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Os Tempos Que Correm

Miguel Vale de Almeida

Agora é aqui:

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Um novo blog. Ou: o rei morreu, viva o rei.

Depois de 3 meses de retiro das redes, e acabado este ciclo de anos dedicados a este Os Tempos Que Correm, regresso à blogosfera com Snake & Snail. Sejam bem-vind@s: mi blog es su blog.

morreu de morte

Este blog morreu, foi morrendo, de morte natural. O que até nem é mau. Declare-se, pois, morto. Talvez um dia um novo blog, quem sabe, com outro nome, noutro ciclo. E feliz ano 5772 para tod@s

:-)

This boy’s religion

try

Pois eu estava

no Feira Nova de Telheiras, hoje um Pingo Doce. Tinha acabado de comprar um leitor de DVD para a o meu pai. O meu pai fazia anos no dia seguinte. O meu pai tinha cancro e morreria no ano seguinte. A mim apetecia-me um café. Nem que fosse naquele balcãozinho deprimente a caminho do estacionamento. O empregado olhava para uma TV e não tinha expressão na cara. Um avião atravessava um arranha-céus. Senti: 1) espanto; 2) atração; 3) obscenidade (eu não devia estar a ver aquilo, aquilo não devia ser visto, aquilo não devia poder ser visto). Liguei ao meu companheiro, acho, não sei bem. Fui para o carro, fui para casa, fui para a TV. But there it is: perguntem-me onde estava e penso em hipermercados, em obscenidade, em DVDs, em TVs, em cancros, em cafés, em companheiros de outrora, e em parques de estacionamento.

Anestesia

Acho no mínimo engraçado que não se note assim tanta contestação social, política e sindical perante a verdadeira inviabilização do país. Há declarações, claro, e assim. Mas onde o grande fervor contestatário como o que houve contra o anterior governo? Mais: onde a “atenção” dos media, a sua “vigilância”, o “desmascaramento”? Nem os sindicatos, nem o PC, nem o Bloco - nem os jornais e TVs do costume - parecem ter metade da energia de há meses atrás. É no que dá a convicção do “são todos iguais”? Quando é a esquerda reformista a aplicar austeridade, a esquerda revolucionária grita “traição” e os media conservadores atacam as políticas sociais. Quando é a real thing no poder, a esquerda revolucionária encolhe os ombros, tipo desinteressada e aborrecida, e os media conservadores assobiam para o alto.

(Resta ao PS fazer oposição? Talvez. Se descobrir a margem de manobra para contestar o que for para além do memorandum com a troika; se denunciar o ataque ao estado social e o empobrecimento dos mais pobres e o fim da classe média; se apresentar propostas para a saída do túnel e o crescimento. Mobilizar a contestação social não está na sua natureza nem ao seu alcance. Mas que ponha os pontos nos ii.)

An ending (Lucky Luke or Jolly Jumper not included)

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Borboleta

Estamos em 2011, tenho 51 anos e, no entanto, na antropologia continuo a ser reconhecido como o autor de Senhores de Si, de 1995 – e o meu livro mais divulgado; Continuo a ser abordado por pessoas que pensam que ainda escrevo uma crónica semanal no Público, coisa que fiz entre 1992 e 1997; e a maior parte dos estranhos associa-me ao Bloco de Esquerda, em cujo início estive envolvido, em 1999 (e do qual me desfiliei em 2006). Entretanto, para mim o meu trabalho e livro mais importante é o último (e será sempre o último, creio), de 2009; depois das crónicas do Público dediquei-me sobretudo ao meu blog; e a passagem pelo Parlamento como independente pelo PS é o (f)acto político com que mais me identifico. Pergunto-me: porque são as coisas assim? E procuro uma resposta que possa ter algum interesse universal e não apenas narcísico. Creio que a resposta está nisto: uma pessoa fica marcada pela sua fase borboleta, pela saída do casulo depois da fase larvar. Na antropologia, na opinião, na política, aqueles “troféus” corresponderam a um coming out – na acepção genérica do termo, e não apenas (mas também) na estrita. E tudo se deu ali pelos trintas, quando - na família, no amor, no trabalho, na intervenção… - escolhemos o que vamos guardar da juventude e o que queremos aproveitar da maturidade. Não importa contrariar as percepções dos outros, insistir no que para nós é mais importante - e até devemos colocar a hipótese de a sua percepção ser também um juízo de valor, e eventualmente correto, sobre o que fizemos e fazemos. Tal como com os livros, somos “obra aberta”, a leitura que os outros inscrevem em nós.

O círculo

“We shall not cease from exploration

And the end of all our exploring

Will be to arrive where we started

And know the place for the first time”

(T. S. Eliot, in Maupin’s Mary Ann in Autumn)

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