repente lembrei-me de termos falado, eu e alguns amigos, sobre isso mesmo nos tempos da faculdade, nos inícios dos anos 80. Quando se deu o 25 de Abril tinha 13 anos e fui politizado a alta velocidade. A revolução foi entusiasmante, mas depois do 25 de Novembro e à medida que se aproximava o tempo da faculdade, queríamos coisas novas, queríamos que as discussões e debates e formas de vida da revolução evoluíssem para formas novas, mais criativas e mais livres de viver o quotidiano. Estávamos fartos das discussões de grande ideologia. E essas discussões eram de certo modo mantidas pela geração que tinha “vivido” o Maio de 68 e para quem o 25 de Abril era a sua continuação em Portugal. “Nós” (isto é, um certo “ar dos tempos” entre alguns jovens universitários) fizemos a coisa típica dos jovens: identificámos uma certa “geração” como aquela com quem não nos queríamos identificar - e “os de Maio de 68″ eram a etiqueta disponível. Se eles gostavam de poesia, nós gostávamos de banda desenhada; se eles gostavam de “cinema francês” (uma generalização, claro), nós gostávamos de cinema americano; se eles gostavam de ir a Paris, nós gostávamos de ir a Nova Iorque (a transição de um mundo de referências francófonas para um de referências anglófonas talvez tenha sido um importante divisor); se eles gostavam de referências com toques hippie, nós gostávamos de referências urbanas; se eles viviam o amor em straight mode, nós abríamo-nos às possibilidades gay (que na época queria dizer mais, o mesmo que hoje se entende por queer) . E por aí fora. Se calhar foi só um daqueles arrufos típicos entre irmãos mais velhos e irmãos mais novos. Se calhar foi mais. Não sei.

Por pouca importância que estas coisas tenham, elas marcam. Ainda hoje olho para a política portuguesa, sobretudo à esquerda e - apesar de já ter quarenta e muitos anos - continuo a vê-la como coisa de irmãos mais velhos…

LOL

«O Grupo BES qualifica como injuriosas e demarca-se das afirmações produzidas hoje pelo activista Bob Geldof sobre as autoridades angolanas. “O Grupo Banco Espírito Santo vem, formal e inequivocamente, declarar que é totalmente alheio e não se identifica com as afirmações injuriosas que Bob Geldof proferiu esta tarde num evento Expresso/BES relativamente ao Estado de Angola”, refere uma nota tornada pública pelo grupo financeiro. Bob Geldof falou esta manhã numa conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, organizada pelo Banco Espírito Santo e jornal Expresso, dedicando uma intervenção de cerca de vinte minutos ao tema “Fazer a diferença”.»

[Pela parte que me toca já fechei há tempos uma conta que tinha no BES (e no Millenium também). Que tal mais gente “fazer a diferença”? Que tal passarmos ao activismo mesmo, em vez de nos queixarmos do país e dos políticos e dos partidos que temos?]

Há 87,7% de heterossexuais

Muitas vezes os cientistas sociais fazem pesquisa pensando que é neutra e que apresenta factos, factos esses que depois, crê-se, pode acontecer serem “abusados” pelos media. Muitas vezes os media pegam em dados de pesquisas e apresentam-nos fragmentados, ainda que com a boa intenção de denunciar alguma iniquidade. Mas uns e outros fazem muitas vezes estas coisas com base numa ilusão: a de que os assuntos de que falam não assentam à partida em desigualdades de poder fortíssimas e mesmo estruturais. Por exemplo: há espaço de manobra para abordar neutralmente o número de pessoas que se assumem como gays ou lésbicas? Ou as atitudes e valores sobre homossexualidade? Duvido. Estamos a falar de uma minoria dificilmente apreensível em amostras pequenas e estamos a falar de uma minoria simbólica e social que vive num sistema que tem como uma das suas bases a sua diabolização, criando vergonha social, silêncio, invisibilidade e mentira.

Seja como for: e se reenquadrássemos a interpretação do inquérito referido no post abaixo? Isto é, e se começássemos por constatar que 87,7% da pessoas se autoidentificam como heterossexuais? E se perguntássemos aos inquiridos se acham a heterossexualidade uma orientação tão legítima como as outras? Do ponto de vista científico não estaríamos, em rigor, a cometer nenhum erro. Do ponto de vista da nossa responsabilidade para com uma democracia que não deve ser ditadura da maioria (mas cujo valor se mede, justamente, pelo respeito pelas e integração das minorias) não estaríamos a criar valor acrescentado?

Homofobias há muitas…

A estranhamente denominada Coordenação Nacional para a Infecção VIH/Sida encomendou ao ICS o Inquérito “Saúde e Sexualidade”. O Público achou por bem fazer uma peça de infeliz efeito que foca apenas numa pergunta do inquérito, aliás duvidosa (pois pergunta se as pessoas acham a homossexualidade “errada” e não, por exemplo, se a acham “igual às outras”…). Qualquer pessoa de inteligência média lê esta peça e conclui: 1) afinal só há meia-dúzia de gays e lésbicas; 2) a sociedade portuguesa “votou” contra a homossexualidade. E isto mesmo que a intenção do artigo tenha eventualmente sido a de mostrar quanta homofobia existe entre nós.

Depois do jornalismo, o que se seguirá em termos de “leitura” do Inquérito (ou de “leitura” da “leitura” do Inquérito)? Ou seja: que fará com isto um político conservador, contra a igualdade, ou um político aflito da área do governo - a mesma da encomenda? E a investigação, que ilações tirará dos efeitos do seu conhecimento e dos limites da sua metodologia?

Ou será que ninguém acha mesmo que a homofobia é um/O mal (que é … “errada”), que é estruturante da nossa sociedade, que assenta numa assimetria e desigualdade de género e de orientação sexual e que afecta de facto a vida de muita gente - sejam 1% ou 10% ou 20%?

Mais um intervalo

Desta vez em Boston (de certo modo o circuito irlandes continua…). Regresso ao postar normal na segunda ou terca-feira (ja com acentos…)

Pequeno intervalo em Lisboa

Meus deuses, será que vem aí a Dama de Leite?

Belfast

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Dubliners

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Wilde carnation

wilde.pngPassando o 25 de Abril em Dublin. Anda-se pelas ruas e há por todo o lado bandeiras anunciando o Festival de Teatro Gay. É então que reparo no logo: Oscar Wilde comum cravo na boca.

PS: Ah, e catazes que dizem “Say no to Lisbon” (aqui há referendo ao Tratado da dita…)

O cravo não medra

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O 25 de Abril vai ter o tempo noticioso ocupado com Ferreiras Leites, Santanas, Jardins e Menezes. Estas pessoas vão levar-nos directos para os divãs dos psicanalistas em dois tempos. A minha cabeça, pelo menos, já se baralha toda: falam-me desta gente e vêm-me logo imagens de avozinhas, porquinhos, lobos, sopros, comezainas, traições, terrores nocturnos, pai-por-favor-deixa-a-luz-acesa. No meio disto não há cravo que medre.

PS: para compensar a ausência destes últimos dias

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